23 junho 2011

Quem tramou Rui Tavares



Não conheço Rui Tavares de lado nenhum. Assisti a uma sessão literária em que ele era o convidado, li o Pequeno Livro sobre o Grande Terramoto e, quando posso, compro o jornal no dia em que é publicada a sua crónica.
Acho que é uma boa pessoa. Sabe história, o que é sempre uma vantagem. Tem opiniões pessoais que se esforça por justificar. E, até agora, não lhe conhecia “agenda politica” oculta. Ao escrever estas linhas dou-me conta de que dificilmente sou capaz de encontrar uma pessoa com intervenção continuada na vida pública dos últimos anos com que tenha um acordo tão frequente e tão profundo (Talvez o Rui Bebiano, embora, infelizmente A Terceira Noite não tenha o impacto e a divulgação que merece). Quando votei no BE nas eleições europeias votei também no Rui Tavares, por causa do Rui Tavares, contente por o Bloco integrar uma voz como a dele.
Muitos dos meus amigos, como constatei nestes dias, sentem, a este respeito, o mesmo que eu. A perda do Rui Tavares enfraquece o BE.
A questão de se ter conhecimentos de história não é menor. Eu consigo, sem dificuldades, falar de trivialidades com qualquer pessoa. Mas se se trata de acções politicas custa-me não ter a certeza de que os meus interlocutores têm uns rudimentos da história do século XX. A minha mãe viveu, estes últimos meses, com uma senhora brasileira que estava a fazer um mestrado de Economia. De entusiasmos fáceis rapidamente a considerou sua amiga. Mas um dia estava triste:
- Calcula que a Jocelina não sabe nada da história do Brasil- desabafou.
Eu tenho o mesmo problema com esta gente que incendeia os comentários dos blogs fashion. Sabem o que foi a Yersinia pestis? Que Modesta Proposta fez Swift aos ricos ? Que progresso trouxe a guilhotina? Onde fica Kolima?
Não tenho a certeza. Sabem decerto coisas bem mais importantes, mais úteis e decisivas que estas dúvidas que trago comigo. Coisas que ainda não souberam, não puderam ou não lhes foi possível comunicar. E a sobrecarga de passado pode tornar difícil o presente e ser mesmo um estorvo ao radioso futuro.
Não interessa. O Rui Tavares conhece o passado e , à sua maneira, tem sabido falar do presente. Eu gosto dele, votei nele, sinto-me representado por ele e desejo-lhe lucidez para não se deixar beliscar por esta gente toda, dos comentadores a Vital Moreira, fazendo zum-zum à volta da cabeça.
Tenho com ele um acordo mais profundo e fundamental. Daquelas coisas que acontecem e não têm que ver com episódios ou querelas. Aconteceu-me com a minha secretária-geral, que durante anos nos deu a linha, ao Bonirre e a mim e que segui com enlevo até ao dia em que me expulsou por motivos fúteis.
Eu não julgo RT, nem me interessa o seu grupo parlamentar.

