01 setembro 2009

Ardem os livros em silêncio







O Osvaldo, o Rui Bebiano, o Apolinário e o Quintais. Os livros já não ardem no Público (quase nada, apesar do Pitta), nem no Actual (pese o esforço do José Mário Silva), não ardem onde nunca arderam, nem ardem mais às segundas no TAGV. Nós também não merecíamos aquilo. Sempre vi aquelas tardes como uma graça, uma efemeridade, um ecosistema frágil, ameaçado pela indiferença dos estudantes e a boçalidade dos professores, a iliteracia da cidade, a desinformação habitual e o mau humor do gajo do som. Eu gostava de tudo às segundas feiras. Da sabedoria e do método do Rui, do classicismo do Apolinário, das escolhas tímidas do Luís Quintais e sobretudo do Osvaldo, do brilho, da profundidade, da gravitas e do modo como falava de cinema ou dos livros do Planeta Tangerina. Havia claro o senhor José Dias, que se sentava na primeira fila e saía invariavelmente às sete em ponto, a minha Musa a chegar das aulas, as miúdas louras com ar de groupies da Teoria da Literatura e que se hão-de chamar Madalena, Sanseverina e Odette de Crécy . E o Miguel Cardina( onde é que agora vou encontrar o Miguel). E a Cláudia (Blue) arrancada ao comboio da Lousã. E a Sandra e o Alentejano. E a rapariga do macacão que um dia levou o filho, o rapaz da testa alta e, às vezes, o Fernando ou o Bonirre.
Li o Antropólogo Inocente do Nigel Barley( Obrigado Luís Quintais), comprei o Diário de 1663 páginas que Bioy Casares escreveu sobre o Borges(obrigado Osvaldo), os livros de John Gray e de J.G. Ballard (obrigado Luís Quintais), a poesia de Bénedicte Houart (Osvaldo) e tantos outros, que me faltam a memória e as agendas. E claro que houve os convidados: O Nuno Júdice( e eu tão injusto), o Pina, A Alexandra Lucas Coelho, o Frederico Lourenço, o Mário de Carvalho, o Fiolhais, o Viegas, o Mexia que ouviu ler um obituário certeiro, a jornalista das mãos na anca, a Irene F. Pimentel, o RAP, o Adolfo Luxúria Canibal...
Agora a primeira segunda-feira de cada mês será igual às outras. Já não tenho de trocar o Serviço. Já não tens de correr para Campanhã. Agora acabou.

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13 junho 2009

Tropismes, librairies



Na cidade de B. há uma livraria chamada Tropismes. A cave tem livros de política, antropologia, psicanálise e comunicação. Dois cavalheiros simpáticos estão prontos para esclarecer qualquer dúvida. A cave é, como se vê, dispensável. O andar térreo tem livros de poesia, ficção estrangeira e ficção de escritores de B., livros de História e de viagens. Entre as estantes, discretas, estão duas mulheres . São muito magras, de braços longos, cabelo claro, fino. Talvez tenham sardas. Uma delas estava sentada, na tarde em que passei, num recanto da Tropismes, e lia, à luz de um candeeiro, o que podia ser uma nota de encomenda mas me pareceu o melhor e o mais secreto dos livros. A outra aproximou-se para saber se eu precisava de ajuda. Falava baixo e apercebi-me de que havia em toda a livraria um silêncio respeitoso, resultado do efeito de amortecimento dos livros, do elevado pé direito do edifício das Galeries des Princes e da atitude dos clientes, folheando livros demoradamente. A mulher que me interpelava e a mulher sentada pareciam a mesma mulher. Vestiam tecidos leves, transparentes. Esta descrição é enganadora, porque estas mulheres são sobretudo espírito, quase só Espírito e falar do corpo delas não facilita a impressão que causam e estou agora a tentar transmitir-vos. Direi que os cabelos, o porte, a idade, a fala sussurrada mas clara, a postura discreta criam uma impressão tão forte, tão de acordo com o papel central que as mulheres, a literatura e os livros têm na minha vida que não consegui pedir nenhum livro, com receio de as desiludir, do meu autor não estar à altura, de quebrar a doce gravidade que aquelas duas mulheres transmitem à livraria. Nos escaparates havia Joseph Roth, uma reedição de Judeus Errantes seguido do Anticristo pelas editions du Seuil. E Alexanderplatz de Doblin. E havia ainda um pequeno livro da Sophie Calle nas Actes Sud, que falava da RDA, e comprei para o Bonirre, embora tencione ficar com ele. Mas eu procurava Jour de souffrance, de Catherine Millet. Jour de souffrance, murmurei com a voz embargada e vi a mulher à minha frente, só Espírito, e ao fundo a outra mulher, que era a mesma. Atrás delas havia um pequeno gabinete na penumbra, e por um momento julguei ver Catherine M., de olhos baixos, enfrentando 50 homens priapisados e atrás dela o marido, o cabrão do poeta, l' ecrivain, le vrai écrivain, que finge fotografá-la, que está ali para o que der e vier, mas de facto está virado para as mulheres da livraria e alinha com elas um sorriso cúmplice. Souffrance d'un jour repeti. A minha voz era inaudível e abandonei Catherine M. aos 50 homens, a esta mulher que era o Espírito e ao cabrão do poeta, lui-même.

