29 novembro 2009

O Sentido das Eólicas



Já não leio livros. Mas continuo a gostar de livrarias. Ontem vi um livro, compilado por Desidério Murcho, sobre o Sentido da Vida. O livro tem 208 páginas. Poucas, para explicar o sentido da vida. Demasiadas, para mim. Há cem anos, no poema V do Guardador de Rebanhos, Caeiro arrumou a cousa em dois versos. “O único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido íntimo nenhum.” Das mais belas páginas de Dawkins em River out of Eden, bem longe do proselitismo ateu da Ilusão de Deus, são sobre o significado oculto das coisas. Este fim de semana li uma reportagem no Público sobre os lobos de Leomil. Se a vida dos lobos dependesse de um referendo aos habitantes de Leomil , mais de 80% viraria o polegar para baixo. O significado da vida dos lobos de Leomil passa agora pelas eólicas. Os de Leomil odeiam os lobos. São poucos os que alguma vez o avistaram, mas se os ouvirem falar, surpreender-se-ão com o súbito amor que este simples têm pelas vítimas dos lobos. Uma égua, duas ovelhas, uma pastorinha. Excitados contra os predadores nada demove a sua ferocidade. Eles defendem o extermínio dos lobos, dos biólogos, dos ecologistas e da gente dos parques nacionais. Os mais condescendentes aceitariam a vida dos lobos, desde que confinada a um campo de detenção. Mas comovem-se com as pás das eólicas varrendo o horizonte. Não sei se o livro dos filósofos que Murcho reuniu, atentou na vida dos lobos, na vida dos camponeses de Leomil, na vida dos jornalistas, na minha vida de ex-leitor. Mas, sem uma crença que me tivesse bafejado, escapa-me o sentido da vida do lobo, da ovelha, dos seres abatidos à conta do nosso insaciável apetite. Ainda entendo , vá lá, o sentido da vida dos negociantes das eólicas. E em tempos pareceu-me entender o vento assobiando nas cumeadas.

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20 fevereiro 2009

Ashes to ashes


Eva Rubinstein


o medo ao medo ao cão as vísceras do cão
à luz as criaturas da luz e à terra os vermes
nematelmintas

cada coisa no seu lugar como dizia a dona Isménia
-e até os nomes há que vigiar
pois na escrita pública espreita sempre um louco
acreditando
que no fundo de si
no fundo perturbado de si
há uma Isménia e alguém que lhe escreve

Cada coisa no seu lugar

a dona Isménia

que a partir do terceiro ano de magistério acreditou
literalmente
no Juízo Final em todas as praças do Mundo
à mesma hora da noite e na Portagem de Coimbra
com as almas a subir como os foguetes da Rainha Santa

A doença de se julgar Isménia
talvez enlouqueça os leitores de romances
minha avó acreditando que Max du Veuzit
a quem escrevera secretamente
lhe devolvia a carta em livros como La Jeanette
ou La misterieuse inconnue

O que nos perturba são as coisas fora do lugar
O navio dentro da cidade grande título de infância
o feto na trompa o convívio das gerações
o beijo no canto da boca
o cardeal no casino o teratoma no ovário
com ossos dentes e faneros

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02 julho 2008

O barulho de noite

Acorda. É de noite. O pino da noite, a noite a prumo, a hora em que caçam as corujas, os homens velhos se levantam para mijar e escrever poemas, Elisabeth Costello adormece, sem afecto, sobre a mesa de Rayment. Ouve um barulho na noite da cidade. De vez em quando passa um carro e, embora seja Verão, é como se arrastasse a água das sarjetas. Mas há outro barulho. Que se torna distinto depois do carro passar. Um barulho mecânico, pulsado. Muito próximo, pode ser o sangue latejando nas têmporas. A harpa insuportável. A revolta doméstica dos aparelhos de cozinha, como nos contos infantis. Pode ser longe. Um ruído de soma. O sono das mulheres e dos homens nas suas camas. Um milhão de vezes a corrente de ar na árvore dos peitos, dezasseis a sessenta vezes por minuto. Adormece.

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06 janeiro 2008

Alguns Livros de 2007 ( que não li): J.M.Coetzee




J.M. Coetzee. Depois de Disgrace, que copiei para este blog no seu primeiro ano de existência, Coetzee é o meu escritor preferido. Gosto da secura, do despojamento, da solidão, do perigo que se aproxima e se instala sem se conseguir nomear, da aproximação aos grandes escritores russos, nos temas e no estilo. Aprendi com ele a vertigem de Elisabeth Costello, e passei, nos momentos de lucidez em que me afasto da minha limitada visão especista, a ver a Terra como um grande matadouro, onde a espécie triunfante criou espaços concentracionários de aniquilação em massa destinados a espécies, inicialmente domesticadas e depois condenadas a um cativeiro inenarrável.
De Coetzee surgiu este ano a tradução de Vida e Tempos de Michael K., de 1983. Infelizmente não se traduziu Slow Man, de 2004, nem Diary of a Bad Year, de 2007, apesar dos temas deste último serem incontornáveis (o mundo depois de Bush, Tony Blair e a invasão do Iraque, para resumir mal).
Ficam assim por conhecer, além da mais recente produção ficcional, os dois excelentes tomos de memória ficcionada juvenil e do início da idade adulta- Boyhood: scenes of provincial life e Youth: scenes of provincial life II (traduzidos no Brasil)- bem como a extensa obra de crítica e ensaio (reunida em White Writing, Doubling the point, Stanger Shores e Inner Workings).

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