21 dezembro 2009

O gay egoísta


Sarah Moon


Para modernizar a agenda eleitoral, Sócrates, o pior dos farsantes, prometeu o fim da discriminação heterosexual no casamento e convidou um intelectual para o espectáculo. Há sempre um intelectual pronto para morder o isco. Um intelectual ou um operário, no tempo em que havia classe operária. Dizia-se então que não tinham consciência de classe ou que a tinham em excesso, consoante o prisma. Os intelectuais aderiram. Era a sua janela de oportunidade. Como se o engenheiro do Fundão pudesse abrir janelas que não dessem para os pátios do costume: a esperteza, o negócio, a trapalhada, a conciliação sem princípios. Os gays prestaram-se à jogada do mestre beirão. Como as Isildas do costume e as sotainas de naftalina vieram a correr, houve almas distraídas que pensaram estar ali uma batalha ideológica, daquelas que une a esquerda, A Esquerda, esse guarda-chuva virtual que serve de abrigo a tanto malandro. Uma das revelações do ano foi ver a Unidade Simplex, com gente de bem a fazer a campanha do malandro e a perder a tramontana, como sucede nas acções prosélitas. Agora está tudo claro: os gays são iguais, mas diferentes. Para menos. Podem casar mas é-lhes vedada a adopção. Vão lá fazer as porcarias para longe das crianças. Fica assim consagrada a suspeição infamante de serem perigosos para o desenvolvimento da infância. É proibido votar outra coisa que não esta, decretou o chefe. Como se o esclarecimento se fizesse cedendo à ignorância e a justiça pactuasse com a discriminação. História triste. Uma lição para quem se mete com os capatazes da construção civil.

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14 setembro 2009

Homens


António Franco Alexandre

Não gosto deste homem. Devo dizer que gosto muito de mulheres e sempre apreciei homens. Embora às vezes me engane sobre os homens de quem as mulheres gostam. E sobretudo me engane sempre sobre o tipo de homens apreciado pelas mulheres de quem eu gosto. Aos 15 anos vi uma mulher que muito admirava nos braços de um belga. Ele perguntou-me as horas, sem despegar dos lábios dela, e eu arrumei-lhe com uma citação de um escritor francês da moda. Ela interrompeu um pouco a colação para me dizer, cúmplice e meia chateada: - Não te esforces que este não dá mais do que isto.
Isto eram os teus lábios, Manuela. Os teus lábios que eu não ousava sequer desejar porque estavas a verde no Quadro de Honra.
Este assombro perante as escolhas das mulheres marcou o Verão dos meus 15 anos e a minha vida em geral. Se elogio um homem, as minhas amigas concordam com reserva. Mas excitam-se sempre com aqueles tipos que trazem um letreiro a dizer perigo, pendurado nas patilhas desenhadas.
Desde cedo percebi que o comum das pessoas achava estranho, ou suspeito, que eu apreciasse homens. Para mim sempre foi natural como ter opiniões estéticas ou políticas. No código viril dos meus amigos, como nas normas de cortesia das famílias, gostos não se discutem. Sempre apreciei uma boa discussão.
Gosto de homens como o Nicholas Cage de Wild at Heart, ou do William Hurt do Turista Acidental, ou do Joaquin Phenix de Dois Amores, ou do Brendan Gleeson de In Bruges, ou do António Franco Alexandre quando escreveu Moradas 1 e2 e Oásis, ou do Manfred Eicher quando lançou as ECM New Séries, ou o Amis, o Kingsley em 1962, ou o James Stewart na Janela Indiscreta. Gosto do Jerónimo de Sousa, que tem uma cabeça como deve ser, no carro, a despedir-se do neto:
- Vai para dentro, não apanhes sol
e a dizer um verso de Neruda.
Não gosto deste tipo. Tem as calças justas em baixo e está bem calçado, os fatos são de bom corte. Mas é traído pelo nariz, pelo brilho cúpido dos olhos, pelo modo com junta as mãos e alisa o philtrum com os indicadores. Há uma boa maneira de conhecer uma pessoa. É quando está cansada e perdeu as defesas. Num destes dias ele deixou-se filmar na correnteza do Tejo, com uma Filomena ao largo a fazer-lhe perguntas profundas do tipo: - Já chorou?, quando chorou?, gosta de puésia? Ele estava lento, de meia guarda, absolutamente desinteressado dos presuntos encantos da Filomena. De repente teve um sinal de vida. Era um pescador que puxava um peixe. Mas logo caiu na modorra anterior. Não interessa se de poetas só lhe veio Camões, Pessoa e Cesário e não foi capaz de se lembrar de um filme sequer. Ali estava um homem absolutamente desinteressante.

