05 setembro 2010

Descida de Marguns para Celerina



Desço para Celerina. Abandono o caminho que me parece demasiado parecido com um estradão e com tráfego em excesso - na primeira hora cruzei-me com quatro mountain bikers e um vigilante de mobiliário de montanha . A encosta é tão inclinada que me dificulta cada passo, dobro as tíbio - társicas, sinto pressão exagerada nos joelhos. Tropeço também nos meus pensamentos. Quando caio em cima das primaveras vejo alcachofras, gencianas malhadas, azáleas, e os ramos secos dos salgueiros rastejantes restolham debaixo das minhas pernas. É agradável sentir o corpo sobre aquele colchão húmido, ouvir a água que corre perto, olhar longamente o céu privado do vale de Engadine e, depois disso tudo, saber que me vou poder levantar. Antes disso abro a mochila e fotografo. O nosso mundo é o do plano restrito dos nossos olhos. Não olhamos para cima- em que idade é que se começa a olhar para cima? Como quem pergunta :- Em que idade é que nascem os dentes, se gatinha, se enrolam os pelos do púbis. Se não tivesse caído não teria tido a visão deste primeiro andar e dos seus minúsculos habitantes. Cair é fundamental. Sobretudo quando se caminha sozinho. Gerindo o tempo à nossa medida. Ou simplesmente deixando que as coisas aconteçam. Continuo a descida até avistar um caminho que intersecta a colina, perpendicular ao trajecto que criei e a partir do qual, em rampa abrupta, é possível descer. Em frente, ao longe, os cumes de Muottas Muragl e em baixo o extremo leste do lago de St. Moritz. Quando apanho o carreiro tenho de decidir sobre a direcção a tomar para prosseguir a descida. Nenhuma indicação me permite perceber a solução. Para ambos os lados o trilho parece subir. Viro-me para a direita e percorro alguns metros na esperança do caminho tomar uma direcção ou uma inclinação que me ajude. Mas alguns minutos depois a sensação de que estou perdido começa a desenhar-se, como uma discreta ameaça, uma nuvem que escurece, o pródromo de uma doença benigna. Em torno do trilho a vegetação adensou-se e perco as referencias do vale. Não vejo as linhas do teleférico de Marguns, onde iniciei a descida. Quando o trilho curva e eu esperava que descesse, a subida continua como se seguisse a linha de cota e entrasse pela colina adjacente. Não tenho mapas nem conheço a região. Volto para trás. Penso em Charlotte Perriand e nos amigos, que acampavam na alta montanha. Para eles a natureza era amiga. Esse engano vinha do conhecimento. Como posso caminhar num trilho desconhecido? Em vales onde viveram homens e mulheres isolados, criando uma língua que os habitantes dos vales vizinhos não percebiam, subindo as encostas depois das neves e encolhendo-se no inverno. Só há uma Terra. E uma espécie humana, só. O isolamento dos vales alpinos não permitiu o aparecimento do homem alpino. Tenho de pensar como um montanhês. Caminhar mais. Vejo os narcisos e umas flores roxas a que chamam os reis dos Alpes. Na delicada língua em que escrevo seriam certamente rainhas ou princesas. Poucas flores têm, em português, o género masculino. O sol ainda brilha. Se o sol desaparecesse o meu erro e a evidencia de estar perdido seriam maiores e insuportáveis embora nada de decisivo tivesse acontecido. Estar perdido na montanha é um pouco como afogarmo-nos no mar. Num momento sentimo-nos a dominar a natureza e cheios de força, no momento seguinte parecemos perdidos, exaustos, a água entra-nos nos pulmões e a tosse sufoca-nos. O afogamento é um enfraquecimento do espírito. Tal como a minha hesitação na montanha. Vou encontrar o ponto em que o trilho curva e cruza a colina em sentido contrario. Penso em Rousseau, perseguido como um cão, insultado pelos camponeses quando o reconheciam e no cabrão do Voltaire, denunciante anónimo aos bons-costumes. Há por vezes um espaço muito pequeno a separar um iluminista dum esbirro do Antigo Regime. Caminho agora sem ver. Entro naquela fase eufórica da caminhada em que o cansaço desaparece, o suor que escorre é o das águas cristalinas procurando um percurso para os vales, a mente se liberta e as ideias parecem simples, naturais, certas e ao mesmo tempo luminosas e belas, o corpo é finalmente parte dessa paisagem que se estende sem fim, e os nossos pensamentos fazem sentido, embora fosse preciso um leve fio condutor, uma fina película inteligente como o programa do iPhoto, que os registasse, alinhasse pela ordem certa, reconhecesse as faces e preenchesse os hiatos. Agora , lá em baixo, como numa gravura , os telhados das casas e da igreja de Celerina e numa curva, colorido, o comboio de brincar.

