08 abril 2009

Um texto que muda a vida


August Sander | Blinde Kinder beim Unterricht, um 1930

(...) A miúda estava sentada na mesma mesa e quando chegou a vez dela disse que um texto lhe mudara a vida. O texto era de Robert Fisk, jornalista inglês mas não ao serviço de Sua Majestade, que no Afeganistão fora apanhado por afegãos durante a invasão americana punitiva do 11-S. Fisk, sovado quase até à morte, terá escrito compreender que naqueles dias qualquer afegão matasse qualquer ocidental. A miúda, habituada a filmes de terror e a quem as Torres Gémeas soubera a pouco, achou que aquela enormidade lhe iluminara a vida e desde aí parece falar a essa luz.
A própria frase”um texto que mudou a minha vida” é assustadora. Pode a vida mudar? Pode um texto mudar uma vida? Como era a vida que umas palavras mudam? Como é agora a vida que assim mudou? Ouço sempre estas revelações com grande incomodidade e a sensação de estar a assistir a um transe a ouvir o que não devia ou a atentar contra o pudor de alguém. E também com uma sensação de culpa. A jovem a quem foi feita tamanha revelação, agita-a contra mim, como marca de uma superioridade. Porque eu que não li o texto, que não mereci a graça, continuo em pecado. Eu não mudei a minha vida. Estou ali, mais uma vez me foi contada a verdade sobre a minha existência culposa e persisto na cegueira. Sou mais uma vez o que não quer ver, o pior dos cegos, como dizia o padre da minha juventude na prédica com que obliquamente me fulminava nas aulas de Religião e Moral.

Etiquetas: ,

11 abril 2008

Mártires de Potosi



Há uma semana apenas foi areado e em cima do tampo da cómoda de mármore negro substituíu a lanterna árabe que parecia uma arma de arremesso ao lado de dois humildes mártires sem atributos debaixo da Virgem do Cerro senhora de Potosi.

Hoje parece que esteve sempre ali o samovar de prata. A lanterna árabe nunca existiu. O samovar de prata no mesmo lugar de sempre a mesma cómoda a mesma jarra a mesma sala os peixes no cativeiro a mesma água o samovar de prata.

Agora alguém tira o samovar de prata e repõe a lanterna árabe. O samovar de prata nunca existiu. Hoje parece que esteve sempre ali no mesmo lugar de sempre a mesma cómoda a mesma jarra a mesma sala os peixes no cativeiro a mesma água a lanterna árabe debaixo da Virgem do Cerro senhora de Potosi

Pequenos objectos através dos quais se escreve a nossa vida. Agora o samovar de prata ontem a bola de arremesso escamas que se servem aos peixes de água fria em pequenas quantidades que possam ser comidas em poucos minutos sob o olhar das duas humildes imagens sem atributos e da Virgem do Cerro mártires de Potosi

Etiquetas:

27 janeiro 2008

Tiveste muita sorte



Namorei-a três dias. Ao terceiro dia disse-lhe: - Não tenho jeito para namorar - namorava-a há três dias, dez minutos por dia, se tanto - não tenho jeito para isto. E era verdade. Antes dela só conheci uma mulher. A Carina Olson, sabe quem é a Carina Olson? Nem eu, mas foi a mulher da minha vida durante sete meses. Estava num calendário de parede, na lavandaria, quando lá cheguei. Eu era responsável por aquela roupa toda. Lençóis como este, toalhas, fronhas de almofadas. Treze toneladas de roupa de Santa Maria. Todos os dias. Uma tonelada da Estefânia. Três toneladas do Curry Cabral, cheias de sangue e supuração. Dezassete toneladas de roupa por dia. Lavada, enxuta e passada a ferro em menos de uma hora. Uma bata como a sua traz um litro de água à saída do túnel da máquina de lavar. Demora cinco segundos até ficar enxuta, engomada e dobrada. Um espanto, não é? E durante esses meses, na lavandaria, a controlar aquele espanto, sabe quem é que lá estava? Eu e a Carina Olson. Se eu adoecesse nessa altura, ou tivesse um acidente grave, daqueles que atiram um homem para a escuridão, quem viria comigo havia de ser a Carina Olson. Não havia outra até ao dia em que conheci a minha mulher. Trabalhava numa copa, levava comida aos doentes de Oncologia. Namorámos os tais três dias, como lhe disse. E ao terceiro dia fui assim para ela: - Queres vir viver comigo? Respondeu-me: -Pode ser. Não tinha nenhum pertence, nem família, a minha mulher é órfã, e a roupa dela era a que trazia vestida. Eu comprei-lhe roupa, uma blusa, uma saia, meias e até roupa interior lhe comprei. Depois levei-a para casa e disse à minha mãe: - Esta é a minha mulher, vem viver connosco. Foi há oito anos. A minha mãe ainda agora diz:- Tiveste muita sorte, podia ter-te calhado uma ladra, um estupor, uma pega, sei lá. Mas é uma mulher como viu, cá está ela a telefonar, dê-me licença, ainda agora chegaste a casa e já me estás a telefonar, está bem, mulher, alma assustada, está bem, eu digo-lhe, ele está aqui ao meu lado, não percebo para que é que queres isso mas digo-lhe, adeus, anda, mulher, vai descansar agora que bem precisas.

Etiquetas:

30 julho 2007

Ingmar Bergman: um homem do Mal



Ingmar Bergman (1918-2007.
Bem nos dizia o coração tristonho desta tarde.
Morreu Bergman na ilha de Faro. O meu pai agradeceu-lhe pela Fonte da Virgem, pelo Sétimo Selo, por Mónica e o Desejo, por Persona. Eu agradeço-lhe isso tudo e o desamor da vida conjugal, da doença, da velhice, de um homem que caminha entre dois postes da ilha de Faro, como se caminha entre dois pontos dentro do inferno. Agradeço-lhe por Max von Sidow, por Woodie Allen, por Lars von Sidow,por Liv Ulmann e por Bibi Andersen.
Cumpriu o seu programa biológico, foi, até morrer, um homem atraente.
(frases soltas, na noite)

Etiquetas: ,