07 abril 2010

Blazer



William Kentridge, «Felix in Exile», 1994

Em Solar, o último livro que Lodge escreveu sob o pseudónimo de Ian McEwan, o professor Beard volta a Inglaterra vindo de Berlim e, ao ver os mesmos jornais e revistas de há uma semana, os mesmos títulos, o mesmo Blair e o mesmo Milligan, percebe que já começou o afunilamento mental familiar do regresso a casa.
É neste estreitamento do campo de visão que vivo. Como se agora fosse sempre Inverno - sempre nuvens e neblina, sempre o empreiteiro do Fundão e os rapazes das Jotas, a adjudicação à Siemens ou à Sópedras- e os pintores que restauram as paredes do que chamo a minha casa tivessem substituído , maldosamente, o blazer e o brinjel por cinzento tumular ou pela cor das furnas quando o Rui Bebiano espreita .

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01 setembro 2009

Cunt-bolted Florence




Na Praia de Chesil (On Chesil Beah) de Ian McEwan (Aldershot, 1948) e A Mesa Limão (The Lemon Table) de Julian Barnes (Leicester,1946).

O livro de Ian McEwan, entre um conto longo e um romance curto, relata a noite de núpcias de dois jovens que teriam vinte anos à entrada dos anos sessenta do século passado. Ela talvez o ame. Mas o seu amor não passa pela fornicação. E isso é intolerável para o rapaz. Esse erro de apreciação, que o narrador insinua poder ter sido evitado se a acção se tivesse passado apenas uns anos depois do mítico 1962, o Annus Mirabilis de Larkin, marcou a vida do homem. Vemo-lo no melancólico final , um homem alto e saudável, finalmente capaz de apreciar a “estranha proposta” que ela lhe fizera e o indignara. Com razão viril, inteiramente compreendido pelo seu juiz mental, “severo e imparcial”.
Essa proposta, a de um amor sem sexualidade ou pelo menos sem sexo penetrativo nem orgástico, é bem entendida pelo sexagenário em que se transformou. Mas passou demasiado tempo e ele contenta-se em imaginar o que teria sido a sua vida se não tivesse permanecido no seu “silêncio virtuoso”.
Em A Mesa Limão Julian Barnes é brutal. O amor não é uma fogueira, diz ele. "A nossa época, conhecedora, reprova às anteriores os lugares comuns e as evasivas. O amor não é uma fogueira, santo Deus, é uma pila dura e uma rata molhada(1).
Está dito. A nossa época conhecedora não facilitaria a vida à jovem Florence, na praia de Chesil.


(1) Our knowing age rebukes its predecessor for its platitudes and evasions, its sparks, its flames, its fires, its imprecise scorchings. Love isn't a bonfire, for God's sake, it's a hard cock and a wet cunt, we growl at these swooning, renouncing people. Get on with it! Why on earth didn't you? Cock-scared, cunt-bolted tribe of people!
The Revival, em The Lemon Table.

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