27 junho 2010

Histórias da Literatura





A minha remota infância decorreu num tempo parado. Uma mistura entorpecente do tempo lento da infância e da fibrilhação de uma cidade petrificada. Vivia-se num Estado de excepção, não no sentido em que Agamben utilisa o termo. Literalmente. Um país de mulheres virtuosas de carnes moles e cheiro almiscarado, padres de batina, medrosos, bufos, leais servidores das funções que lhes eram cometidas. Funções de merda. Não havia nada excitante para fazer naquele país de onde os mais afoitos tinham desertado, a Coreia do Norte dos anos 50, um pouco antes do tempo dos cartuchos. Um dia , numa viagem à Serra, passámos por uma casa que ostentava a seguinte designação: Centro Republicano. O meu pai explicou-me o significado daquela inscrição e, no meio da confusão quanto à natureza do regime, eu percebi, pela primeira vez, que aquele país tinha uma história que não era a do Condestável e do Infante D. Henrique, o gay viril e o gay melancólico que moldavam a minha visão da história pátria.
Neste país de doença, a realidade só existia nos livros. Livros estranhos que ninguém parecia ter lido. Um deles, dos primeiros que li, chamava-se Um navio dentro da cidade. Desapareceu, como quase tudo desse tempo. Mas ia jurar que era um desses livros incríveis que José Cardoso Pires e Victor Palla editaram numa colecção a que chamaram os Livros das Três Abelhas. Nessa colecção, de bom gosto gráfico, como tudo o que Victor Palla fazia, publicaram Lermontov, Caldwell, Steinbeck e o inevitável Sartre. Camus saía na rival Miniatura.

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05 outubro 2008

Uma Páscoa


Como toda a gente fui criança e feliz porque a minha irmã dançava vestia fatos da dama antiga encantava serpentes lia em línguas estrangeiras a doçura cantabile das tardes da Páscoa dos cristãos quando mas como é que podíamos saber a Páscoa e os cristãos estavam a acabar. E então inesperadamente no princípio do verão num dia de férias a minha irmã acordou tarde e quando entrou na sala baixou os olhos para esconder o vinco de gravidade que marca mas como é que podíamos saber a adolescência

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01 junho 2008

Dia mundial da criança



Dia mundial da Infância. Tínhamos um programa. Mas com a selecção a fazer não-sei-o-quê, o rescaldo das eleições no psd, e as condições metereológicas adversas, decidimos adiar a infãncia.

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