31 agosto 2008

Os livros ardem




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30 agosto 2008

Mudou o paradigma. O sexo é chato


Allen Jones Table, 1969

Jemima Stehli Table, 1999


Li com atenção (mas sem qualquer emoção recreativa) o artigo de Isabel Coutinho no P2 do Público noticiando o colóquio da Culturgest sobre O Sexo na Cidade, As Novas Atracções ,Emoções, Afectos e Sex Toys. O comissário, Rui Trindade, explica que se trata de uma mudança de paradigma (Outra. Com tanta mudança de paradigma o paradigma anterior não chega a firmar-se). Nas palavras do comissário e de Feona Attwood, a sexualidade implantou-se no mainstream, instalou-se na cultura geral e oficial. Os convidados apresentarão a sua investigação sobre a história e decadência das sex shops francesas, a evolução da sexualidade feminina, as repercussões da mudança no casamento, as acompanhantes de luxo em Portugal e os seus clientes. Finalmente um investigador português irá falar sobre “ a questão da evolução da imagem da sexualidade feminina e do impacto que essa evolução da imagem teve na produção de brinquedos sexuais e tecnologias de género e de sexo” (sic).
Isabel Coutinho acaba garantindo que, durante dois dias, em Novembro, no Pequeno Auditório da Culturgest, o sexo estará em toda a parte. Se o colóquio estiver ao nível da apresentação o entusiasmo de Isabel Coutinho parece-me prematuro.O sexo parece ausente neste florido texto sobre o sexo. Sexo brocha como diria Rubem de Fonseca. O mainstream deserotizado a reflectir sobre a erotização do mainstream. Acho muito mais interessante saber onde se vendem os patinhos , como ser convidado para um Ann Summers Tupperware party, quais os planos de Jacqueline Gold para investir em Portugal, em que ginásio se emagrece com a dança do varão, a direcção da porteira que passa filmes na residência. Isso sim, seria serviço público à província. Já sobre o Escort, acompanhantes de luxo e clientes, estamos falados. Não percebemos o que tem isso a ver com o sexo brincadeira e a mudança do paradigma mas sabemos as dificuldades que envolvem a organização de um colóquio. Não é todos os dias que se consegue um palestrante chamado Anália. Eu nesses dias de Novembro, se precisar de sexo, vou a uma produção da Laurinda Alves. A Culturgest que se lixe. Que horror. Logo no Pequeno Auditório.

29 agosto 2008

Mikado Caioletto-Penela

27 agosto 2008

Onthophagus pentacanthus tripodae






Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Classe: Hexapoda
Ordem: Coleoptera
Subordem:Polyphaga
Família: Scarabaeidae
Género: Onthophagus
Espécie: Pentacanthus

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26 agosto 2008

Let me feel you moving like they do in Babylon

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Porque é dificil escrever em Agosto


Joseph Brodsky e Maria


Comecei por um livro de um homem sereno, Breviário Mediterrânico. Mas esse escrevera também o Epistolário Russo que encontrei a 3 Euros numa feira. A seguir li Koba the dread. E depois comprei e li Man is wolf to man e sem intervalos o livro de Eugénia Guinzburg.
Mandei vir o Gulag, uma história, de Anne Applebaum e outros que cresceram como uma arvore do mal e me taparam a minha musa, primeiro, o peixe no aquário, os bonsais e em breve tudo o resto
O mundo impassível, ignorante, pós- inocente. Ninguém quer ouvir as histórias desse tempo tão próximo. Os que ouvem, para me calar, falam da imensa crueldade do século XX. Os jovens de Praga 2009 não querem saber dos avós, que viveram com sofás coçados e pão racionado, nem dos pais, agora a comemorar sozinhos uma Primavera que acabou mal. Ninguém quer saber. Estou sentado à mesa. Há sempre comida a mais, sobra comida, comeu-se demais no mundo como dizia o pai de Luíza Neto Jorge. Não há conversa. Estas mulheres, estes homens não são meus pais nem meus filhos, não têm comigo nenhum dever de atenção, se falo não entendem, nem eu me esforço já. Se parassem de mastigar talvez vissem no fundo dos olhos da empregada eslava a imensa crueldade do século XX, as cidades destruídas da Alemanha, a nova geografia da Europa de Leste, depois da limpezas étnicas que varreram imperadores, burgueses, anarquistas, cinemas, cafés e sinagogas,e vissem os campos de trabalho no país aliado dos sovietes, e do lado de cá, ruidosa e fértil, a esperança sem sentido dos outros europeus, uma rosa doente.
Mastigo como eles. Comemos agora os peixes em extinção. É Verão. Abandonámos os animais, recolhidos pelos canis municipais. Vi como os cães incrédulos sobrelotam as celas. Os que chegaram há pouco agitam-se, impacientes. Os outros desistiram e já não comem. Os homens, as mulheres e as crianças que os abandonaram estão aqui, à mesa destes restaurantes, fotografam-se antes das sobremesas, fotografam-se com o chantilly, com o pudim abade de Lidl, com a mousse de manga. Estão nestas praias, festejam o quinto aniversário dos Morangos, é até onde vai a memória. Para trás ficaram 1 400 animais abandonados. Falo do Funchal. As crianças dizem segredos. Os homens exibem tatuagens. As mulheres engrandeceram os seios com o pudim. Depois vai ser reabsorvido e as mamas ficarão outra vez tristes. Mas será Inverno e antes do próximo Verão, antes de abandonarem outros animais adoptados, elas encherão os peitos, sem dor, com outro pudim entretanto aparecido, para a glória das praias e dos restaurantes

