O amor de um gato

Anatasha Koroshilova
Vivo com um gato que me odeia. Não me lembro de como isto começou, nem se existe um começo para o ódio. Tudo nele - a lentidão com que atravessa a sala, a volumosa juba, o miado de mezzosoprano- me parece uma declaração de hostilidades. Auto-centramento- diz a Rosa. Mas eu sei que o gato me dedica um soberano desprezo. Se entro na sala ele roda nas patas e muda de aposento. Recusa a comida de gato fino que lhe estendo, a mesma que come com elegância se a tia Mécia, a dona Paula ou mesmo a senhora das limpezas lha prepara. Um dia abandonei-o no mosteiro. Era uma forma menor de abandono já que o deus privado do mosteiro, acolitado pelo senhor Carlos da Farmácia, dão comida aos gatos vadios, de Celas à Cumeada. Maquilhei-o de gato de rua - ele bufou e tentou arranhar-me por três vezes- e larguei-o à noite na cerca do mosteiro. De manhã, quando chega com o pão fresco, a dona Paula encontrou-o à porta, lavou-o e ao pequeno-almoço ele fez-me a recepção do costume, negando-me o olhar e a companhia. Os homens são crianças- como diz a Rosa- e os gatos não gostam da infância- diz a Rosa. Tento ser um homem melhor, leio os poemas que Eliot dedicou aos gatos, bebo chá preto do Ceilão- o preferido dos gatos, como diz a Rosa. Visto fato às riscas e gravata, ponho colete , deixo crescer uma barba cubista, que- como diz a Rosa- me dá algumas possibilidades literárias. Vou de lista às compras , com a dona Paula. Ouço a tia Mécia ler Conversações com Dimitri – desta vez sem convencer a Rosa, mas não se pode estar com toda a gente ao mesmo tempo e ainda por cima querer, a todo o custo, a aprovação de um gato.
