12 abril 2009

Le sanglier, la laie

Em Janeiro as fêmeas estão no estro mas a sua receptividade dura pouco. Quarenta e oito horas. É o tempo que ele tem para a localizar, de entre as fêmeas. Não é fácil. Apesar de terem os grandes lábios ao rubro elas reagem mal à sua aproximação. Ele agita-se, especialmente atento ao traseiro de uma javalina. E volta, impaciente. À quarta investida ela imobiliza-se. Ele alça-se sobre as patas traseiras e cobre-a. Dois minutos: é o tempo em que ficam juntos. Pode ser imenso em tempo-javali. Durante a cópula ele está calmo. Enche-a com 200 a 300 cm3 do seu esperma branco e desmonta. Não se olham. Ele volta para a sua vida solitária, ela para a alcateia de girondas e jovens.

Le Sanglier (La laie), Jean Louis Bouldoire, ed. Hatier 1989

Etiquetas:

08 abril 2009

Um texto que muda a vida


August Sander | Blinde Kinder beim Unterricht, um 1930

(...) A miúda estava sentada na mesma mesa e quando chegou a vez dela disse que um texto lhe mudara a vida. O texto era de Robert Fisk, jornalista inglês mas não ao serviço de Sua Majestade, que no Afeganistão fora apanhado por afegãos durante a invasão americana punitiva do 11-S. Fisk, sovado quase até à morte, terá escrito compreender que naqueles dias qualquer afegão matasse qualquer ocidental. A miúda, habituada a filmes de terror e a quem as Torres Gémeas soubera a pouco, achou que aquela enormidade lhe iluminara a vida e desde aí parece falar a essa luz.
A própria frase”um texto que mudou a minha vida” é assustadora. Pode a vida mudar? Pode um texto mudar uma vida? Como era a vida que umas palavras mudam? Como é agora a vida que assim mudou? Ouço sempre estas revelações com grande incomodidade e a sensação de estar a assistir a um transe a ouvir o que não devia ou a atentar contra o pudor de alguém. E também com uma sensação de culpa. A jovem a quem foi feita tamanha revelação, agita-a contra mim, como marca de uma superioridade. Porque eu que não li o texto, que não mereci a graça, continuo em pecado. Eu não mudei a minha vida. Estou ali, mais uma vez me foi contada a verdade sobre a minha existência culposa e persisto na cegueira. Sou mais uma vez o que não quer ver, o pior dos cegos, como dizia o padre da minha juventude na prédica com que obliquamente me fulminava nas aulas de Religião e Moral.

Etiquetas: ,

07 setembro 2007

Setenta vezes sete


Alyson Brady


Na rua em que nasci vejo o prédio e o andar. Estão bons para o camartelo. No bairro operário, onde agora escrevo, estou quase sozinho. Eu e o senhor Nuno. Depois do pôr-do-sol, o senhor Nuno calça umas luvas pretas iguais às dos rapazes da musculação e anda na varanda da casa, sete passos para cada lado, ida catástrofe e volta, setenta vezes, até ser noite ou a dona Mariazinha o ir buscar e acabar com aquela agonia peripatética. Hoje apanhou-me a sair de casa e perguntou-me: - Então vai vender o andar? Andam aí a dizer que nos vai deixar. Sosseguei-o. Nunca deixo os sítios que habito. Se tivesse dependido de mim continuaria a viver no prédio da rua em que nasci. Não suporto a ideia de viver num sítio sem o senhor Nuno e a dona Mariazinha.

Etiquetas: ,