15 setembro 2010

Não te cales, Manuel



Sempre soubeste: a morte
Sempre sentiste: a morte.
As tabernas, fechadas, eram
apenas uma espécie de refrão.


Mas isso, terás de convir,
não desculpa o facto
de andares há vinte anos
a escrever o mesmo.

Faz como as tabernas: cala-te.


Tema sem variações
in A Nova Poesia Portuguesa, Manuel de Freitas

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20 maio 2010

Maria do Rosário Pedreira



Finalmente um blog da mulher que escreve como ninguém se atreve.
Há horas extraordinárias que valem 3 horas normais. Falo-vos do que sei.

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16 março 2010

Joaquim Manuel Magalhães



Há no trabalho poético mais recente de JMM (O Toldo Vermelho, Relógio D´Água) uma contradição insanável. Toda a destruição opera num objecto preexistente. Pode ser depurado. Pode ser reduzido à sua essência. Pode ser tomado como matéria, cal, argila, tinta, som, os neuromediadores mobilizados pelas áreas do cérebro onde se formam as palavras. Mas foram os budas das colinas a ser destruídos por talibans enlouquecidos. Antes dos Budas havia a colina. A destruição escolheu as estátuas. Perceber profundamente a destruição e o que dela resultou, pressupõe o conhecimento da coisa destruída. Ironicamente, o texto que se quer único, remete e recorda sem cessar o texto mutilado. Como o que resta. Mesmo que reste apenas a "pressão do prepúcio na glande".

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Luís Miguel Queirós

H.G. Cancela

Máscara & Chicote

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02 fevereiro 2010

Reclamação contra a preguiça



Dr. Gica



Há quem diga que somos um país de poetas porque somos um país de preguiçosos. Com gente tão sensível e verso livre, o género havia de florescer na Pátria. Há agora Fundações, com Júris e secretariado, para apreciar, estimular, premiar e divulgar os talentos. Como ler a produção poética de dez milhões de vates dá um trabalhão, estes jurados, compostos por poetas preguiçosos e ex-poetas preguiçosos, atribuem agora Prémios Carreira, Prémios Esforço de uma Vida, Prémios Consagração, Prémios Obra Global. Este Prémio Total não exige nada. Basta conhecer o autor, ter ouvido falar. Não é preciso, sequer, reconhecer-lhe um verso. Chega uma entrevista, uma intervenção nos Encontros dos Escritores, uma referência dum amigo, uma crítica no Expresso. Os jurados reúnem – uma reunião de preguiçosos, quase só coffe-break e almoço- o secretariado distribui umas notas e umas propostas , o Presidente – que teve previamente um almoço de trabalho com o Presidente da Fundação - faz a sua exposição, enche-se de paciência para ouvir os preguiçosos e, antes do almoço, faz sinal à Secretária de que pode fazer o press-release.

O habitat favorito dos escritores preguiçosos é a blogosfera. Podem escrever um post quando lhes apetece. A relação com os leitores é inexistente. Para comer não dependem do que escrevem, nem da opinião dos leitores. Como todos os preguiçosos, os escritores preguiçosos da blogosfera têm sempre imenso que fazer. A sua agenda extenuante não lhes dá tempo para esta futilidade, de escrever um poema preguiçoso para um leitor desconhecido. Os poetas preguiçosos são bissextos, são a cauda de um cometa de periodicidade variável.
Eu tenho a barra da direita cheio de links de gente preguiçosa, que um dia escreveu um poema e depois foi à vidinha. Deixam o blog pendurado dias a fio, como se uma folha que tem o seu nome e as palavras que um dia conseguiu juntar, não lhes criasse responsabilidades e não fosse uma preciosidade, a thing of beauty, uma alegria para a populaça leitora.

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23 novembro 2008

Um poeta do Mal: Luís Quintais

Leviatã

O universo terá começado
com um grito e tu vens agora
recolher o que desse grito
é vestígio: é tempo
de enunciar a movediça
explicação que ao desastre
nos conduz.
Nas nossas redes está o Leviatã
apodrecido.




In Mais Espesso Que A Água
Edições Cotovia,2008

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23 dezembro 2007

Herberto Hélder: Documentário na dois.


John Coplan

Sobre o maior poeta português mais ou menos vivo. O documentário organizou-se em torno do mistério do seu desaparecimento público desde 1969 e nisso se esgotou. Mais informação biográfica que literária. Alguns pormenores deliciosos, sobretudo de Luiz Pacheco (que sem dentes mas com legendas resulta muito mais inteligível). Os textos escolhidos foram lidos naquele declamatório romântico em que se perdem as palavras mas resiste alguma emoção. A música era fúnebre e os que chegaram perto do fim pensaram que Herberto Hélder, e Toda a Poesia, finalmente tinham morrido.

