07 janeiro 2009

Cortado ao Meio ( ii)


Juan Muñoz


O anão suicida cortado ao meio
o pénis
isto é uma história mental
escapou à partição
lê a biografia de um rei antes que
acabe a monarquia
caça a sua metade numa finca
argentina
anoitece e a metade cega vê a outra
reflectida no vidro
já não consegue calar
as criancinhas
quando choram
por motivo
dos dentes
de cólicas
de dor de ouvidos
do medo
do negócio de manter a mãe
de mama na arreata.

Cortado ao meio conhece
a natureza do Mal:
a banal mortífera cruel
natureza dos homens e mulheres
que há três mil gerações
vieram
os que vieram
empalidecer para o frio
do Norte
onde alguns
algum tempo depois
foram cortados ao meio
e assim compreenderam

não compreenderam

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05 dezembro 2008

sexta-feira


Juan Muñoz

Que cansaço é este. Alguém lhe bateu e ele não se lembra. A água, os cremes, o bairro operário deserto. A chuva, as cores de chumbo. O cutelo, a lâmina, a culatra, o serenal. Foi desmascarado. Antes mesmo do plano ser urdido. Antes da carta escrita. Descobriram-lhe o truque, anão suicida.

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02 dezembro 2008


Juan Muñoz

A lâmina na cara, a água, os golos do Benfica, o Cristiano Ronaldo não-sei-quê, detesto estas glórias pátrias, detesto a pátria, li que o rei dom Duarte se achava, ele o PCP, os únicos e verdadeiros patriotas, o branco limpo do gelo nas ruas, as raparigas na passadeira do antigo liceu, tão orgulhosas, ignorando o frio, o cão castrado do senhor Gerardo, o dedo na fenda, o teu nome oficial, a chave na fechadura, os mails acumulados no fim-de-semana, a bata. Começa outra semana e de novo uma torção das vísceras a que chamam angústia ameaça o anão suicida.

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25 novembro 2008

Terça


Richard Sandler


Tudo se repete. A água, a lâmina, a promessa dos cremes, as pessoas que descem a avenida, o cão de cabeça levantada, bom-dia senhor Gerardo, o artista ao volante, as crianças atentas nas cadeirinhas, bom-dia, bom dia. Bate-te nos neurónios em espelho a marcha coleante das professoras do 2º ciclo, os cabelos tão lisos da que foi florista, os miúdos a atravessar o pão da manhã, a menina Cloé, a rapariga da lavandaria, o dedo na fenda, o teu nome oficial assinalando a humilhação diária, a chave na fechadura, os mails da noite, a bata, bom-dia dona Laurinha, bom-dia, não vale a pena arrumar. É terça-feira e o céu claro de Novembro segura a mão do anão suicida.

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24 novembro 2008

Segunda de manhã


August Sander


Tudo se repete. A água, a lâmina, a promessa dos cremes da manhã, as pessoas que descem a avenida, o cão castrado do senhor Gerardo, bom-dia senhor Gerardo, o artista conduzido pela mulher ao volante, outra de dedo levantado, as pávidas crianças nas cadeirinhas certificadas, bom-dia senhor Simões, o dedo na fenda, o teu nome oficial assinalando a primeira humilhação, a chave na fechadura, os mails da noite, a bata, bom-dia dona Laurinha, bom-dia menina Fátima. Lá fora chove e o céu encoberto. Começa a semana e ninguém, compaixão nenhuma, segura o anão suicida.

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