10 julho 2008

O Sumol de laranja


Mert and Marcus



Fiel à minha determinação de não escrever, não serão estas poucas linhas que irão empequenecer o meu esforço. Cinco minutos não desmentem um dia, muitos dias, uma semana. Fumar um cigarro não me transforma num fumador. Nem é bem escrever o que agora faço. O ar entra pela janela da direita e sai pela da esquerda, aqui onde me encontro. O ar circula, como a água, como devia circular o sangue, como circulam as palavras. Pego-lhes com cuidado. Algumas palavras queimam. Pesam. Têm gumes acerados. Menos estas, que uso. Estas palavras são de uso vulgar e registam o que valeu a pena.
Valeu a pena o Sumol de laranja. Não me lembro de mais nada tão excitante, que vibre assim nas mucosas do palato, das fauces, da orofaringe, que preencha tão completamente os receptores da sede e vá arder à distancia, levando pelos nervos esfenopalatinos uma dor boa que não se conforma com a extinção e pede sempre mais.

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03 julho 2007

Livros Urgentes



Respondendo ao desafio do Rui Bebiano (uma cadeia de livros arrisca-se a ser a cadeia da felicidade) aqui vão alguns dos livros que recomendo para esta semana:

1. Profanações, de Giorgio Agamben (Edições Cotovia 2006). Agamben esteve no centro de uma conferência em Serralves, na passada semana (descrita por João Paulo Sousa em Da Literatura) que foi um momento raro de inteligência. Para Agamben, o modelo de governo teocrático judaico-cristão formata todos os governos do Ocidente: um Rei que reina mas não governa, um Filho que se ocupa dos assuntos de Estado, e as hostes dos anjos nos ministérios, esses burocratas. Agamben ocupou-se do conceito de inoperatividade, um equivalente ao "desoeuvrement" de Blanchot. Depois do Juízo Final, Deus fica terrivelmente desocupado, e às almas do paraíso não resta outra saída senão a celebração da Glória. A Glória é a inoperatividade depois do Juízo Final. Em Profanações, Agamben escreve igualmente sobre o Dia da Cólera.

2. Intelligence, de Ian J. Deary, da colecção A Very Short Introduction, da Oxford University Press. Uma excelente colecção, a menos de dez euros o volume, que passa em revista questões actuais do conhecimento. Uma escrita viva, polémica, informada, didáctica sem deixar de ser rigorosa. Uma edição democrática, abarcando temas como a Consciência, a Fotografia, Ética, Teoria da Arte.

3. Segredos do Reino Animal, de Helder Moura Pereira, Assírio e Alvim, 2007. Helder Moura Pereira escreve:
(...) De que serviria gritar?
Pior do que não me ouvirem era ouvirem-me
só os deturpadores da minha língua.

4. Breviario Mediteráneo, de Predrag Matvejevic, na tradução castelhana da Anagrama. O romance ensaio mais célebre do jugoslavo, prefaciado por Claudio Magris, de quem igualmente recomendo Danúbio, publicado pela Dom Quixote em 1992.

5.The Oxford Handbook of Evolutionary Psychology, uma revisão exaustiva das últimas investogações nesta área. Editado por Robin Dunbar e Louise Barret com mais de 70 colaboradores e secções excitantes sobre Mating and life history, Cultural evolution ou The comparative approach.


Passo esta sugestão a Rosaarosa, à Susana Bês, ao Filipe Nunes Vicente, ao Luisinho e à Mónica, da Linha do Norte.

PS: Dando uma volta aos blogs percebo que a cadeia já vai longa e o Filipe já deu algumas sugestões, tão clássicas como se previa. O Luís Gouveia Monteiro também não é provável que rompa a tradição do belíssimo post mínimo a que nos habituou.
Agradeço a correcção ao Pedro e ao João Paulo Torres as questões pertinentes, e ter-me permitido conhecer o seu excelente blog. Como disse, o João Paulo de Sousa no blog Da Literatura, e depois o Luís Mourão, abordam alguns aspectos da conferência. Eu retive estes aspectos, talvez erradamente.

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