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13 setembro 2007



*patente na associação cultural Mercado Negro, em Aveiro, até 7 de Outubro.
3ª a Sábado: 13h - 00h
Domingo: 15h - 00h
R. João Mendonça, 17
3800-200 Aveiro

*Selecção dos poemas
Mercado Negro

*Design e ilustrações
Menina Limão

(com Little Black Spot e outros)

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24 maio 2007

Ao lado do homem vou crescendo





António, um menino com más companhias.

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18 março 2007

Desilusão

Comprei o décimo segundo livro do meu poeta favorito. Mas não tive o prazer habitual porque, justamente nessa ocasião, me apercebi de que ele deixara de ser o meu poeta favorito.

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04 março 2007

O ipsilon nao tem o Mil Folhas



A minha Mãe acha que o Mil Folhas acabou.
- O Mil Folhas acabou- diz ela.
- Está no ipsilone- tentamos convencê-la.
- Não, não está no ipsilõ. Acabou. Ficámos sem nenhum suplemento literário.
O jornal da minha Mãe é o Diario de Lisboa. Ela considera o Público, por alguma razão, o sucessor do Diario de Lisboa. Não é bem a mesma coisa. Os tempos mudaram. Os filhos também são diferentes dos que ela tinha no tempo do Diario de Lisboa. Mas são os filhos possíveis, na época em que o mais parecido com o Diario de Lisboa é um jornal que se chama Público, onde escrevem jornalistas de que ainda sabe o nome. Agora as coisas complicaram-se. Não se habitua a pedir o P ao jornaleiro. A verificar se o P2 vem inteiro no P. Se à sexta-feira o P tem o ípsilõ.
- O ípsilõ não tem o Mil Folhas. Se duvidam é porque não lêem- a minha Mãe, habituada a defender opiniões ligeiramente diferentes das nossas. E folheia à nossa frente, os Arcade Fire, o que é que isto me interessa, um casalinho que diz que a música deles é como a Bíblia, o Old Jerusalem, o groove, o Elvis no deserto. Até chegar à página 20, a primeira em que se fala de livros. E nem aí se alegra.
- Se o homem "tinha que fazer uma arte poética sexual" porque é que se deixa fotografar assim?


( As pgs 20 a 22 do ípsilon têm uma entrevista com Manuel da Silva Ramos. Duas fotografias. O texto, todo junto, cabe no relógio do poeta.)

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Um poema de Gastão Cruz: O fim do dia

cf. Blake, The Mental Traveller e The Sick Rose


Ouço morrer o dia uma voz reduzida
à penumbra do som outrora estrídulo
olhai-lhe o pénis hirto a mandíbula fria
Conta-lhe os nervos de ouro uma fêmea de fogo

que os numera e os ouve na escuridão tangível
e vive do seu frio do seu choro
e vai ficando jovem enquanto ele se extingue
Até que ele por fim é um jovem que sangra

e ela se transforma numa virgem magnífica
o som do dia morto agora já não o ouço
fundiu-lhe a noite já da voz as cordas de ouro
como o verme que rói a rosa e dela vive.

(Gastão Cruz, em Campânula, 1978)

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Dois Poemas de Blake

The Sick Rose



William Blake, Newton



O rose, thou art sick!
The invisible worm
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy,
And his dark secret love
Does thy life destroy.




Blake, Newton. Por Paolozzi, na British Library

The Mental Traveller





She binds iron thorns around his head,
She pierces both his hands & feet,
She cuts his heart out at his side
To make it feel both cold & heat.

Her fingers number every Nerve
Just as a Miser counts his gold,
She lives upon his shrieks & cries
And she grows young as he grows old.

Till he becomes a bleeding youth
And she becomes a Virgin bright,
Then he rends up his Manacles
And binds her down for his delight.

He plants himself in all her Nerves
Just as a Husbandman his mould,
And she becomes his dwelling place
And Garden fruitful seventy fold.

An aged Shadow soon he fades
Wandring round an Earthly Cot,
Full filled all with gems & gold
Which he by industry had got.

And these are the gems of the Human Soul
The rubies & pearls of a lovesick eye,
The countless gold of the akeing heart
The martyr's groan & the lover's sigh.

(excerto)

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03 março 2007

Antologia do Mal: Gastão Cruz

Nocturno de Earl’s Court




Sob as lívidas luzes de Earl’s Court
Road à chuva em geral fraca
a noite cegará os meus lábios cerrados
tornados transtornados
e o fumo dos
basements cobrirá as fachadas



em Transe, Relógio d'Água, 1992

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