18 outubro 2009

i

Eu até ontem lia um jornal chato. Agora leio o i. Gosto desta mundivisão. Um menino ficou debaixo do comboio, foi arrastado 30 metros, e saíu ileso. Lemos o título, vemos os fotogramas e depois voltamos, para ler as letrinhas pequeninas. Mais à frente, outro título informa-nos de que o filho de um jogador de futebol caíu do 7º andar. Estranhamente, lemos isto sem angústia e voltamos a folha, na mesma paz. Confirma-se a benignidade destes desastres: a criança, amparada pelo i, só partiu uma costela, coisa de nada.
Na página três uma sexóloga informa que a vagina das mulheres fica húmida "quando o tempo aquece".
Mais à frente, Cardinali é amigo dos animais, ninguém duvida. No i, o leão branco está feliz pelo cativeiro e por ser exibido às crianças de Évora.
O mundo do i é levezinho, curto, como uma brincadeira de crianças em que morremos e nos levantamos em seguida, ninguém se magoa e a Laurinda Alves faz pendant.

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26 julho 2007

circa 1993


Blue

deitámo-nos na cama
dos avós
e os dedos alisando
as costuras
no sono da tarde procurámos
refúgio
enquanto tu fechavas
as cortinas
cúmplice da vida
verdadeira

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03 maio 2007

Remember me




REMINDER

f. é uma jornalista que conheço há alguns anos pelos textos que publica nos jornais e blogs. É uma jornalista de causas e aprecio algumas das causas que abraçou. No dia 25 de Abril publicou um comentário ridicularizando o discurso de Paulo Rangel na Assembleia da República. Recorde-se que Rangel considerou que se viviam em Portugal tempos de ameaça à liberdade de expressão, o que foi considerado, pelo governo e seus próceres, como um arrobo de demagogia partidária. Bota abaixismo, disse Sócrates. Deslocado, disseram outros. f. preferiu falar do casaco do deputado, um trapo indigente comparado com o blaser do primeiro-ministro. A posição de f. é importante por ela ser uma referência do jornalismo de qualidade, independente. Se ela menospreza assim o discurso de Rangel é porque há razões para ter confiança. Não há ameaças à liberdade, ou a haver são irrelevantes. Se as houvesse, f. estaria em guerra. Sublinhando a sua posição, f. publicou uma carta de um leitor do blog que manifestava uma indignação possidónia pelas preocupações do psd relativamente às liberdades.
Permiti-me discordar. Num curto espaço de tempo, um dos jornais de referência, o DN, foi entregue a um director experiente num tipo de jornalismo em que me não revejo, e encetou um programa acelerado de tabloidização do jornal. A minha liberdade de leitor foi atingida quando deixei de ter o suplemento de sexta ou rubricas como Contra os Canhões.
Logo de seguida, um grupo espanhol comprou a TVI e entregou a sua gestão a um destacado elemento do PS, conhecido pela enorme influência conquistada através da promiscuidade cargos do Estado/ cargos empresariais e da forma maquiavélica com que pratica a política.
Estas questões podem ser discutidas, embora não haja muita gente disponível para as discutir. Fora da blogosfera, por exemplo, a disponibilidade para discutir estes temas é escassa, por razões óbvias. Os media têm alguma dificuldade em avaliar-se a si próprios.
Eu não disse a f. que estava mal vestida nos Prós e Contras do referendo da interrupção da gravidez. Acho que o humor tem lugar no combate politico e na intervenção pública. Admito que os outros utilizem contra mim armas semelhantes às que utilizo ou estou pronto a usar. Não tenho visões a preto e branco do mundo. Engano-me muito. Não me orgulho de muitas das coisas que fiz. Sinto-me aliás mais forte para falar de alguns aspectos da realidade na medida em que os vivi com alguma proximidade. Não sei o que é “o bem” e “a liberdade”. Com John Gray, tendo a considerar que o objectivo da vida é apenas viver, como os restantes animais, olhar, observar e disso retirar felicidade.
Quando quero falar de f. falo de f. Quando quero falar dos policias franceses falo dos policias franceses.
Tudo isto não tem muita importância. Já é conhecido o veredicto de f. e das suas admiradoras. O que eu possa dizer sobre as suas posições é palermice.
Eu não acho que f. seja uma palerma. É uma pessoa de virtude. Desde Saint Just que tenho medo dos virtuosos.

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02 maio 2007

Paulo Alves Guerra

De manhã aguaceiros, frio, as obras paradas. Ouço a voz e a música de Paulo Alves Guerra. O sem sentido da manhã chega-me. Sou feliz à minha maneira. Quando for tudo igual, quando a lógica liberal da teta e do entretenimento acabar com estes espaços restar-nos-á sempre, a nós, quatro por cento, o império dos sentidos.


IMPÉRIO DOS SENTIDOS
Música - Tons Conhecidos








De 2ªa 6ª às 07h00
Paulo Alves Guerra
Produção: Manuela Gomes / Manuela Lima

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22 abril 2007

A vida boa, a vida


Blue


Está um dia radioso no carso e nas charnecas. Vencer Loureiro, Moura e os que os aconselham, é seguir o preceito do livro de Chuang-Tzu: "A vida boa não tem propósito. É como nadar num rio, respondendo ao vaivém das correntes.
"Entro com o influxo e saio com o refluxo; sigo o caminho da água e não lhe imponho o meu egoísmo. É por isso que me mantenho à tona."

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