05 maio 2010

Le Rayon Vert



delphine - toi, tu ne fais pas confiance aux gens?
lena - moi, non. Je joue avec les gens.

Le Rayon Vert, Eric Rohmer, 1986


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26 novembro 2008

A rapariga, o beijo.


Eva Bosnyo


No princípio era um beijo. O primeiro beijo. No ginásio, na última fila do cinema, na escada do prédio. Foi preciso passar pelas graçolas dos rapazes, quase sempre boçais, a pele baça dos rapazes, a palidez, ou pior, o sebo à espera do acne, os cortes da gilete, os ridículos sms. Ele não merece. Nunca merece. Onde quer que uma rapariga beije um rapaz está uma criança a ser beijada por uma mulher. Uma criança blindada que quer experimentar, saber, coleccionar. Lábios em sangue contra lábios de cimento. A história começa mal.

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06 novembro 2008

Comprometidas



As mulheres comprometidas são mais lentas, mais pesadas. Riem menos. Sorriem, de olhos baixos, sobretudo para dentro do seu compromisso. Têm argola de comprometida, diferentes das alianças que depois hão-de esconder, entre outros anéis, num dedo curto. As mulheres comprometidas não têm pernas, e embora se decotem, é como se tivessem deixado as mamas no compromisso. As mulheres comprometidas estão quase grávidas do casalinho. Fazem imensos sacrifícios para estar perto do compromisso. Têm a cor baça da anemia, da urémia, mas nunca a esquecida cor da clorose. Ao contrário das lânguidas heroínas românticas, que emagreceram para caber no colo dos cavaleiros a vir, as mulheres comprometidas vão ter de tomar muito diurético para caber no vestidinho de noiva.

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11 janeiro 2008

Sabão de Marselha


Sam Taylor Wood



A mulher que conheci em
Villeneuve lez Avignon
e que cuidava do pombal da terra
A que fazia as limpezas no Priorado
e às sextas de manhã nas feiras
vendia facas Laguiolle
A que não atravessa o rio Ródano
sem dizer uma frase em Provençal
que quer dizer deus me guarde
dos assaltantes
da inveja e dos marinheiros
que sobem o rio Ródano
A que me trouxe o corpo alvoroçado
Fui perdê-la à costa
no cinema das Arcadas

Não se lava uma mulher do interior
com sabão de Marselha

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25 novembro 2007

Aviso

As mulheres do Leblon caçam intelectuais com a tesão do Houaiss.

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14 novembro 2007

// Received by mail

Abri o e-mail pela segunda vez e fugiram-me os olhos para os Links Patrocinados ali à direita: Deus Ama Você, Edite o seu Livro, Piso radiante Eléctrico, Clube Amizade, Namoro em Portugal. Que saudades de uma boa escrita automática.

Abri o e-mail pela primeira vez através do telemóvel, onde só consegui ler que

"Não abria o gmail há semanas e ao princípio não estava a reparar, não vi, vi mas não liguei, lá cliquei desinteressado, e agora estou a tentar perceber mas..."

E pensei que esquisito, usa reticências. Agora penso que esquisito, escreve tanto.

L.

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11 novembro 2007

O gourmet do Corte Ingles


Alextimia, Paula Gaetano


A mulher no gourmet do Corte Inglês procura

Peperoncino tritato picante

quando se cruza com o homem alto. Desvia o olhar, concentra-se nas especiarias, estende a mão para um frasco de 50 cl de azeite Noval que volta a pousar com brusquidão quando lê

Azeite
Virgem Extra


e pensa que o homem pode estar suficientemente perto para apreciar uma escolha tão vulgar. O gourmet do Corte Inglês é pequeno e os corredores de circulação propiciam múltiplos cruzamentos. Ela ficou sempre perto dele, o suficiente para perceber que o homem é muito alto, seco, tem um fato azul de bom corte. Não se lembra agora dos sapatos mas de certeza que na altura viu. Embora gostem de falar nas mãos e no rosto, é, depois das nádegas, o segundo sítio para onde as mulheres olham sem ver, em todo o lado e também no gourmet do Corte Inglês. Depois o homem escolheu

penne all’Arrabbiata

e a mulher sentiu as pernas a tremer. E continuou a segui-lo discretamente, perfeito na sua deambulação, enchendo o pequeno cesto preto com

Cogumelos porcini secos

Pimentón Dulce da Carmencita

Maccheroni de Toscana de Martelli


emocionando-se em cada passagem, como numa desgarrada de gaúchos. Perto da caixa, o homem retirou dois chocolates artesanais de

Cacau de S.Tomé e Príncipe

um para a namorada e e outro para a mãe, pensou ela, os melhores chocolates do mundo, embalados num rectângulo preto mate, liso, sem nenhuma inscrição excepto a que numa banda rosa atesta a longínqua proveniência.
A argentina Paula Gaetano criou um robô táctil. Sua, quando se toca. As mulheres do gourmet do Corte Inglês, se lhes tocam muito, rebentam em lágrimas.

