18 outubro 2009

Os três homens de Bellini


O homem de trás, algures em Siena



Sexo bom, para Bellini, é com três homens. O homem real que ela cavalga, o homem de face indistinta que a acaricia por detrás e o anão suicida, inteiramente entretido com o seu clitóris. Bronx saltita entre os três, ora jazente, ora grave quando lhe acaricia o dorso, ora divertido, quando passa ao mundo pequenino, entre as pernas.

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11 outubro 2009

O livro afegão e o fim da inocência



As grandes narrativas do século XX (algumas das quais eram do século XIX) estavam mortas. Bronx sabe. Mas um homem não pode viver sem uma narrativa. Há gente que vive com uma narrativa de antes da Revolução Francesa, e apesar disso se sente moderna. Bellini conhece tão bem a narrativa do Renascimento italiano, que por vezes Bronx se interroga sobre se não será aquela a narrativa de Bellini. Quando perdeu a narrativa da sua adolescência retardada, Bronx prometeu a si mesmo que nunca mais colocaria na parede nenhum Mestre. Mas lentamente uma outra narrativa estava a insinuar-se. Ou como escreveu o último Coetzee, something of quite another order was on cards. E Bronx voltou a acreditar. Estava escrito que pelas mãos dos seus arautos a nova esperança seria torturada, até se confessar uma coisa igual às que se alinham à espera de serem reconhecidas nas escadas para o Palácio da Ajuda. Hoje Alexandra Lucas Coelho apresentou na FNAC o livro afegão- uma chatice que Bronx não tenciona ler- e fê-lo pela mão amiga da coligação medonha: Guterres, a Zézinha e um escritor prolixo.

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09 outubro 2009

Aristóteles e a cortesã


Memmo di Filippucio, Siena (1288-1324)

O título do fresco (Palácio Comunal, Torre Grossa, S. Gimignano) é "Aristóteles e a cortesã Filide" ou Philis. Segundo Bellini ela é Campaspe, a amante iniciática do jovem Alexandre, a tornar-se o Grande, pupilo de Aristóteles. Retratada por Apeles, o maior entre os pintores da Antiguidade, a obra resultou tão perfeita que Alexandre, ao vê-la, trocou a mulher pelo quadro, abrindo assim uma enorme perspectiva à Teoria Geral da Obra Arte e uma vida medíocre à sua amante, de aí em diante entregue a um artista. Quem se viria a apaixonar por ela seria o próprio Aristóteles. A lenda popular do séc XIII mostra o filósofo, um velho, que por amor se deixa humilhar. Dizem que a imagem simboliza o infortúnio do amor. Bronx só consegue ver um homem cavalgado por uma mulher na posição que lhe confere menos possibilidades. Bronx tenta, olhando longamente o fresco, perceber quem foi esse Memmo di Filippucio, setecentos anos atrás, na Siena do bom governo dos Nove. E então, no quarto mal iluminado da Torre Grossa, o chicote abriu um monte de possibilidades narrativas.

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07 outubro 2009

O Beato Agostino Novello e o menino caído do berço


Simone Martini


O menino no berço suspenso. O menino enfaixado. Tinha de ser. Grande queda se se solta uma das amarras. O menino está caído e o cabelo cheio de sangue. Não respira nem o coração tem batimentos. Outra vez os gritos e as súplicas das mulheres. Era quase sempre um negócio entre Agostino e as mulheres, feridas pela negligência de deus, em Santa Bárbara, Siena. Desta vez exigia-se um grande milagre- suporte avançado de vida, e um pequeno milagre- steri-strip ou cirurgia sem pontos de sutura. Agostino fez tudo em silêncio, sem largar o livro, sem precisar de materializar as pernas, a partir da pequena nuvem de poeira onde se confundia a sua santidade e o lixo das ruas.

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06 outubro 2009

O Beato Agostino Novello salva uma criança


Simone Martini (1285-1344)




Este Beato era danado. Podia ter feito milagres de estarrecer, que quem faz um milagre fácil faz um difícil. Podia ter colado pernas decepadas, acordado o coração de um morto, apagado as chamas de um incêndio ou parado o rio de lava, que assim se fazia então currículo para a santificação. O Beato simplesmente vagueava pelos bairros populares, vigiando os inocentes. Vinha aos gritos das mulheres, ao som das tábuas partidas, dos degraus que cediam. Foi ele quem iniciou o voo picado sobre a vítima, que o Superman viria a tornar popular sete séculos depois, com aquele desenlace feliz rente ao solo. Diziam que a morte de um filho menino o enlouquecera e que ficara assim, quase nada, a sombra de uma batina, o ruído que faz a brisa a um pano leve. Mas nesses anos do princípio do século XIII, em Santa Bárbara, Siena, os miúdos podiam brincar sem sobressalto.

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