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21 abril 2009

Como votar Capoulas


André Bonirre

O Prós & Contras de ontem sobre as eleições europeias foi uma desilusão. A plateia, onde felizmente faltava a falange do PSD, mostrava uma primeira fila que era o espelho da decomposição do socialismo sistémico : Edite Estrela com o riso e a testa congelados, Campos a afundar-se na cadeira com a pesporrência de ditador condescendente, Ana Gomes na sua generosa agitação e o Capoulas com aquele ar satisfeito de agricultor a rebentar de subsídios. O candidato Vital Moreira vai perder cem mil votos de cada vez que aceitar um debate. Vital lembra agora um boneco animado em que até a indignação é em diferido.
Infelizmente a oposição de esquerda não convence. Ilda é genuína mas pouco rigorosa e Miguel Portas tem duas desvantagens : já sabe demais da Europa comunitária e deita tudo a perder quando deixa passar a táctica. A referência elogiosa à independência de Alegre, feita a despropósito, gelou a admiração que pudéssemos estar a sentir pelo seu discurso.
A direita é simpática e parece inofensiva. Não tem memória nem passado. Nem culpa nem projecto. Está ali para jogos florais e para o povão tolerante lhe dar um bilhete para Bruxelas. Com merecimento. Olha-se para a primeira fila centrista e percebe-se logo que é gente muito mais europeia que os europeus de Vital.
Na plateia, a câmara fixava ainda alguns rostos jovens, atentos e preocupados. Como não falaram, a esperança permanece. Entre eles distingui o Rui Tavares. Talvez um debate com os segundos planos fosse mais genuíno e interessante.

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01 abril 2009

Assunto: [EVENTO]: SEM EFEITO


Assunto: [EVENTO]: Interoperabilidade na Virtualização

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Os participantes que entregarem o inquérito preenchido após a conferência receberão gratuitamente uma pen USB de 2GB

http://www.moreinteropevents.com/email/portugal/orangeRight.gif

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05 fevereiro 2009

Facebook


André Bonirre

Começou pela Escola da Noite e eu
gostei e fiquei lisonjeado depois
foi Mimi Travessuras a avó
partenogénética da Elsa Raposo
e a seguir a Ana Vanessa e a Lara Sofia
e a PT
a Caixa Geral de Depósitos
o Movimento dOs Que Desejam
Todo o Mal do Mundo ao Vaticano
e os que vão salvar a última árvore sobrevivente
do Picoto
e a Grande Puta da Babilónia
e uma Retro escavadora que retira
a areia das falésias enquanto
escorrego nos precipícios
e a Padeira de Aljubarrota a Mulher
com Barba a borboleta esmagada na vidraça
e o Porteiro da Noite
da Jamaica que me separou
das Três Mulheres
que tencionava abraçar na confusão
e o Matos
e a Casa de Pessoal do CHC
sempre a caminho do último la Féria
E o Loureiro e o Coelho
o Doutor Francês e o Traidor
a rapariga que se vem no blog
tão ousada e sempre húmida

Fiquei a saber que são todos
amigos uns dos outros e sabe-se

porquê querem todos ser
meus amigos

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02 fevereiro 2009

Os Livros Ardem Bem


André Bonirre



O Poeta, este poeta, escreve à razão prática como, segundo o Álvaro de Campos, os crentes enérgicos faziam filhos. Os Livros Arderam bem no TAGV, infelizmente, desta vez sem magia. Porque o modelo aparentemente agora adoptado, com as intervenções escritas, retira-lhes vivacidade . Porque não há lugar à participação do público que quase adormece na contemplação. Porque o Nuno Júdice, o convidado de hoje, é um chato.
O Nuno Júdice foi, do Juvenil até ao Canto na Espessura do Tempo (1992), o meu poeta favorito. Depois disso a ideia da morte deixou de o atormentar e ficou um chato, académico, laureado, formalista. Não foi por acaso que o Manuel de Freitas, no quase manifesto dos Poetas sem Qualidade o erigiu como alvo a abater pela nova geração, uma espécie de Dantas para os que começavam a publicar em 90, depois de Ruy Belo e de J.M.Magalhães.
Osvaldo Silvestre esteve preso aos deveres de anfitrião e acabou por se calar, entediado.
O auto convencimento de Nuno Júdice atingiu o clímax( o clímax permitido a um poeta morto) quando Osvaldo lhe perguntou a opinião sobre a produção poética contemporânea e ele disse que todas as décadas surgiam um ou dois poetas ( sem ser capaz de sujar os lábios com uma citação. Nem Franco Alexandre, nem Luís Miguel Nava, nem Magalhães, nem Hélder Moura Pereira). Mas nas últimas décadas (pausa enfática) não vislumbrava ninguém. - Ninguém- o Osvaldo, enjoado.
- Ninguém. Nem um nome. Espremia os anos noventa e a primeira década deste século e não lhe saía nada.
Teria sido, no entanto, bem fácil. Bastava-lhe olhar para o lado para ver Luís Quintais. E Manuel de Freitas, e Rui Pires Cabral, e Carlos Bessa. E Ana Luísa Amaral e Adília Lopes. E Maria do Rosário Pedreira e José Miguel Silva.
Contente consigo próprio o Poeta entrou em registo confessional e disse ainda que em tempos escrevera um verso em que afirmava: Depois de mim só a prosa.
Depois desta prosa saí da sala. Era a única coisa poética que podia fazer.