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01 maio 2010

Quem fodeu o proletariado






Confesso que cresci embalado numa promessa. Uma manhã acordaria no dia claro da Sophia. A terrível desigualdade entre os humanos seria anulada por um poder que acabaria com a exploração e ao fazê-lo, extinguir-se-ia. Então o homem deixaria de ser o lobo do homem (esta imagem nunca me convenceu, porque cresci no meio de gente boa e os lobos nunca me inspiraram senão admiração e inveja). O sujeito desta estória era o proletariado. Eu nunca vira o proletariado mas, depois de ter sido chacinado nos Champs de Mars, ele tinha vencido na Quirguízia e na Mongólia exterior. O proletariado tinha construído a mais bela das praças do mundo, a Grande Place de Bruxelas, e numa dessas casas, pago pela corporação dos padeiros, um cientista social tinha escrito O Capital e o Manifesto do Partido Comunista. Na idade em que somos invulneráveis e eternos, a inevitabilidade da vitória do proletariado era, com o Em Órbita, a música que tocava nos meus ouvidos.
De facto nunca me encontrara com o proletariado. A classe operária estava muito atrasada no meu país e só me era dado conhecer homens e mulheres normais. Acho que cheguei ao que se convencionou chamar a idade adulta sem ter apertado a mão a nenhum proletário. Mas era uma questão de tempo.
O resto já se sabe.
O proletariado nem chegou a aparecer. O Bonirre fotografa agora os destroços das fábricas na cidade de C., as marcas de vidas que não conhecemos, da gente que trabalhava duramente, ignorante do nosso sonho bom e do pesadelo da Mongólia exterior.
Os filhos dos proletários são hoje estudantes das privadas, desempregados de longo curso nos balcões dos shoppings, auxiliares dos lares da terceira idade, animadores culturais do Instituto da juventude com contratos a termo certo.
Na Quirguízia os filhos do homem novo aderiram ao islamismo e à acção directa.
Os velhos donos do mundo, com falinhas mansas, eleições, hambúrgueres e televisões empalmaram o proletariado. Quando ele deu conta deixara de existir. Nem classe em si. Nem classe para si. Simplesmente uma coisa do passado como a FNAT, as Mutuais, as Cooperativas, os piqueniques no campo e o próprio campo.
Mas não se riam.
Talvez hoje, numa praça de Atenas, um espectro comece a assolar a Europa.

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27 fevereiro 2010

Dois comentadores com "um fraquinho" pelo Sócrates




Quase todos os canais têm painéis de comentadores políticos. Ontem na sic notícias vi um par imbatível. Betencourt Resendes e Luís Delgado. Não sei o que aconteceu a Delgado. Parece um tio convalescente. Conheci-o quando era a fonte, o oráculo e o confidente do Lopes, na fase ascendente do Lopes. Lopes era o delfim de Barroso, ainda Barroso era Durão e Delgado era uma ponta avançada da Direita que tinha retomado o poder e em breve iria endireitar o pais. Alguns anos depois Delgado é um falcão reformado, asa derrubada e pontos de vista de centro. Aliás neste país, se exceptuarmos Medina Carreira e Isilda Pegado, toda a gente tem pontos de vista do centro. Centro-direita claro, como diz Delgado. Ontem Delgado explicou, para os que como eu têm estado desatentos ao aggiornamento dos comentadores políticos, que “tem um fraquinho por Sócrates”. Disse isto em tom benigno, como uma tia de Cascais que falasse duma velha amiga. “Um fraquinho”. Uma coisa sem chama nem futuro. Sem passado nem ambição. Só “um fraquinho”. Uma discreta inclinação. Um lampejo quando o vê passar e depois o esquecimento. Delgado explicou porquê. Segundo ele, Sócrates “fez muitas reformas de centro-direita que a Direita nunca teve coragem de fazer”.
Qual foi a mensagem que aqueles dois comentadores ontem trouxeram: 1. Não há nenhum risco para a liberdade de imprensa; 2. Todos os governos, desde a Grécia clássica, tentaram controlar os directores de jornais; 3. A Comissão Parlamentar é uma vergonha e os depoimentos dos convocados não esclarecem nada.
Até aqui é a cartilha. Quando é que vem a novidade? Sócrates, no entender deste par, talvez tenha mentido ao Parlamento quando respondeu a um parlamentar e declarou que não sabia nada do negocio através do qual a PT tentava comprar a TVI. Mas se mentiu foi uma mentira menor. Mentiu porque não lhe veio mais nada à cabeça senão aquela mentira . Mentiu como podia ter dito a verdade.
- Já ouviu falar da PT ? E ele, em dia sobrecarregado: - Não.
Mas era um não-sim. Um não-sei lá. Um não me chateiem que isto não interessa nada.
A pivot, ela também com ar de convalescente, não disse nada. Mas há alguma coisa a dizer?