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25 agosto 2008

Dance me to your beauty with a burning violin

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24 agosto 2008

Lembranças de um amigo fotógrafo



cj, obrigado por te lembrares de me mim. Duas reflexões: a)um sapato de salto médio, apesar da presilha, vale bem duas havaianas;b) se o sapato fosse verde outra foto cantaria.

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Adeus Pequim, até Londres


Adeus Pequim, até Londres


Os Jogos Olímpicos acabam hoje. Um mega espectáculo bem organizado e simpático não fosse o caso de os ter visto em canais portugueses, com comentadores gagos, e o enviesamento obrigatório que nos faz preocupar com gente desconhecida como a Susana Feitor ou os gémeos da Maratona. Tivesse escolhido a Euro Sport e tudo teria corrido bem. Duas medalhas desportivas para um país como o nosso é mais do que seria de esperar, não andassem a insuflar o patriotismo com esperanças deslocadas da realidade. A China conseguiu os seus objectivos. O modo eficaz como organizou os Jogos e o espírito olímpico bastaram para calar os defensores dos direitos humanos e dos direitos nacionais do Tibete. Ficaram ao mesmo nível dos que contestam o desporto de alta competição. Uma coluna residual num jornal de referência em extinção.
A realidade dos Jogos apagou a realidade chinesa e até a realidade de Pequim. Os jornalistas mais interessantes que no início tentaram contextualizar, desapareceram. O povo queria circo e foi circo o que se lhe serviu. O circo era aliás tão imponente, global, envolvia tantos figurantes, que a desmistificação do circo era, à partida, um empreendimento quixotesco. Interromper o esforço e a graça dos atletas com comentários sobre a deslocação de milhares de chineses para a construção da nova Pequim, sobre as diferenças campo-cidade na nova China ou sobre os esquemas de treino da alta competição, os efeitos a curto e longo prazo na saúde dos atletas, seria deslocado e, para o comum dos espectadores, insuportável. Algo como uma homilia sobre os direitos dos animais na Praça de Touros, antes da corneta.
A cerimónia de abertura confirmou a China como uma grande potência normal . É escusado lembrar os Jogos Olímpicos de Berlim. Pequim sabia a lição. A coreografia imperial do século XXI é outra. As grandes massas em movimento falam da paz, libertam pombas, iludem a gravidade e caminham nos céus. E quem tem legitimidade para recordar o passado? Se o querem fazer lembrem-se do México de 1968, quando, dias antes da cerimónia inaugural, a polícia reprimiu uma manifestação, matando tantos que nunca foram contados.
O estádio de Herzog e de Meuron entusiasmou mas nunca se percebeu que a arquitectura fosse a multidão, e que, como os arquitectos afirmaram, as proporções pusessem em primeiro plano os espectadores.
Os arquitectos do bando do jet-lag, como os seus antecessores, cumpriram a encomenda do cliente: seduzir, impressionar e intimidar *. Para os milhões de espectadores de todo o mundo a China deixou de intimidar. O que vai acontecer nos próximos anos é, como sempre, imprevisível. Os Jogos Olimpicos fizeram ao povo chinês o que a Grande Guerra Patriótica fez aos povos da ex-União Soviética. Restituiu-lhe o orgulho e apaziguou-o com as lideranças.
O espectáculo vai continuar. Agora como comédia. A convocação do ex-futebolista David Beckham como ícone de Londres 2012 é significativa. Não se sabe ainda quem falará por Beckham mas a figura é impressionante: já não marca nem faz assistências, semeia em seu redor a anorexia, une o que há de pior entre os anglo-saxões.

