16 março 2007

Isto é um homem

Vivia com a mulher e com três adolescentes. Um era seu filho, embora ele fosse infértil. A mulher era uma boa mãe e boa madrasta, disse uma vizinha. Ela queria muito ter um filho dele. Simulou uma gravidez. Durante trinta e tal semanas. Ele não deu conta. Ela teve uma criança. Não foi parto normal. Entrou numa maternidade e raptou um recém-nascido. Ele não deu conta. O bebé cresceu. Teve cólicas, febre, a roupa deixou de servir, sorriu, galreou, segurou a cabeça, começou a comer, sentou-se sem apoio, gatinhou, caiu da cama, nasceu um dente. Parecia-se com quem? Estendeu os braços, pediu colo, chorou de noite, tossiu, disse papa. Teve prendas no Natal, festa de anos. O que é que o homem fez durante esse tempo. Fazia pesquisas na net. Gostava especialmente do site da PJ. Parece que há um site da PJ na net. Quando viu as imagens da suspeita do rapto da Maternidade reconheceu a mulher. Denunciou-a. Quando se confirmou que a mulher era a raptora, ele expulsou-a de casa. Isto é um homem.

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14 março 2007

A diferença entre Joana a.k.a. Andreia, Esmeralda e o Rodrigo

Eduardo Pitta interroga-se sobre esta questão. A SIC fê-lo logo no primeiro dia, convidando Seabra Diniz, psiquiatra, para comentar o tema. Quando ele abordou a questão da defesa dos interesses da criança e falou de necessidade de transição entre as duas famílias, o pivot, um Rodrigo ultramontano, indignou-se:
- Estamos a falar de um crime. A sociedade não pode dar um sinal desses - ameaçou.
E o psiquiatra encolheu-se. A exposição indecorosa da vizinha a chorar ao telemóvel a pedido da jornalista, dos miúdos que brincam em cima das pipas de vinho, do povo de Lousada contente por disputar as páginas da Caras, valia mais que uma informação séria que possibilitasse uma reflexão sobre os motivos do rapto, a psicopatologia do casamento e, colateralmente, o desenvolvimento da criança e o corte provocado pelo afastamento, aos treze meses, da mãe de vinculação.
- A criança ainda nem fala- outra vez o Rodrigo matarruano, presunto pai de crianças que tiveram treze meses.
A criança ainda não fala e vocês falam. Se falasse, não a ouviam. Se a ouvissem, não a percebiam. É a diferença. A grande diferença.

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Efeito Gatos Fedorentos vs Realidade

Há tempos, no excelente Escaparate que o TAGV insiste em oferecer nas primeiras segundas de cada mês, Luís Quintais apresentou o Antropólogo Inocente, o livro notável de Nigel Barley, publicado entre nós pela Fenda e fez uma interessante divagação sobre a forma como os povos primitivos estudados , no caso o povo dowayo, uma tribo dos Camarões, modificam o seu comportamento de acordo com as noções estereotipadas dos interlocutores europeus. A televisão produz o mesmo efeito nas civilizações de Lousada e Cernadelo. É o fenómeno a que poderíamos chamar de Gatos Fedorentos vs Realidade. A Realidade é muito pior que os Gatos Fedorentos. A Realidade imita os Gatos Fedorentos, acentuando os traços caricaturais. Se esperamos que os camponeses de Cernadelo sejam excluídos da saúde dentária, eles escancaram uma boca desdentada. Se os imaginamos supersticiosos, eles apressam-se a declarar que vão pagar uma promessa ao Santinho de Beire. Como o terrorismo após as Torres Gémeas e o 11 de Março, o próximo atentado tem de ser mais mortal. Assim os populares exibem para as câmaras um excesso de si próprios, da sua irrisão. A jornalista selecciona os piores. E o dia seguinte é sempre mais aterrador.


O antropólogo inocente / Nigel Barley, trad. de Virgilio Tenreiro Viseu . - Lisboa : Fenda, 2006

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09 março 2007

Quarta à noite


Guerrilla Girls



Cem pessoas na sala e entre elas quatro mulheres lindas. Não precisava de procurar. Nem de usar o radar escrutinador que herdei com os outros sapiens sapiens. Estava com elas. Quatro mulheres lindíssimas na sala e eu estava com elas. Uma deixou cair a pregadeira e eu ajoelhei. A outra vigiei-a, e era sempre a sombra que encontrava, da rua até à sala, e de todas as vezes a sombra me doía. A terceira estava encharcada em oxitocina e escorria-lhe da boca a baba maternal.
A última era a primeira.

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