02 julho 2008

O barulho de noite

Acorda. É de noite. O pino da noite, a noite a prumo, a hora em que caçam as corujas, os homens velhos se levantam para mijar e escrever poemas, Elisabeth Costello adormece, sem afecto, sobre a mesa de Rayment. Ouve um barulho na noite da cidade. De vez em quando passa um carro e, embora seja Verão, é como se arrastasse a água das sarjetas. Mas há outro barulho. Que se torna distinto depois do carro passar. Um barulho mecânico, pulsado. Muito próximo, pode ser o sangue latejando nas têmporas. A harpa insuportável. A revolta doméstica dos aparelhos de cozinha, como nos contos infantis. Pode ser longe. Um ruído de soma. O sono das mulheres e dos homens nas suas camas. Um milhão de vezes a corrente de ar na árvore dos peitos, dezasseis a sessenta vezes por minuto. Adormece.

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28 junho 2008

Homem Lento


Karel Funk


Viu há dias um filme sobre os lobos de Yellowstone. No Vale dos Lobos, um vírus atacou e exterminou quase todos os jovens. Uma alcateia do grupo conhecido por Druidas abandonou o Vale. Um deles era o 302, Casanova, um lobo preto. Ao longo de alguns anos ele vagueou pelas zonas altas de Yellowstone, com o que restava da alcateia. Nasceram e morreram crias, vítimas do vírus e de um grupo de forasteiros que , sem que que se percebesse quem o orientava, atacou os adultos Druidas enquanto os jovens morriam, famintos, nas cavernas geladas. Na primavera do ano de 2006, o 302 tinha ao seu lado alguns jovens e os adultos sobreviventes. Com eles reconstituiu a alcateia e rumou ao Vale dos Lobos, ocupado pelos coiotes, tão numerosos que se mordiam entre eles até à morte.
De sua casa, há uns anos que vê o grande sucesso dos milhafres do Choupal. Um deles, o 26, caça nos terrenos do Pólo 2, e aventura-se até à Solum, em cujos jardins revoltos prosperam os ratos da cidade e pombos tão gordos que não passam do chão.
Quando pára de escrever vê o voo elegante do 26 e ressoam lhe na cabeça as palavras que Coetzee pôs na boca do Homem lento : Não tenho estado à altura da situação, não me tenho portado bem.
É o 933 456. Ou o 18 311. Ou o 534. Depende dos registos. Ultimamente é o NIF ou o NIB. Não reconstituirá nenhuma alcateia.
É como o homem lento, mais do tipo crepuscular.

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