*ver o extrordinário livro de Deyan Sudjic, The Edifice Complex, 2005

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Startracking


Justine Kurland


No dia 31 de Julho Cavaco interrompeu as férias e falou ao país. Parece que um certo país esteve todo o dia suspenso da comunicação de Cavaco. A comunicação, em pleno defeso político, incidiu sobre o estatuto autonómico dos Açores, uma transcendência. Os comentadores, e por arrasto algumas das suas vítimas, discutiram muito a oportunidade da coisa, já que na substância o homem parecia ter razão. Porquê aquele dia? Qualquer observador atento sabia porquê. Chamo observador atento àquele que lê as crónicas ou o blog de Laurinda Alves. Cavaco veio a Lisboa ao Startracking, uma reunião-comício da diáspora-chic e dos seus parvenus, com a presença de Durão Barroso, Laurinda Alves e os amigos. Agora, menos de um mês depois, Cavaco, fracturante, vetou a nova lei do divórcio. Nada que suscite espanto. Já na noite do Startracking os amigos e as amigas tinham tido esse sinal do PR. Sopra nas arenas uma brisa de verdade mesmo quando retiram os touros e os toureiros .

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20 agosto 2008

Ver ou ter à vista







para a Mina & João

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19 agosto 2008

Agradecimentos

A Rui Tavares. Pela crónica de ontem, na última página do Público (disponível aqui).
Meus e do Gustavo.

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A dobra do mundo


Bianca Brunner



Vi a dobra do mundo
Estava de costas
única posição por ora consentida
E com as mãos cruzadas segurava o peito
A cabeça caía para trás e ouvia
a cadência metálica do sangue
Quando vi a dobra do mundo
No horizonte
mas apesar de tudo distinta
e a cores
Um quarto de esfera azul debruado a ocre
Azul real (#4169E1)
e ocre (#CC7722)
Escrevo para que saibam
Porque cada um sente consoante
o seu equipamento
Sendo o meu agora tão diferente
frágil poderoso
apopléctico excessivo
Duvido que
àquela hora
outros tivessem visto
a dobra do mundo
assim

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17 agosto 2008

Todos os Poemas de Ruy Belo, ainda disponível.



A Poesia Completa de Ruy Belo, na edição da Assírio Alvim, está à venda na FNAC/Chiado e na Byblos, a preços promocionais, em fim de edição, e sem destaque.

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Maria Keil vandalizada no Metro de Lisboa






Vem contado no Cantigueiro e depois teve algum eco noutros blogs. Alguns dos painéis de Maria Keil nas estações mais antigas do Metro de Lisboa foram picados e destruídos sem que a autora disso fosse informada. Os advogados da Metro terão justificado a falta de informação e indemnização à autora com o facto de, à data da construção, Maria Keil não ter cobrado honorários.
A ser verdade, trata-se de um conjunto de atitudes insuportáveis. Os administradores da Metro, os responsáveis pela decisão e os advogados espertinhos deviam, fora das horas normais do seu labor, apanhar os cacos, restaurar os painéis e negociar com Maria Keil, ou com quem a represente- que eu não lidava directamente com gente desta- o destino dos painéis.
Até lá, que fique o nosso repúdio, ou que alguém faça chegar a Maria Keil o nosso desgosto.

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Berlim, Alemanha


Sophie Calle

Gosto de Paula Moura Pinheiro. Acho que ela é uma instituição cultural respeitável. Conduz um programa semanal onde aborda temas tão variados como a literatura e as artes performativas, sempre com os convidados apropriados. Este fim-de-semana PMP escrevia num jornal que Luanda é melhor do que Berlim. Eu não conheço Luanda. Nem tenciono conhecer. Mas Berlim, a actual Berlim, é uma das cidades mais fascinantes do mundo. Uma cidade democrática, onde se pode alugar um quarto num hotel decente, jantar num restaurante de estudantes em Mitte , tomar o pequeno almoço num café em Prenzlauer Berg. Uma cidade que guarda a memória da Berlim imperial, do nazismo, da guerra fria e do Muro. Onde se pode encontrar uma praça com o nome de Rosa Luxemburgo, uma avenida estalinista chamada Karl Marx Allee, um memorial do Holocausto, placas com os nomes dos campos de extermínio. Uma cidade viva, habitada pela gente jovem da Europa e do Mundo, mas com memória e convivendo com essa memória, por mais insuportavelmente dolorosa que ela possa ser. Comparar a capital da Alemanha de 2008 a Luanda é uma obscenidade, uma atoarda tropicalista, que ficaria bem a um Jorge Coelho inebriado pelos negócios africanos ou a um político interessado em ser incluído no inner-circle da corte angolana.