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07 agosto 2007

06 junho 2007

GOSTO DE TI em Caps Lock

Perguntei-lhe se gostava de mim. Ele respondeu que sim. Eu acredito porque foi em Caps Lock.

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05 junho 2007

Ciclo vicioso


Thomas Ruff

- Depois de uma experiência erótica não consumada eles estão agora a ensaiar uma experiência erótica não consumida.
- Como é isso?- perguntou a minha explicadora.
- Assim uma curtição sem complexo de culpa- precisei.
- Já tive, em tempos, esse conceito e prática de amizade erótica - disse ela. - Mas poucas vezes resulta. Ou acaba em paixão ou em falta de tesão.

com rosaarosa

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09 abril 2007

Educação sentimental


Maggie Taylor

Os que pensam que amor a tudo sobrevive, experimentem com roquefort (estragado). Experimentem na terra que não vou nomear, na sala do fundo do restaurante, entre famílias silenciosas e sopas de um peixe morto. Experimentem com romeo e julieta, mas em folhas enroladas das antilhas. Experimentem com uma calva eminente, um gosto exagerado pela sociobiologia, agora embrulhada em John Gray.

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02 abril 2007

Rapazes, alguma reserva


(Maggie Taylor)

No início deste blog esforcei-me por dar alguns conselhos a uns rapazes. Eles não ouviram. Os rapazes lêem pouco, mais coisas técnicas ou de desporto. Os posts, modestos mas sinceros, foram ter a outros destinatários. Sem querer, dei informação excessiva a quem dela não necessitava. É sempre assim. Quase sempre. As mulheres da classe alta entopem as consultas chequeando maminhas e úteros e as necessitadas nem conhecem risco nem vacinas. Era costume, nas famílias, as raparigas receberem, das mães e das mulheres mais velhas, algumas instrução preparatória: sobre a linguagem, as maneiras, fingimentos. As meninas deviam disfarçar os sentimentos. A razão principal para isso acontecer é que nem todos os que nos rodeiam são escuteiros ou militantes da Ajuda de Berço. A segunda razão é que existe uma certa distância entre o que se diz e o que se quer dizer. A terceira é que nem sempre sabemos o que sentimos. Se as mulheres fossem transparentes os homens podiam ser todos autistas. Fingimos todos e as mulheres melhor, com mais elegância, mais sentido estético. Quando deixamos de o fazer somos patéticos. Internam-nos, medicam-nos, evitam-nos. Vem isto a propósito da educação sentimental. Ninguém deu aos rapazes os rudimentos da educação sentimental. Vejo-os muito desprotegidos. O que escrevi sobre Roberto aconteceu-lhe mesmo. E não foi a primeira vez que lhe aconteceu. Gosto mais de Violeta que de Roberto. Roberto nunca me lerá. Se alguma vez o fizesse queria dizer – lhe que as mulheres gostam de ser amadas com reserva.

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Roberto e Violeta


(Maggie Taylor)


Roberto não conseguiu logo olhar Violeta nos olhos. Nem em sítio nenhum do corpo dela. A raiz dos cabelos, a sombra da face, esse ponto perturbador que os Recém-nascidos olham, foi o mais que ele pôde.
Depois trocaram os telefones e à noite um sms equivoco. Ela andava entediada e foi respondendo. Ao fim de uma hora espantou-se com a velocidade com que a coisa andava. Tomaram café juntos, foram ao cinema. Ele gostou tanto dela que ora não dizia frases completas ora era excessivamente loquaz. Passou os sinais vermelhos, galgou passeios, raspou paredes, meteu mal a terceira. Cometeu, um a um, todos os erros. Falou-lhe da última namorada e do desgosto. Da mãe. Do emprego. Das suas novas responsabilidades. Um dia jantaram. À sobremesa Roberto sentiu-se na obrigação de beijar Violeta. Entusiasmou-se.
Era cedo, deviam conhecer-se melhor. (Violeta)
Era precisamente isso que ele queria, conhecê-la melhor. Na cama adorou-a. Violeta não precisava de tanto espalhafato. Pensava na senhora de baixo, de como a ia encarar nas escadas, a partir de agora. E na degola dos bezerros. Não queria ser amada assim, tanto. Despediu-o como as mulheres despedem os homens que não querem magoar, nem deles receber mais notícias nesta encarnação.

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