09 fevereiro 2008

O homem vê Amélia


Zang Huan

Amélia tem um rosto perfeito, oval, com as regiões genianas salientes, a testa alta e os lábios grossos.
Há, no entanto, pormenores ainda não resolvidos no rosto dela. Alguns cabelos nas têmporas afunilam a fronte, os olhos afinal não brilham tanto, o sorriso para nos dentes, o rosto não abre para o corpo. E acima de tudo, de forma irritante, ela parece pedir desculpa por não ser a mulher magnífica a que abre a expectativa. Barthes fala do momento em que o amante vê, no ser amado, la petite tâche. Neste caso não há mancha nenhuma. A pele de Amélia parece lisa e elástica. A questão é que ele se apaixonou por um rosto quase perfeito. Começou a oscilar, como um pêndulo, a dúvida de não ser aquele, e de existir, algures, a mulher que Alice anuncia.

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30 julho 2007

O desmame do Prozac deve ser lento



O que acho extraordinario é que tu, um dos maiores racionalistas irracionais, te inflames a favor de uma crítica do racionalismo baseada em termos emocionaise que se quer passar por yum supra racionalismo inefável. Acho isto tudo pouco honesto e pouco maduro, enfim. Muito macho. Mas isto sou talvez eu a delirar após as primeiras 30 páginas. Por encanto, dou ainda o benefício da dúvida. Meteórica. Os homens que julgam que pensam têm que ir devagar porque já houve muita verdade irrefutável no céu das estrelas decadentes.

O livro de John Gray com o título, O homem e os outros animais suscita reacções violentas. Recomendei-o vivamente, à semelhança do que fez Luís Quintais no Escaparates do TAGV. Quase não vi críticas ou recensões, nos media tradicionais ou na blogosfera. Mas o espaço literário, como se tem vindo a dizer em vários sítios, tem-se contraído tanto que não já tempo nem espaço para falar de livros. O livro de John Gray é um manifesto contra a ideologia optimista humanocêntrica, que vê a espécie humana como o fim da evolução, com direitos de propriedade sobre a Terra, quiçá o Mundo. Esta ideologia, que é a versão secular das grandes religiões monogâmicas do Ocidente, transferiu o messianismo para a razão humana e as possibilidades da Ciência. O livro é um livro de divulgação, bem escrito (não sei se bem traduzido), com muitas referências. As teses são radicais e provocatórias, em alguns aspectos insuficientemente fundamentadas. O conjunto é fascinante. Raras vezes, nos últimos tempos, estive em frente de reflexões tão radicais, tão estimulantes.
Sucede que as mulheres que conheço detestam o livro.
Uma fez-me uma crítica devastadora depois de ler o Prólogo (duas páginas).
Outra disse que o John Gray era o típico polemista…americano.
Outra nunca mais me falou.
Outra fundou um blog para escrever contra Gray.
Outra ainda converteu-se ao catolicismo. na pessoa de Monsenhor G. de S.
Outra sorriu ameaçadora com aquele ar com que as mulheres anunciam que não são porta onde se vá bater.
Falo de mulheres cuja opinião prezo. Delas disse Gray acreditarem que a vida humana melhora com o conhecimento. Com elas percebi que o humanismo era
“the Prozac of the thinking classes" .
Como dizia o meu pin: entre as drinking classes e as thinking classes escolhe as primeiras, não lhes roubas nenhuma ilusão.
Faço como o Francisco José Viegas. Querem um livro para férias? Leiam o Moby Dick.

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10 abril 2007

Um pequeno problema


Faltam verdadeiras testemunhas da ressurreição.

(José Policarpo, responsável nacional da ICAR, no discurso de domingo)

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