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13 agosto 2008

Foi pena


Van Niandong



Foi pena
que a nossa nadadora
-tão nova em Atenas!
não tivesse virado melhor
e ao menos
igualasse o record nacional
Foi pena
que o nosso judoca
se tivesse desconcentrado
justamente quando o polaco
lhe assentou os ombros no tapete
Foi pena
que o júri favorecesse
descaradamente a esgrimista chinesa
Foi pena
que a Debie tivesse cãibras
na prova decisiva
Foi pena
que o Pedro tivesse falhado a repescagem.
Mas agora eles vão para Cincinati
- tirando a Debie
que tem um merecido projecto pessoal
Para o Ohio
-tirando a nossa esgrimista
que vai abrir um negócio em Pequim
Para Vancouver
- tirando o judoca
a quem só faltam três cadeiras para o bacharelato
Vão treinar quatro anos
Em Londres é que vai ser

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12 agosto 2008

O tiro legal na nuca


Christine Whuang

Não vi o directo do BES aos tiros, mas li a reportagem do Expresso. Acho que o tema merecia debate e a blogosfera multímoda não esteve à altura dos seus pergaminhos. Alguns juristas reagiram emocionalmente, a maioria dos bloggers que leio ignorou o tema. Nos 5 dias de um tal RCP e na Aspirina B do inefável Valupi a pulsão atingiu a náusea. A discreta dissidência do Arrastão ia sendo linchada. A GL tentou pensar. Blasfémias pensou mesmo e o post de jpt, como disse o Lutz, merece ser lido. O post e a discussão com o Paulo Querido, nos comentários. A discussão desvia-se para a oportunidade e a ética do directo. O Eduardo, Àgrafo, escreveu em tempo real. Ler o post do Eduardo liberta-nos do pequeno mundo vingativo e claustrofóbico, xenófobo e securitário, violento, violento.

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11 agosto 2008

Os diários de Orwell



Começou no dia 9, como anunciado, o blog de George Orwell. O blog reproduz as entradas de um diário que Orwell escreveu há exactamente 70 anos. É editado pelo Orwell Prize. A ideia já fora posta em prática com muito êxito com The Diary of Samuel Pepys.

Tenho lido com atenção e prazer. Nenhum faz qualquer alusão directa ao colunista Miguel Sousa Tavares #.

#Que escreveu: A quem possa interessar: há para aí um blogue cujo autor garante ser eu próprio. Não é: como já aqui expliquei, não faço, não alimento e não leio blogues. Terão, certamente, muitas vantagens e utilidades, mas eu não me habituo a viver em territórios onde vivem o anonimato, a calúnia, a usurpação de autorias e a impunidade.
A quem mais possa interessar: vou de férias quatro semanas.

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A desconstrução do mito do bebé pós-ideológico




Os bem humorados posts que a Rititi tem dedicado à maternidade e ao processo de vinculação com o Rititi-boy mereceram à Cristina um aplauso antideterminista.
O que a narração da Rititi e o aplauso da Cristina parecem confirmar é , nas palavras de Slavoj Zizek, a forma como a ideologia funciona no nosso mundo pós-ideológico. A recusa dos papéis biológicos, vistos como uma execução degradante de processos sobredeterminados , transformou-os em papéis simbólicos. Mas mesmo o papel simbólico (neste caso da maternidade) só é aceitável, continua Slavoj Zizek, se for acompanhado por um fluxo constante de comentários irónicos e reflexivos denunciando a convenção estúpida da maternidade.
A Rititi é assim a Mãe-pós-ideológica que nos conta o conto de fadas da única forma possível (talento à parte) para quem desconstruiu o mito da maternidade. Boa sorte para o Rititi-boy, que precisa de mamar, mudar as fraldas e de um colo real.

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10 agosto 2008

O mundo segundo o embaixador



O embaixador José Cutileiro é um homem culto, bem informado e que escreve com elegância. Este sábado, no Expresso, assina um infeliz texto optimista onde assegura que o mundo nunca esteve tão bem e, contra os ambientalistas, declara a sua confiança nos políticos, negociantes e (alguns) cientistas. À hora em que o embaixador escrevia o seu panfleto panglossiano a Rússia entrava na Geórgia provocando centenas de mortes. A Rússia parece ter mantido, na nova ordem mundial, o direito de intervenção nas regiões do antigo Império sem que isso cause excessiva comoção.

