28 outubro 2009

Rita Rato


Lisete Model

Como estudioso da psicologia evolucionista compreendo que as opiniões de uma mulher bonita ganhem uma ressonância inesperada. A deputada Rita Rato é uma insignificância que não mereceria mais atenção que João Guilherme Rosa de Oliveira, igualmente eleito por um partido que é a expressão indigente do nosso atraso cultural. Mas como tem uma cara bonita, entrevistam-na. Segundo os teóricos comunistas que surpreendentemente ainda escrevem, perguntam-lhe coisas “ indecentes” como o que pensa ela do Gulag. O teórico comunista Manuel J. Neto, que escreve nos comentários do 5 noites, cita Vítor Dias, para considerar que o problema está no perguntador e não na respondente. Não se pode perguntar a um comunista o que pensa do Gulag, porque isso é “ colocar o gulag ao nível do cozido à portuguesa”, argumentam os teóricos. Manuel J. Neto contrapõe ao “acho que” que os maus jornalistas incentivam, um “ debate sério, estruturado e historicamente rigoroso sobre o acontecimento dos gulags na ex-URSS”.
Aquilo que é importante perguntar a um comunista é precisamente o que pensa do Gulag. Porque só pode ser comunista hoje quem tiver um pensamento informado e estruturado sobre o Gulag. E não colhe a opinião de Vítor Dias, que pergunta o que responderiam os jovens deputados do PS ou do PSD interrogados sobre as matanças de comunistas na Indonésia de Sukarno . Que eu saiba, o PS ou o PSD nunca prometeram a construção de uma sociedade nova nem apontaram a Indonésia como um farol.
Kundera escreveu uma vez que quando um comunista diz que não sabia do Gulag, lhe responde com o exemplo de Édipo ao conhecer o engano da sua vida: fure os olhos e vá para o deserto. Só é aceitável debater com alguém que se reclama do comunismo quando se apresentar com os olhos vazados, como penitência pelo “socialismo real”.
Resumindo: não se deve brincar com coisas sérias. A presença de Rita Rato no Parlamento é uma vergonha. A Rita é linda? Linda é a Candidinha que não concorreu ao parlamento, não se licenciou em ciências políticas mas sabe que nome é que se dá às gajas que chutam para fora quando lhes perguntam pelo Gulag. E já agora, aos teóricos comunistas que querem debates sérios e historicamente rigorosos.

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03 novembro 2008

Biografia de um Inspector da Pide



A História da Pide, a Biografia de um inspector da Pide e o trabalho mais recente de Irene Flunser Pimentel são importantes para a história do país que fomos durante quase todo o século XX. Um país pequeno e pobre , periférico e isolado, de gente inculta e medrosa, denunciantes e funcionários públicos, respeitosos para com as fardas e as sotainas. Para as gerações que nasceram e cresceram depois de 1974 esse país é tão longínquo como o Portugal das invasões francesas ou das lutas entre liberais e absolutistas. Paradoxalmente, algumas instituições do salazarismo persistem entre nós. Uma delas é o Partido Comunista, que foi um baluarte de resistência e influenciou muita gente boa e generosa . O PCP é hoje uma relíquia estimável se for mantida à distância, como curiosidade sociológica. Se o deixam à solta ele faz o que sabe: destrói arquivos, apaga fotografias, escreve resumos de manuais, insulta. No caso do último livro de Irene F. Pimentel o comportamento do director do jornal Avante foi paradigmático. Incapaz do esforço mental de ler as 396 pgs do livro e de contrapor ao trabalho sério da investigadora as suas fontes, José Casanova escreveu umas catilinárias num artigo de opinião, cuja única finalidade consiste em apontar aos fiéis o inimigo e dissuadi-los de ler, conhecer, discutir, interrogar.
Os leitores do Avante têm a obrigação de exigir ao seu director um repto a que, 34 anos depois da democracia, ele não se pode eximir. Se não foi assim, como é que foi? Se os documentos existentes são estes, quais são os que o Partido- pior que o Departamento de Estado- detém e não revela.

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30 março 2008

Tibete




A seita autista que arrasta o nome do Partido Comunista Português manifesta algumas peculiaridades. Uma delas é o estranho desinteresse pela sorte da classe operária chinesa: já não falo em horários de trabalho, direitos sindicais, regalias sociais mas de coisas básicas que lhes preexistem e têm a ver com a dignidade da existência. A outra é a política de dois pesos duas medidas quando se fala de povos oprimidos. A sorte do povo do Tibete não lhe merece nenhuma comiseração. O comunicado do PCP sobre a actual vaga repressiva no Tibete envergonha qualquer ser decente. A este propósito a leitura dos comentários do Arrastão é instrutiva.

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08 setembro 2007

Lembrar Ingrid Betancourt na Festa do PCP



Há uma semana escrevi um aviso aos incautos que forem à festa do PC. Serão cúmplices do cativeiro de Ingrid Betancourt e dos reféns das Farc. Cúmplices da repressão sobre o povo da Coreia. Cúmplices da tragédia cubana. Num comentário correcto, António Vilarigues deu-me informações sobre a táctica actual do Partido Comunista da Colômbia (PCC). Passei horas a documentar-me sobre o assunto. E corrigi: o PCC integra uma frente política representada no Parlamento e no Senado que repudia a luta armada e considera as Farc e a política personificada pelo actual presidente, duas faces do mesmo bloqueio. Infelizmente o secretário geral do PCP, Jerónimo de Sousa, hoje entrevistado no Público, (jornal.publico.clix.pt/) não teve quem lhe fizesse o trabalho de casa. Às perguntas das jornalistas respondeu
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Insistimos: o PCP considera as FARC uma organização terrorista?
Independentemente do questionamento e da não subscrição deste ou daquele método, o PCP considera que o povo colombiano, na sua expressão das FARC, com essa separação em relação a métodos, tem todo o direito a responder a uma violência fascista, terrorista, que não limpa a imagem do Governo Uribe. Há um processo de intenção de classificar de terrorismo uma parte que luta pela defesa da soberania e de procura da melhoria das condições do seu povo. Para não ser deturpado nas palavras, o PCP tem como princípio geral a solidariedade para com todos
os povos, movimentos e organizações que lutam pela sua independência, por uma vida melhor para os seus povos, incluindo o recurso à luta armada. O PCP é contra qualquer acto terrorista que ignore essa luta de resistência e essa luta de emancipação.



Podem ler as vezes que quiserem. O homem, tal como Vítor Dias no seu blog, não menciona nunca o nome das vítimas da Farc. E, mesmo pressionado, não se lhe consegue fazer sair da boca nenhuma condenação dos métodos da Farc, nem do terrorismo. Ele considera as Farc uma expressão do povo, e encontrou a expressão farisaica que melhor caracteriza a política sem princípios do seu partido: O PCP é contra qualquer acto terrorista que ignore essa luta de resistência e essa luta de emancipação. Como nenhum terrorista ignora essa luta de resistência e essa de emancipação, Jerónimo e o PCP são contra o terrorismo em geral mas não têm nada contra os terroristas em particular.

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