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27 outubro 2007

Andrei Nekrasov


O momento grande da semana foi a presença de Andrei Nekrasov em Lisboa. O realizador russo esteve com a viúva de Alexander Litvinenko na apresentação do livro que relata a eliminação deste dissidente dos serviços secretos russos através de métodos que têm a assinatura do Kremlin. A sua presença coincidiu com a exibição de Rebellion no DocLisboa. O jornal Público entrevistou Nekrasov. A entrevista do realisador de S.Petersburgo e o texto que o director do jornal lhe dedicou são dois momentos que honram o jornalismo português. Uma volta pelos jornais pode dar a ver Sócrates e Pires de Lima enrubescidos da química que Putin lhes faz libertar, notícia de como algumas zonas de Lisboa viveram a "regra russa", a crónica do inenarrável Espada e a posição económica do PCP. Mas um jornal, o Público, lembrou Anna Politovskaya, os mortos de Tchechénia, o horrível assassinato de Litvinenko.

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19 agosto 2007

O primeiro vândalo



Entre as obras mais admiráveis da inteligência humana está a Wikipedia. Mas no seu êxito estão as suas fraquezas. O acesso livre permite que as entradas sejam alteradas. Esta semana a imprensa internacional (El País de 17 de Agosto, p. ex.) noticiou que, com origem no Vaticano e na CIA, foram modificadas as biografias de Gerry Adams e do presidente do Irão.
Ainda segundo El País, um estudante da Califórnia criou uma ferramenta que permite averiguar a partir de onde se realizam alterações nas páginas da Enciclopédia livre. Chama-se WikiScanner (wikiscanner.virgil.gr).
A alteração de conteúdos na Enciclopédia é justamente considerada um vandalismo.
O Zero de Conduta descreve o comportamento de alguns vândalos portugueses, bem como da atitude da imprensa e da TV.

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28 julho 2007

Alegre e o medo


Boltansky

A tentativa de desvalorização da declaração de Alegre sobre as liberdades é sintomática. Na blogosfera que percorro, quase ninguém aborda o tema sem o cuidado de se demarcar de Alegre e do alegrismo (seja lá isso o que for). Lembra o tempo das conotações que para os que não sabem foi o período entre os cartuxos e as cassetes. Alegre fez o que tinha a fazer. Citou Cesariny a propósito. Citar a propósito é uma virtude, para que os iconoclastas não surjam nas lapelas do poder. Alegre dirige-se para o PS? Pois é precisamente para aí que se deve dirigir. Disse pouco? Disse mais que os outros. Disse o que Martins, Belém, o boquinhas Vitorino, os históricos, o Arons, o Sérgio, o Costa, os cem deputados do PS, as bandeiras vivas da liberdade e os paus de bandeira têm calado.
Há medo. Medo nas repartições, medo nos jornais, medo nas ruas, medo na blogosfera. Alguém disse, justamente, que o programa político de destruição do Estado providência não se faria sem a destruição das liberdades. A criação de um clima intimidatório é necessária às reformas que se seguem: menos saúde, menos segurança social, menos apoio aos desprotegidos, mais empregos a 5 euros a hora, mais empregos de call-center, de semi-escravidão.
Júdice e outros teorizam sobre a extinção da direita partidária e, inacreditávelmente, Rui Tavares faz contas aritméticas para demonstrar a vitória da "esquerda". Mas escondem ou esquecem o que se mete pelos olhos dentro: O PS executa o programa da direita, o PS de Sócrates é a direita, com a máscara inefável da namorada, mas com a frieza, a arrogância, a determinação e a insensibilidade da direita.

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16 maio 2007

O que eu aprendo de manhã: os órgãos próprios do Partido



As questões da Câmara de Lisboa não se resolvem por carta. Resolvem-se nos órgãos próprios do partido.


(Sócrates, a propósito da carta de Helena Roseta. Na mesma peça da sic notícias Almeida Santos declarou, à entrada do Rato, que vinha dar um abraço a António Costa pelo grande amor que este demonstrara aos órgãos próprios do Partido.)

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