Quem tramou Rui Tavares
Não conheço Rui Tavares de lado nenhum. Assisti a uma sessão literária em que ele era o convidado, li o Pequeno Livro sobre o Grande Terramoto e, quando posso, compro o jornal no dia em que é publicada a sua crónica.
Acho que é uma boa pessoa. Sabe história, o que é sempre uma vantagem. Tem opiniões pessoais que se esforça por justificar. E, até agora, não lhe conhecia “agenda politica” oculta. Ao escrever estas linhas dou-me conta de que dificilmente sou capaz de encontrar uma pessoa com intervenção continuada na vida pública dos últimos anos com que tenha um acordo tão frequente e tão profundo (Talvez o Rui Bebiano, embora, infelizmente A Terceira Noite não tenha o impacto e a divulgação que merece). Quando votei no BE nas eleições europeias votei também no Rui Tavares, por causa do Rui Tavares, contente por o Bloco integrar uma voz como a dele.
Muitos dos meus amigos, como constatei nestes dias, sentem, a este respeito, o mesmo que eu. A perda do Rui Tavares enfraquece o BE.
A questão de se ter conhecimentos de história não é menor. Eu consigo, sem dificuldades, falar de trivialidades com qualquer pessoa. Mas se se trata de acções politicas custa-me não ter a certeza de que os meus interlocutores têm uns rudimentos da história do século XX. A minha mãe viveu, estes últimos meses, com uma senhora brasileira que estava a fazer um mestrado de Economia. De entusiasmos fáceis rapidamente a considerou sua amiga. Mas um dia estava triste:
- Calcula que a Jocelina não sabe nada da história do Brasil- desabafou.
Eu tenho o mesmo problema com esta gente que incendeia os comentários dos blogs fashion. Sabem o que foi a Yersinia pestis? Que Modesta Proposta fez Swift aos ricos ? Que progresso trouxe a guilhotina? Onde fica Kolima?
Não tenho a certeza. Sabem decerto coisas bem mais importantes, mais úteis e decisivas que estas dúvidas que trago comigo. Coisas que ainda não souberam, não puderam ou não lhes foi possível comunicar. E a sobrecarga de passado pode tornar difícil o presente e ser mesmo um estorvo ao radioso futuro.
Não interessa. O Rui Tavares conhece o passado e , à sua maneira, tem sabido falar do presente. Eu gosto dele, votei nele, sinto-me representado por ele e desejo-lhe lucidez para não se deixar beliscar por esta gente toda, dos comentadores a Vital Moreira, fazendo zum-zum à volta da cabeça.
Tenho com ele um acordo mais profundo e fundamental. Daquelas coisas que acontecem e não têm que ver com episódios ou querelas. Aconteceu-me com a minha secretária-geral, que durante anos nos deu a linha, ao Bonirre e a mim e que segui com enlevo até ao dia em que me expulsou por motivos fúteis.
Eu não julgo RT, nem me interessa o seu grupo parlamentar.