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01 setembro 2010

Appenzell




Fui depois compreendendo lentamente que tudo está ligado para lá do espaço e do tempo, a vida do escritor prussiano Kleist e a de um prosador suíço que afirma ter sido empregado de uma sociedade anónima de cervejas em Thun, o eco de um tiro de pistola sobre o Wannsee e a vista de uma janela do asilo de Herisau, as datas de nascimento e as de óbito, os passeios de Walser e as minhas excursões, a felicidade e a infelicidade, a história da natureza e a da nossa indústria, a da pátria e a do exílio.


Le promeneur solitaire
Em memória de Robert Walser
W.G. Sebald em O Caminhante Solitário (Logis in einem Landhaus)
ed Teorema, Setembro 2009

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31 agosto 2010

Biogeografia


John Berger diz, em Here is Where We Meet, que Lisboa é a primeira cidade africana e que o deserto começa para lá do Tejo.
A norte do Tejo, bem a norte, estão hoje 37 graus à sombra, qual sombra. Morrem as árvores, calcinadas e secou a relva de plebeia, a que crescia fora dos campos de golfe. As matas secas só esperam a misericórdia do fogo. De meninges quentes, os homens, enlouquecidos, ateiam chamas nos eucaliptais. Os que não fugiram choram, sob as câmaras implacáveis. Já ninguém se compadece, ninguém ajuda.
A biogeografia deve explicar que estes lugares não são propícios à filosofia, à indagação peripatética, ao espírito crítico. Na África da Europa qualquer discussão se incendeia, qualquer diferendo liberta fumo. Não há moderados no Grande Marrocos do Norte, capital Lisboa. A escola de Verão dos sociais –democratas, diz quem lhe sobreviveu, parece uma madrassa afegã. No Rossio, madame Lizt fait des listes, das presenças, das ausências, das precedências. No Parque, uma criança ficou parada, de olhar vago, não respondeu quando a chamaram pelo nome, nem quando lhe disseram que ia passear, ver os popós. As margens do Reno, os lagos dos Alpes, as montanhas da mitteleurope, as planícies do Norte criaram a dissidência protestante, o calvinismo, a lógica e o método científico. O sul especializou-se na emigração, na dolce vita, na poesia e na pirotecnia.
O norte tem as saunas e o culto do corpo. O sul tem o suor e a matança do porco.
Caminhando nas margens do lago de Bienne reencontrei Sebald, Rousseau e um pedaço bom de mim próprio.
Agora já secaram todas as árvores que reguei. Mudo de roupa mas não consigo mudar de cheiro. Sou de novo um homem condenado ao deserto. Caminho rente aos muros, piso os rastejantes e o cheiro do subdesenvolvimento cola-se-me à pele.

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30 julho 2008

Helena Matos explica Loures


Zhang Xiaoging

Quando chegou de "umas curtas férias" Helena Matos, a cronista do Público, tinha ao seu” dispor as edições acumuladas que noticiavam” o que se passara em Loures, na Quinta da Fonte. Vinte dias depois era de esperar que Helena Matos soubesse alguma coisa mais do que os jornalistas que arriscaram escrever nesses dias. Afinal não sabe. Se sabe não diz. Os pretos, diz Matos. Já tantos disseram. Os ciganos, diz Matos. Já disseram também. A ladainha exorcista a que Rui Tavares tão bem aludiu, como se uma censura políticamente correcta tivesse, ao longo destes anos, impedido esta gente de dizer ciganos e pretos . E ainda, em Matos, a raiva inexplicada contra “as explicações sociológicas”. Será que têm saudades das explicações policiais, ou simplesmente dos comunicados do Governo Civil ou do Ministério do Interior. Ficamos à espera, 20 dias depois , umas curtas férias depois, que Matos nos explicasse um pouco de Loures. Afinal o tema era outro. Ela simplesmente queria constatar que os jornalistas não tinham palavras para a realidade. E desta constatação parte para uma história saborosa sobre os tempos da descolonização, o regresso dos colonos e a falta de palavras para, nesses anos da década de setenta, nomear os refugiados brancos. Para Matos há sempre um culpado: os jornalistas e a nociva ideologia “progressista” que estes (todos, sem distinção) servem. Não lhe passa pela cabeça que possa haver outras causas. Se as férias curtas se repetirem, ousaria aconselhar a Helena Matos um livro de Sebald, A História Natural da Destruição. A destruição sistemática e punitiva da Alemanha nazi já militarmente derrotada foi silenciada pelas vítimas, portadores de um tabu tácito, que a sua bem recente condição de verdugos parcialmente explicava. Demorou muito tempo até haver palavras para nomear a destruição operada pela RAF e pelas tropas soviéticas na marcha para Berlim. Em alguns sectores, como o da violência sexual, esse silêncio nunca se quebraria, e mantém-se até à actualidade.

(publicado tb. no Blasfémias)

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