PS(9/02/09): Osvaldo Silvestre teve a gentileza de responder nOs Livros Ardem Mal a este post impressionista, escrito à queima-roupa, em cima do acontecimento, como quase tudo o que aqui se publica. Fê-lo com o brilho e a profundidade a que nos habituou.

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17 dezembro 2008

O BANHO




ele insistirá em
ler coisas no mais simples acto dela.
o banho, que ela toma
porque ele quer. o banho
ela toma para se limpar.
ritual. ritual sempre
na vida dele. ela toma o seu banho
para se aprontar.
e ele a maior parte das vezes decide
que ela o quer sem banho. másculo.
o que lhe agrada mais é
ela tomar sempre banho.
na banheira dele. na água dele. esposa.

Joel Oppenheimer, in "Antologia da novíssima poesia norte americana" futura,
1973 trad. Manuel Seabra

sent by// André Bonirre

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15 novembro 2008

Parabéns (1)


André Bonirre

Aos meus três blogs favoritos tocados pela graça do silêncio.

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14 outubro 2008


André Bonirre


Morre um peixe
e secam os bonsais
o resto tudo igual
tudo igual

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01 outubro 2008

Terra a terra


André Bonirre


Levanta-se de madrugada. Vai à cidade de P. Leva um morto
traz outro.

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17 março 2008

Olá, Luigi/Lucchino/Loduvico!

Ainda bem que não postaste aquela coisa dos engenheiros e arquitectos. Era
tão privado que só tinha interesse para 3 ou 4 pessoas ao contrário das
letras habituais que interessam a 6 pessoas.
É o que dá não comer e não beber: fica-se sem interesse nenhum. O ramadão
termina amanhã, graças a buda!

Ps: és dos que já foram aos arquivos da PIDE, dos que dizem que não têm
tempo para lá ir ou dos preferem não saber por ser passado enterrado?
E o Bonirre terá lá ido? Devem ser curiosas as RDA News...

Um beijo anacoreta (isto é, uma ideia de beijo)
R.




//sent by Rosaarosa

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04 março 2008

22 fevereiro 2008

Paisagem

20 fevereiro 2008

Paisagem

14 fevereiro 2008

Paisagem

13 fevereiro 2008

Paisagem

08 fevereiro 2008

Paisagem

30 janeiro 2008

Fábula


Foto: Filipa Bonirre

[à maneira de Luís Sousa Costa]

Viram lobos pelas herdades. Bateram à porta. A criada abriu. Que viram lobos pelas herdades. A criada chamou o mordomo. Soltaram os cães. Os lobos comeram os cães.

Maria Velho da Costa

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28 janeiro 2008

Under your brand new leopard-skin pill-box hat

25 janeiro 2008

In anima vili


Foto: Filipa Bonirre

"Sejamos preguiçosos em tudo, excepto em amar e em beber, excepto em sermos preguiçosos." LESSING


Une étrange folie possède les classes ouvrières des nations où règne la civilisation capitaliste. Cette folie traîne à sa suite des misères individuelles et sociales qui, depuis des siècles, torturent la triste humanité. Cette folie est l'amour du travail, la passion moribonde du travail, poussée jusqu'à l'épuisement des forces vitales de l'individu et de sa progéniture. Au lieu de réagir contre cette aberration mentale, les prêtres, les économistes, les moralistes, ont sacro-sanctifié le travail. Hommes aveugles et bornés, ils ont voulu être plus sages que leur Dieu; hommes faibles et méprisables, ils ont voulu réhabiliter ce que leur Dieu avait maudit. Moi, qui ne professe d'être chrétien, économe et moral, j'en appelle de leur jugement à celui de leur Dieu; des prédications de leur morale religieuse, économique, libre penseuse, aux épouvantables conséquences du travail dans la société capitaliste.

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