08 outubro 2008

Pinheiros bravos


Eva Besnyo

- Não nos devemos preocupar com a crise financeira- disse um responsável da crise financeira. – Devemos preocupar-nos com a crise económica.
Eu digo que nos devemos preocupar com o tremendo êxito do nemátode dos pinheiros.

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13 junho 2008

As Lições de Junho




Durante três dias, as estradas, em alguns pontos nevrálgicos do país, foram controlada por façanhudos que impediram a circulação de mercadorias. A polícia do Estado assistiu com benevolência. Habituada a dar porrada em trabalhadores fabris e estudantes faltava-lhe o cacete adequado e não actuou, nem seguramente recebeu ordens para tal. Agressões, atropelamentos mortais, destruição de bens, incêndios, foram consentidos com placidez. Enquanto os jagunços ocupavam a rua, o governo negociava com os representantes engravatados do sector. E repunha-lhes os lucros à custa dos restantes cidadãos, mais preocupados em encher os depósitos de carros e discutir o contrato de Scolari com o Chelsea.

Em plena crise a Galp aumentou o preço dos combustíveis. Mas não se ouviu nenhum grito de revolta, nem foi conhecida nenhuma acção responsável dirigida contra os distribuidores ou os produtores de petróleo.

A paralisação foi decidida, executada e dirigida por pequenos e médios patrões, com organização rudimentar. Os aparelhos sindicais clássicos que tinham mobilizado 200.000 pessoas na semana anterior assistiram, como o resto do país, ao espectáculo. Dos aparelhos sindicais neo-clássicos ninguém espera verdadeiramente nada.

Os partidos parlamentares estiveram a comemorar o dia não-se-sabe bem de quê. Os partidos de esquerda parlamentar fizeram declarações pavlovianas sobre a gaffe pavloviana do Presidente. A líder da oposição, economista de obra conhecida, esteve calada.

Os teóricos da alterglobalização fizeram ponte.

O Dr. Vital Moreira escreveu um artigo em louvor da economia de mercado regulada pelo Eng.ºSócrates e o dr. Loureiro fez um negócio milionário com peixe congeladono fim do prazo de validade.

Quando se esperava que os partidos explicassem aos eleitores a crise que encena os próximos episódios da civilização baseada no mercado, no individualismo e nos combustíveis fósseis, e apresentassem medidas para a dominar, houve futebol, história fedorenta, medalhas de metal sem valor em peitos sempre feitos e outros mais ingénuos.

Os jovens não acreditam na crise. Os jovens têm uma religião que tem como pilares os supermercados cheios de comida, o depósito de gasolina e os concertos de cerveja. A crise de Junho foi vivida como uma interrupção da festa, uma ressaca antes dos festivais de Verão.

Os mais velhos são jovens retardados. Como se vê nas reportagens do Europeu, os mais velhos olham para o lado antes de gritar, para ver como gritam os mais novos.

Os mais velhos dos mais velhos querem é que os deixem.

Os mais novos dos mais novos vão ser entregues aos pais biológicos.

Eu sei de um sítio com uma horta, água limpa, um falcão peneireiro nos céus. Não tenho é gasolina para lá chegar.

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10 junho 2008

Pequenos e médios patrões



Temos aí a greve dos pequenos e médios patrões dos transportes. Os pequenos e médios patrões eram, convém lembrar, os aliados naturais da classe operária, esse sujeito redentor da história. Os pequenos e médios patrões dos transportes são, a crer nas imagens da televisão, uns pequenos e médios brutamontes. Barraram as estradas aos motoristas assalariados pelos colegas insolidários e pelos grandes patrões da distribuição. Protestam pelo aumento dos combustíveis. Podiam protestar contra a Galp, a BP, a Exxon. Dado que as companhias petrolíferas não têm face, o interlocutor é o nosso legítimo governo democrático. O nosso governo hoje anda para aí a comemorar o dia da raça e amanhã, depois da esperada vitória da selecção de todos nós, vai sentar-se à mesa da negociação. Com os nossos impostos, com a nossa ruína, vai aplacar a fúria dos pequenos e médios patrões dos transportes.

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Pedimos desculpa mas o gasóleo está esgotado



Tinha trabalhado todo o dia e à noite, saiu do escritório, entrou no carro e ouviu, insistente, o aviso da gasolina no depósito. Entrou nas bombas. Não havia gasóleo. Teve de se abastecer com uma mistura que custava 1,5 € por litro. Percebeu, na cara da rapariga da caixa, no suor da testa do cliente, nas corridas nervosas dos rapazes, nos títulos dos jornais, que alguma coisa estava a começar.

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