14 maio 2010

Mulher na Linha 4




O meu pai ouvia no tempo
das cerejas uma canção que assegurava ser
a mulher o futuro do homem
foi das figuras de estilo que demorei
mais tempo a perceber
de facto o presente do homem que eu viria a ser
já era a mulher do eléctrico quatro e depois
toda a vida
a mulher foi o meu presente
e o meu futuro a mulher do eléctrico
anti-musa guerreira ginasta
compassiva a mulher da linha quatro
de período esquisito
sábia criança à medida que os anos
passavam de pele tão nívea
acampada na casa em ruínas curando
as feridas .

Vivi ao ritmo da respiração dessa mulher
com medo de me afastar desse compasso
de dezasseis
assustado com as pausas e excitado
com as acelerações.
Essa mulher ensinou-me a falar
física prodigiosa .
Quase todas as palavras que agora me faltam
aprendi-as
com ela balbuciando sem saber
bem as coisas designadas
e também os sinais de transito
entre as palavras o assombroso sinal
que manda parar e esperar
a palavra que vem.

Mulher da linha quatro que me deste
este futuro radioso espalharás
as minhas cinzas quentes.

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14 abril 2009

Contracção do pib


August Sander

Que me lembre só tive na vida sonhos eróticos com o J. e uma vez, imagina, com o Vitor Constâncio. De modo que vê-lo agora , ao Constâncio claro, falar da contracção do pib tem um suplemento sexy que a própria expressão não esconde. A economia tem destas sensualidades escondidas. “Contracção do pib” é hardcore tens que concordar…

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17 maio 2008

Uma fonte



Um patio de adobe, uma sombra, um poc,o de agua fresca. Foi assim, diz a Blue, que o Pedro a viu. Para mim ela ee uma flor urbana. Como um livro, um roman-fleuve, ou Um Homem sem Qualidades deste tempo que vivemos e que ee o tempo que vai entre o fim das grandes narrativas e o comec,o nao se sabe de quee. Nao bem um livro. Algo que estaa antes e depois de um livro inesgotavel e que ee a materia dos livros e dos sonhos, das emoc,oes, dos acordos e das discordias, das grandes complicac,oes, como dizia aquela frase esquecida num patio de Berlim. Mais do que um poc,o no deserto, acho que ela ee uma fonte de um jardim da cidade, de onde jorra, com debito variavel, uma agua que nunca seraa da Companhia.

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29 outubro 2007

Filmes menores com Michelle Pfeiffer


Sam Taylor Wood, Pietá, 2001


Percebi agora que não percebi nunca nada e, neste mesmo acto, percebi então o quanto percebi bem as coisas. Não percebia nada porque estava aluada. Estive sempre ao lado, aluada, enquanto a vida passava. Estava ali e via muitas coisas que os outros não viam, mas estive sempre ao lado, aluada e concentrada na minha lua privada a julgar que a minha era a mesma de todos os outros.
Nunca pensei muito nisto, mas acho que pairava na vaga convicção de que eu e os outros pisávamos a mesma lua. Éramos seres transparentes com algumas dificuldades de comunicação. Era apenas uma questão de intrincada sintonização de rádios sob tempestade próxima. Como radioamadores sempre agarrados ao microfone e ao sintonizador, inconformados com a falta de contacto, numa teimosa perseguição do sinal do sinal, sempre na esperança de que o sinal crescesse e se tornasse sólido, incansáveis nessa busca de um sinal mais forte, jogando com todas as posições de todas as antenas feitas de todos os arames.
Estive aluada e concentrada na minha lua privada a julgar que era a mesma dos outros todos. Estive aluada e não vi os homens que me amavam a tempo de lhes estender a mão, estive aluada e tentava agarrar homens que estavam noutros planetas sem eu saber porque desconhecia que falava e amava a partir de tão longe, a partir da minha lua privada e inabitável. Estive aluada e não vi o meu filho a ficar mais aluado ainda do que eu. Estive aluada e sei que vou continuar assim apesar de dar conta de tudo o que existe nas pessoas. Só que não é a realidade delas. É a minha lua a incidir parcialmente nalguma fracção delas. Nada é totalmente verdade e nada é totalmente falso. Apenas uma lua minha a que ninguém tem acesso. Julgava eu que estava povoada e ciclicamente olho à volta e verifico que não há ninguém. Mas por momentos houve, tenho quase a certeza de que houve gente por aqui, embora agora não haja rasto de ser vivo. Como o principezinho a tentar manter viva a flor numa redoma inútil, uma única flor condenada ao extermínio pela tristeza num planeta deserto e hostil.
Talvez tenha, como o pai dele, de entrar no avião que desaparece no nevoeiro pacífico como algodão doce.
Talvez no lado de lá viva a onda hertziana que permite mensagens de longa distância. Até agora, demasiada chuva sideral, demasiada perfeição para tão pouco que dizer.

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16 outubro 2007

Publicar Mensagem


Sam Taylor Wood

Sou o Lacaio pressuroso, o que caminha ao lado, numa alucinação extra-câmpica, o que insiste na tradição nova, um filme crepuscular de Resnais, um cenário de Sintra com um cisne que vôa rente às águas. Uma estação do ramal do Tua onde uma rapariga que julga que vai ser célebre se despede da família. Uma mulher a dias. O homem que lava os vidros partidos do hospital. Um trilho na serra ardida. Uma coisa de nada, uma insignificância, uma mancha que sai com skipo. Um pedaço de cinzas por espalhar, uma T shirt velha com a cara estampada de um cão triste. Um pin que diz fuck the fuckin'fuck, uma pulseira de tornozelo, um broche.

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12 outubro 2007

NA TRANSTORNÂNCIA....

Na transtornãncia impiala da firmusa
onde tão sulca de aridentes vem
a lúpida virónia damitem
que à fura imerna talifera e gusa,

alumibate a sintoscura etrusa.
Etrusa e tantimorta. E noctibem.
Como doriga e desinada quem
turidonada aflia a solidusa.

Regredassara detimura antrô-
temáqua adira apira escamivorta:
adominata incesca viridou
muldina igura talimen sigorta.

Nantida imbiva. Na primara andiata
e na danfia atedimasta aflata.


1961.
Jorge de Sena

sent by rosaarosa
imagem de YBAs

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Lá estaremos



1º Encontro Insatisfação, Vazio Mental e Mal Estar

9 e 10 de Novembro de 2007

Auditório do Instituto da Juventude de Coimbra

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