18 outubro 2009

i

Eu até ontem lia um jornal chato. Agora leio o i. Gosto desta mundivisão. Um menino ficou debaixo do comboio, foi arrastado 30 metros, e saíu ileso. Lemos o título, vemos os fotogramas e depois voltamos, para ler as letrinhas pequeninas. Mais à frente, outro título informa-nos de que o filho de um jogador de futebol caíu do 7º andar. Estranhamente, lemos isto sem angústia e voltamos a folha, na mesma paz. Confirma-se a benignidade destes desastres: a criança, amparada pelo i, só partiu uma costela, coisa de nada.
Na página três uma sexóloga informa que a vagina das mulheres fica húmida "quando o tempo aquece".
Mais à frente, Cardinali é amigo dos animais, ninguém duvida. No i, o leão branco está feliz pelo cativeiro e por ser exibido às crianças de Évora.
O mundo do i é levezinho, curto, como uma brincadeira de crianças em que morremos e nos levantamos em seguida, ninguém se magoa e a Laurinda Alves faz pendant.

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21 setembro 2009

A Asfixia São Eles


Paula Rego, série Jane Eyre

Abro os jornais do costume: o Público, o Expresso. Percorro os canais . É a asfixia. Sem adjectivos. O país pequenino, de gente pequenina ou que, à aproximação da câmara da televisão, se empequenece. No Antropólogo Inocente, Nigel Barley conta como , sabendo da fama que gozavam de antropófagos, os nativos de um povo africano, ao serem abordados por antropólogos europeus, narravam, para espanto e deleite destes, histórias terríveis de antropofagia. Pode ser que os portugueses não sejam assim. Que sejam calmos, cordatos, reflectidos e capazes de um discurso estruturado sobre a realidade. E que apenas quando confrontados com uma câmara devolvam a imagem boçal que o jornalista procura. Os açuladores de peixeiras podem escrever o que quiserem. Louçã esteve bem quando recusou a peixaria.

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