23 maio 2008

A religião está nos genes



José Pacheco Pereira acredita em Manuela F. Leite. Interrogamo-nos sempre sobre os motivos que levam pessoas inteligentes a entusiasmos deste tipo. Está nos genes. Desculpem os culturistas esta enormidade. É sempre chato, eu sei, lembrar as nossas baixas origens. Sobretudo para os visionários dos Estudos Sociais, que em nome da aceitação resignada e unilateral da diferença silenciam a eliminação física das vozes moderadas, nos países do século XI a que se referia o post recente de Rui Bebiano. Está hard wired na espécie humana, esta necessidade ingénua de acreditar, de, mesmo quando se desmorona o mundo do mercado global e do arame farpado nas fronteiras, quando apodrece e fede a civilização dos combustíveis fósseis, as boas almas continuarem a olhar com fé para os políticos do passado, os manipansos dos velhos partidos do século XX. A função sacerdotal de José Pacheco Pereira é, para a devoção que assegura a decadência doce do velho mundo, tão importante como o Euro 2008.

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27 março 2008

Pentecostes


Pipiloti Rist


Estou a beber um vinho muito bom e a pensar que quem mo deu não volta a dar nada parecido assim. Nunca poderei descrever o vinho que bebo, porque detesto falar de qualidades organoléticas, estágio em casco de madeira, aromas de frutos vermelhos, tintos afirmativos e encorpados , espessos e gordos, ou dos taninos afinados que escondem o toque floral da bergamota. O léxico interior da vitivinicultura é tão irritante como o do futebol ou da medicina. Concordo que este tema não tem interesse, literário ou outro. Mas pareceu-me que tinha. Hoje de manhã reparei que não havia andorinhas no céu. Apesar de ser primavera, quase Abril, Pentecostes . Agora que saboreio este vinho, vejo as luzes da periferia da cidade, a zona a que chamavam o Alto dos Barreiros, a Cumeada, os vagaluzes da serra da Lousã., penso de novo que isto talvez faça sentido. Penso em ti Amélita, quando perguntavas porquê, porquê, no dia em que o teu homem caiu fulminado, tão violentamente que a autópsia relatou uma fractura na escama do temporal e no rochedo, ossos duros e difíceis de partir. Perguntavas porquê e não era o relatório da autópsia que querias, artérias entupidas em territórios desconhecidos. Querias outra coisa. Tinhas aquilo a que John Gray chamou a doença humana, a necessidade de atribuir significados.
Ontem de manhã, no quiosque dos jornais, à hora do almoço, uma mulher aproximou-se e fez-me uma pergunta verdadeiramente surpreendente. O meu filho- disse ela- se lhe mostramos filmes ou fotos em que ele aparece em pequeno, desata a chorar. A mulher era magra, com o cabelo curto e pintado de ruivo, embora acredite que a pergunta possa ser formulada por morenas de seio farto. O miúdo, agora com 9 anos, chora em silêncio, afectando um desgosto profundo, de cada vez em que se reconhece infante. Ela quer saber se é grave, se se deve preocupar e porque é que existe tal comportamento. Perguntas de mais para aquela hora da manhã.
Há um momento de grande reconciliação com a falta de sentido de tudo. Um momento em que nos vemos de fora e as luzes das eólicas, as janelas iluminadas na Cumeada, nas casas das famílias do Alto dos Barreiros, a ausência das andorinhas, o monge budista de Lhasa que escreveu no papel deixado à Clara uma frase que ela não sabia ler, e depois fugiu, tudo isso, se inscreve num mundo que é perfeito, por nada fazer sentido e tudo se equivaler na sua sem-razão.
Eu sei que esta sensação, estas imagens, este bem-estar é mais devido à estimulação cerebral pela anóxia de uma zona que não vou nomear para não afectar conhecimentos que não domino, uma metalinguagem tão irritante como a do vinho.E este saber, irritante para ti, Amélita, não diminui a intensidade da sensação, nem a sua deliciosa inutilidade.

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30 julho 2007

O desmame do Prozac deve ser lento



O que acho extraordinario é que tu, um dos maiores racionalistas irracionais, te inflames a favor de uma crítica do racionalismo baseada em termos emocionaise que se quer passar por yum supra racionalismo inefável. Acho isto tudo pouco honesto e pouco maduro, enfim. Muito macho. Mas isto sou talvez eu a delirar após as primeiras 30 páginas. Por encanto, dou ainda o benefício da dúvida. Meteórica. Os homens que julgam que pensam têm que ir devagar porque já houve muita verdade irrefutável no céu das estrelas decadentes.

O livro de John Gray com o título, O homem e os outros animais suscita reacções violentas. Recomendei-o vivamente, à semelhança do que fez Luís Quintais no Escaparates do TAGV. Quase não vi críticas ou recensões, nos media tradicionais ou na blogosfera. Mas o espaço literário, como se tem vindo a dizer em vários sítios, tem-se contraído tanto que não já tempo nem espaço para falar de livros. O livro de John Gray é um manifesto contra a ideologia optimista humanocêntrica, que vê a espécie humana como o fim da evolução, com direitos de propriedade sobre a Terra, quiçá o Mundo. Esta ideologia, que é a versão secular das grandes religiões monogâmicas do Ocidente, transferiu o messianismo para a razão humana e as possibilidades da Ciência. O livro é um livro de divulgação, bem escrito (não sei se bem traduzido), com muitas referências. As teses são radicais e provocatórias, em alguns aspectos insuficientemente fundamentadas. O conjunto é fascinante. Raras vezes, nos últimos tempos, estive em frente de reflexões tão radicais, tão estimulantes.
Sucede que as mulheres que conheço detestam o livro.
Uma fez-me uma crítica devastadora depois de ler o Prólogo (duas páginas).
Outra disse que o John Gray era o típico polemista…americano.
Outra nunca mais me falou.
Outra fundou um blog para escrever contra Gray.
Outra ainda converteu-se ao catolicismo. na pessoa de Monsenhor G. de S.
Outra sorriu ameaçadora com aquele ar com que as mulheres anunciam que não são porta onde se vá bater.
Falo de mulheres cuja opinião prezo. Delas disse Gray acreditarem que a vida humana melhora com o conhecimento. Com elas percebi que o humanismo era
“the Prozac of the thinking classes" .
Como dizia o meu pin: entre as drinking classes e as thinking classes escolhe as primeiras, não lhes roubas nenhuma ilusão.
Faço como o Francisco José Viegas. Querem um livro para férias? Leiam o Moby Dick.

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