15 setembro 2010

Os velhos do baby-boom


Jeff Wall

Há uns anos mudei-me do bairro operário para uma rua construída numa expansão que a cidade sofreu no pós-guerra, em terrenos ainda próximos do centro.
No bairro operário reinava o silêncio. Reformados, mulheres-a-dias, desempregados de longo curso. Agora, a minha rua, é o querido mês de Setembro filmado no S. João do Porto. Quase não devem restar sobreviventes das esperançadas famílias do baby boom português. Mudaram-se para Celas, para a Solum, para os bairros novos da periferia. Saíram da cidade. Morreram, quase sempre sozinhos, em casas que tinham ficado demasiado grandes para eles, partilhadas por outros animais doentes. Quando morrem, aparecem familiares apressados que abrem as janelas, dão uma limpeza à casa, pintam as paredes, mudam as persianas e põem os quartos a alugar a estudantes, preferem-se meninas. Quem aluga são quase sempre rapazes. Vêm de Lamego/ Tarouca, Macau, Bremerhaven e de Angola. Abastecem-se no Pingo Doce. Os pais vêm trazer os de Lamego/Tarouca. Eu vou à Estação Velha buscar a menina de Macau, procedente de Londres-Gatwick. Trazem arcas frigoríficas carregadas de comida, caixotes com batatas, cebolas, enchidos e uma lata de azeite.
Não sei o que fazem durante o dia, à excepção da menina de Macau que faz pesquisa num Arquivo da Universidade. Ao anoitecer encostam-se aos portões. Têm um ar estival, de calções e cabelo em desalinho. As janelas das casas estão abertas e deixam ver a extraordinária desarrumação que por lá vai: computadores, um ecrã de televisão, roupa amontoada. Depois de jantar, enquanto a menina de Macau tenta estudar, começam a beber cerveja. Falam alto, nas varandas e o tom de voz sobe com a lua e o calor da noite. As mulheres têm a voz estridente com que as pastoras juntavam as ovelhas tresmalhadas. Os homens dizem palavras fortes. A menina de Macau há muito que fechou a luz do quarto. Os velhos entricheiraram-se nos apartamentos residuais. Os velhos não protestam. Os velhos do baby boom, ironia da história, já não protestam. Aceitam o comportamento da juventude como o calor de Setembro, os fogos ou a enurese. Morrem devagar, como os peixes nos aquários, os periquitos nas gaiolas, os gatos cegos dos apartamentos dos velhos do baby-boom.

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04 abril 2008

Um rapaz no asfalto


Jane & Louise Wilson
Skarfaundry, Star City, 2000


Um rapaz no asfalto
caído no asfalto os carros
param uma rapariga ajoelhou-se
há sangue no asfalto
rutilante
é assim que brilha o sangue no asfalto
o rapaz treme no asfalto
de lado e com as pernas
encolhidas uma vez mais vejo o pulso
a um rapaz caído é enorme
a força necessária para estar de pé
hoje em dia mesmo em noites
como esta que anunciam
o verão em que grupos de jovens batem latas
e falam alto nas ruas da cidade e de entre eles
vão sair dois um tem um boné
vermelho como o sangue no asfalto como
o sangue na cara do rapaz caído
no asfalto o outro tem uma mão dura
para quebrar vidros de carros para bater
para fazer com que a vida de um rapaz
que parou por acaso numa rua
amável da cidade
se suspenda numa dor sem gritos
numa poça de sangue
rutilante

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