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30 setembro 2007

A seta para baixo de Pacheco Pereira

As eleições no PSD foram para nos desviar dos verdadeiros problemas, como costuma dizer o partido Comunista. Marques Mendes pôs na sombra Valentim Loureiro e Isaltino. Mas eles são o natural, neste país, e quando se expulsa o natural ele volta, a galopar. Aí temos o portugalete de 2007: Sócrates, Portas, Jerónimo e Meneses.

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28 setembro 2007

Saudades do Lopes

Contaram-me que o Lopes se levantou e deixou a entrevistadora a falar sozinha. Que depois veio o Ricardo Costa dizer que o Lopes queria primeiras páginas, quando nós sabemos que o Lopes pode querer, mas quem faz a primeira página é o Ricardo Costa. O Lopes ajudou a criar este monstro. De sound bites, alinhamentos, interrupções, repetições, comentaristas especiais. Agora o monstro tem falta de artistas especiais, genuínos, um pouco imprevisíveis, populares, mas bem calçados. Já não se aguenta o Rogério dos advogados. Mas o Lopes não é homem para todos os canais. Nós fizemos campanha contra o Lopes, com a verdade, o exagero e a mentira, para o tirar de lá logo que o Sócrates se sentisse capaz. O Lopes, por muito deprimido que possa estar, não é um homem para todos os canais. Lopes é um herói dos tempos difíceis e ontem, entre os pigmeus que disputam a liderança do PSD e dos controleiros da televisão, Lopes foi ele mesmo, o nosso Lopes.

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15 abril 2007

Os dias do fim


Praça dos Grilos, Porto. De Blue, em Blue


Definitivamente: é absolutamente irrelevante a questão das qualificações de José Sócrates. Não sei qual a formação ideal para um chefe de governo, em 2007. São secundárias as motivações do sôr zé manel furnandes ou do expresso. A questão já foi explicada algures e foi mais ou menos assim que o meu mestre ma resumiu: com Sócrates as jotas chegaram ao poder. Os jotas, rapazinhos que hesitaram em inscrever-se na jsd ou na js, estiveram um ano à frente de uma associação de estudantes e no ano seguinte, deixando os estudos para trás, apareceram como assessores do ministro, nº 26 das listas partidárias, qualquer coisa nas águas municipais ou na comissão de coordenação. Aprenderam o que interessa: quem é quem e como se concorre às verbas européias, se criam e desfazem empresas. Agora saltam do tecido empresarial para a política pura. São amigos dos jornalistas que contam. Dão umas dicas, em off. Vestem o avental que estiver a dar. Se perderem estas eleições saberão acatar os desígnios populares. Farão a passagem pelo deserto de uma empresa, ou de um banco, onde a verdadeira paridade é respeitada. A que assegura que um ex jota do psd, ou equiparado, terá sempre ao lado um jota do ps ou equiparado. O que conta, nas equivalências, é esta origem, esta fidelidade primordial.
É por isso com amargura que leio as boas almas ingénuas, verdadeiramente boas e ingénuas- não ironizo nem este sarcasmo me alivia. Continuam a escrever sobre a discriminação relativamente aos licenciados, sobre os maus, os da oposição ou os das opas derrotadas, que estão por detrás de tudo. Negamos a realidade se ela não se conforma com as nossas mais fundas ilusões, assim explica John Gray o olhar benigno com que os intelectuais bem pensantes contemporizaram com as grandes matanças do século XX. Não estamos preparados para um mundo assim. Precisamos de Salazar e de Cunhal, dois príncipes sem mancha. Era bom que Sócrates fosse sei-lá-o-quê, mas seguramente qualquer coisa diferente do amigo de Vara, o aluno do professor das quatro cadeiras que também era consultor da HLC, a empresa da Covilhã que prosperou nos idos do Ambiente. Não acreditamos que este seja o tempo do triunfo dos jotas. Que os dias do triunfo dos jotas sejam os dias do fim.

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