11 dezembro 2008

Parabéns, Manoel de Oliveira



Diziam que o Paulo Branco fazia passar os teus filmes em Cannes segregando: - Ele tem 80 anos, é talvez o último filme ...
Agora que és imortal mostra o que vales.

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01 outubro 2008

Terra a terra


André Bonirre


Levanta-se de madrugada. Vai à cidade de P. Leva um morto
traz outro.

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18 janeiro 2008

Educação dos sentidos



Ao entrar no carro cheira
-me a cão vadio
e no gabinete dos Correios ganhei
o tique de olhar para as
solas das botas

É assim que sei que cheiro a suor
que cheiro a merda

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15 janeiro 2008

No me llores no



As promoções do supermercado Moledo, as excursões do turismo religioso, o cartão de visitas de Délia Maria, sucateira, recebe qualquer objecto, passa a buscar no espaço de uma hora, as multas da Polícia, as intimações dos Tribunais, a propaganda pró-activa do candidato da mudança e a propaganda reactiva do candidato da mudança, o Imposto sobre a existência, o seguro da casa, o seguro da vida, o seguro do carro, o seguro do recheio, o seguro do trabalho, o débito bancário, a conta do condomínio, a conta da EDP, da PT, das Águas de Portugal, do Gás de Portugal, da TeleUm, João Forjaz Sampaio, todo o tipo de pavimentos flutuantes, a verdadeira Igreja Maná, um convite para a inauguração do centésimo consultório de Pedro Chop Suey, o folheto em que a pança de Pata Pina se perfila para a Junta, Serviço Coma em Casa, você encomenda um prato de um dos seus restaurantes favoritos e nós vamos entregar-lhe, desde que não peça Tripas à Moda do Porto, Farinheira, Alheiras de Mirandela, essas porcarias que você come, Saúde 21, uma solução integrada para a sua família exceptuando a saúde oral, aí tem de ser o Sorriso Perfeito, exceptuando Ortodôncia, aí tem de assinar o Plano Especial Ortodoncia, exceptuando próteses e implantes, exceptuando lentes de contacto, aí tem de ser o Plano Olho São, exceptuando a mama, a próstata, o fígado, as vísceras macissas em geral, aí tem de ser o Plano Miudezas, exceptuando o pulmão, se fumar, a gota, se comer, a pele, se se expuser demasiado, aí tem de ser o Plano Estilos de Vida, não leias as letras miudinhas, não, não verifiques as parcelas do débito, não, não leias os avisos de débito/recibo, não, não cumpras os prazos, não, Estimado Cliente, nos termos do Decreto-Lei 155525 alterado pelo Decreto-Lei 324344 de 29 de Julho, sem perceberes, sem qualquer aviso prévio e sem possibilidade de seres reposto em vigor, fodemos-te.

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10 setembro 2007

O Músico era meu amigo


Sarah Pickering


Recebi a mensagem de manhã. E fui até à terra dele, perdendo-me nas scuts, nas variantes, nas rotundas, no nó de P. Apesar das novas estradas, a aproximação à terra faz-se da mesma maneira. Já não se passa por Ervas Tenras nem Souro Pires, mas, ao virar de uma curva, o planalto estende-se por umas léguas até à Serra da Marofa, e no enfiamento do olhar, vê-se a cidade de P., a terra do Músico, como há muitos anos quando a vi pela primeira vez. Nessa altura a viagem durava quatro horas. Íamos para o nosso primeiro emprego a sério. Tinha lido o Goytisolo, e quando vi a mancha de P. à volta da Torre de menagem, veio-me à cabeça a fala do mouro a deixar a costa mediterrânea da Ibéria, ou de Goytisolo exilado da Espanha franquista: - Terra maldita, jamais regressarei a ti. A minha fantasia, que durou todo o tempo em que o Fiat, ou era o Datsun?, se aproximava de P., era que rumava a um sítio de onde se não voltava. - Terra maldita, jamais regressarei de ti- foi o que pensei, ou ouvi dentro de mim. Como sempre que lá voltei, quase só para encontrar o Músico.

Acabavam bem os dias em casa do Músico, sob a protecção do falcão cego. O Músico salvava-me da coligação doméstica das belas mulheres, da miséria do Ministério e da sopa com esturro da dona Celeste. Ensinava-me as estradas da raia, as manhas da Excomungada, os lugares de esconderijo, e, amigo dos animais, as habilidades dos burros, nas leiras, junto ao Côa.

Agora, o que conheço melhor na cidade de P. são as Igrejas. A da Misericórdia, onde decorrem os velórios, e ao lado a Igreja de S.Luís, para as missas de corpo presente. Foi para ali que levaram o Músico. Cobriram-no com a bandeira vermelha do partido comunista e puseram-no no cruzeiro. A missa decorreu como de costume: as epístolas de Paulo lidas pela voz titubeante das beatas, o peditório, o beijo da paz. O cortejo fúnebre a caminho do cemitério com as mulheres mais velhas a Rogar por nós os pecadores e os homens a revezarem-se ao peso do caixão. A bandeira vermelha era de fibra rasca, made na China comunista, e escorregava na urna. Havia sempre quem a compusesse, com um desvelo que se percebia ser dirigido mais ao Músico que ao trapo. À entrada do cemitério, um burro zurrou como há muito não se ouvia, de focinho esticado para o sol poente e as narinas incrivelmente dilatadas. E aliviado o féretro numa lápide, o padre rezou as exéquias, aspergindo com energia insuspeita a água do hissope sobre a foice e o martelo. O Músico hesitou, ele que não era dado a esses luxos, entre a vida eterna e o fim de tudo. E silenciosamente, como passara os últimos dias da vida, disse adeus à Luizinha e abandonou-nos. Sem o Músico, a cidade de P. não tem piadinha nenhuma. Nem da serra da Marofa à Guarda se vê quem esteja à sua altura.

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