15 julho 2009

O amor de um gato


Anatasha Koroshilova

Vivo com um gato que me odeia. Não me lembro de como isto começou, nem se existe um começo para o ódio. Tudo nele - a lentidão com que atravessa a sala, a volumosa juba, o miado de mezzosoprano- me parece uma declaração de hostilidades. Auto-centramento- diz a Rosa. Mas eu sei que o gato me dedica um soberano desprezo. Se entro na sala ele roda nas patas e muda de aposento. Recusa a comida de gato fino que lhe estendo, a mesma que come com elegância se a tia Mécia, a dona Paula ou mesmo a senhora das limpezas lha prepara. Um dia abandonei-o no mosteiro. Era uma forma menor de abandono já que o deus privado do mosteiro, acolitado pelo senhor Carlos da Farmácia, dão comida aos gatos vadios, de Celas à Cumeada. Maquilhei-o de gato de rua - ele bufou e tentou arranhar-me por três vezes- e larguei-o à noite na cerca do mosteiro. De manhã, quando chega com o pão fresco, a dona Paula encontrou-o à porta, lavou-o e ao pequeno-almoço ele fez-me a recepção do costume, negando-me o olhar e a companhia. Os homens são crianças- como diz a Rosa- e os gatos não gostam da infância- diz a Rosa. Tento ser um homem melhor, leio os poemas que Eliot dedicou aos gatos, bebo chá preto do Ceilão- o preferido dos gatos, como diz a Rosa. Visto fato às riscas e gravata, ponho colete , deixo crescer uma barba cubista, que- como diz a Rosa- me dá algumas possibilidades literárias. Vou de lista às compras , com a dona Paula. Ouço a tia Mécia ler Conversações com Dimitri – desta vez sem convencer a Rosa, mas não se pode estar com toda a gente ao mesmo tempo e ainda por cima querer, a todo o custo, a aprovação de um gato.

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09 agosto 2007

À espera de mostrar o pipi

Estou na consulta de gine. Na tv shop anunciam uma parafina pra pincelar as partes do corpo a emagrecer, mais uma faixa hosmótica, vulgo película aderente, mais uma fita métrica, tudo pela melódica quantia de 60 euros.
Se não gostarmos de nada no nosso corpo, pode-se adelgaçar até fazer desaparecer tudo. O pior é dar baixa nas finanças.

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30 julho 2007

Dance me to the end of love


C. Boltanski

Discutiam temas que para o comum da população nem sequer existiam. Discutiam porque lhes estava nos genes de privilegiados pela polis que lhes dera tempo para esbracejarem na ágora. As túnicas esvoaçavam a cada nova mudança de sopro. A brisa era sempre de verão — tudo isto só é possível passar-se num clima mais que temperado. Não se vislumbravam as manhãs nevoentas e rígidas de kant sempre a passar à mesma hora pelo mesmo local como um autómato da razão. Quem disse que é preciso frio e rigor para pensar? Houve tempos em que a civilização não era pseudo, mas pessimista e céptica e sexista e lésbica e homofílica e pedófila, a long time ago in a galaxy far, far away…
O céu era de um azul que descrevem como único e mediterrânico e que afinal era mais puro no atlântico sul, sempre mais a sul, hallelujah!
Havia cítaras e requebros de quem era profissional abstracto e lutava por um racionalismo para nós hoje totalmente irracional, sem a ciência a apoiar o que prediziam para uma humanidade vindoura e ignorante. Muitos tempos de trevas mais ou menos contínuas haveria até alguns irromperem contra uma autoridade nunca legitimada a não ser pelos medos mais ancestrais, eram cítaras substituídas por forquilhas e cabeças decepadas à porta de palácios trianóicos ou de inverno e de outras estações como última, a da finlândia, eram cítaras que se elevavam aos céus do impossível e isso bastava.

Eh, come me vuoi?

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