30 setembro 2010

FMI (II)




Ao contrário do que o defuminado Vital Moreira acreditava, a crise não era uma invenção dos jornalistas desatentos à retoma e o FMI entrou em Portugal pela mão doridas do partido socialista. Fui ver as reacções dos socialistas de esquerda: era inevitável disse um, e os outros em seguida, em uníssono e depois do chefe. Vivam os direitos dos transexuais, disseram os coleguinhas do Jugular. Como se não fosse o dia em que os direitos dos transsexuais ao trabalho, à saúde, à educação, à reforma e à esperança na vida tivesse recebido grave ofensa na terra ( e algum consolo no céu).
Aí temos então as medidas terapêuticas. Sem que se tivesse feito o diagnóstico. Pelas mãos dos presumíveis patogénicos ou dos seus vectores ( inevitáveis). Sem prognóstico. Como se dissessem a um doente: - Não sabemos bem o que te provocou este mal-estar. Vais tomar os nossos medicamentos e adoecer ainda mais. Se cumprires as receitas, ao fim de um tempo indeterminado, talvez fiques como estás agora.
Sinto, no meu corpo, vestígios de uma substância proibida. Rui, se a cozinha dos teus pais ainda estiver preparada, eu arranjo a gasolina, tu as garrafas e a tua mãe que comece a preparar os pavios.

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09 maio 2008

Este homem



Este homem dorme na minha casa. Dorme no meu quarto. Acorda e vê as mesmas paredes, dá os mesmos passos, abre as mesmas torneiras. Ouve os mesmos ruídos. Tem sonhos como os que tive, anos a fio, naquela casa. Educa dois filhos. Acorda de noite, ouve uma mulher respirar, julga que sabe como respira quem dorme ao pé dele. Este homem repete a minha vida. Olhamo-nos nos olhos. Ele não quer saber o resto da história, eu não tenho vontade de lha contar.

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07 setembro 2007

Setenta vezes sete


Alyson Brady


Na rua em que nasci vejo o prédio e o andar. Estão bons para o camartelo. No bairro operário, onde agora escrevo, estou quase sozinho. Eu e o senhor Nuno. Depois do pôr-do-sol, o senhor Nuno calça umas luvas pretas iguais às dos rapazes da musculação e anda na varanda da casa, sete passos para cada lado, ida catástrofe e volta, setenta vezes, até ser noite ou a dona Mariazinha o ir buscar e acabar com aquela agonia peripatética. Hoje apanhou-me a sair de casa e perguntou-me: - Então vai vender o andar? Andam aí a dizer que nos vai deixar. Sosseguei-o. Nunca deixo os sítios que habito. Se tivesse dependido de mim continuaria a viver no prédio da rua em que nasci. Não suporto a ideia de viver num sítio sem o senhor Nuno e a dona Mariazinha.

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26 maio 2007

Sabado

Atrás de cada mulher que abre uma persiana está um homem de borco num colchão,dobrado sobre si mesmo, feio do sono.

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