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A única viúva do poeta


Georgina Starr


O que um poeta deixa, quando morre, são os seus poemas. Os poemas que escreveu e quis que fossem lidos. É essa a ligação que tem com os seus leitores passados e futuros. Os poetas viveram em caves e em sótãos ou em segundos andares dos arredores. Tiveram filhos e nem sempre foram mães ou pais exemplares. Beberam de mais. Foram invejosos, mesquinhas, medrosos. Se envelheceram aconteceu-lhes engordar, ficar com o cabelo ralo, gordura nas ancas, as mamas caídas. Nem sempre os poetas tiveram tempo para queimar as cartas, os bilhetes, os cadernos de apontamentos, os guardanapos de papel, as fotografias. Alguns morreram subitamente. Outros adoeceram e deixaram de se preocupar com a escrita. Se um poeta representa alguma coisa para nós devemos ler os poemas que ele escreveu. Ler silenciosamente. Ler alto, se os nossos amigos tiverem paciência para os nossos poetas e para a forma desajeitada como os lemos. Ou ouvir outros que os digam melhor. Ouvir Luís Miguel Cintra a dizer Ruy Belo, por exemplo.
O pior que pode acontecer a um poeta não é a morte. São os que virão para lhe escrever a biografia, ou pequenas reportagens biográficas. Os que, tendo-lhe talvez recusado uma edição em vida, publicarão o inédito póstumo. E entre todos os inimigos do poeta avulta a tenebrosa figura da viúva do poeta (não me recordo de nenhum viúvo de poeta; as minhas poetas, vivas, mortas ou desaparecidas parecem sempre estar sozinhas).
Um poeta escreveu no elogio da sua mulher
Mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva.
As que em vida foram as únicas viúvas do poeta continuarão assim. Detentoras do espólio, sabe-se lá o que podem fazer com ele. Receberão no peito a condecoração. Colaboração na edição ne varietur. Deixarão que se fotografe a máquina de escrever, as botas, a pasta. As viúvas literárias do poeta receberão da única viúva uma confidência, uma interpretação, a visão breve de uma fotografia.

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07 agosto 2008

Lembrem-me as portas (2)


Bianca Brunner




Lembrem-me as portas e as janelas abertas
os perfumes de que as raparigas guardam os nomes
a linha branca do amanhecer
atravessando os quartos
acordando o sexo os pulsos a voz
o suor nas ruas ninguém tem medo
dos fascistas nunca mais
ninguém tem medo da CIA do Carlucci
do cardeal Cerejeira do cónego Melo do general Spínola
no Rossio no Carmo ninguém tem medo

Quem tem casas vocábulos odes troncos
ramos braços searas está cego pela
trova quente agitando sobreiros e azinheiras
para os quartos as salas as persianas semicerradas
os sociais-fascistas o camarada Vasco
a praça do Giraldo no Toural
para o louva-a-deus no dorso do muro o silêncio
ou um grilo negro nas mãos
não vê quem lá dentro tem medo
quem tem?

Copiado de Blue

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04 agosto 2008

Alexander Soljenitsine



Morreu Alexander Soljenitsine. Em 1973 e 1974 a sua obra máxima, O Arquipélago Gulag, começava a ser traduzida e comentada no Ocidente. O Gulag, a história do terror metódico instaurado pelo comunismo soviético, a revolução em que mais de uma geração tinha depositado a esperança insana de uma nova humanidade, era descrito de maneira absoluta. O livro não era, no entanto, apenas uma denúncia, uma jogada política da guerra fria. Como se disse na época a grandeza de Soljenitsine residia no facto de que ele actuava como um despertador. Ainda o Holocausto não se tinha inscrito em toda a dimensão na consciência do Mundo e uma nova realidade despontava, impossível de desmentir: nos vencedores , numa das potências emergentes, aquela que tinha prometido construir o homem novo, corria um processo simétrico de humilhação, maldade e degradação humana. Depois da publicação do Arquipélago Gulag apenas a ignorância, o isolamento cultural e político, alguma circunstância que faz com que a história se desenvolva, em lugares periféricos, em contra-ciclo, sem que os actores envolvidos disso se apercebam, pôde impedir o isolamento da União Soviética e a exposição do comunismo soviético como fraude, criminoso embuste. O tempo passou. Um imenso manancial de informação ficou disponível sobre o Holocausto. As melhores consciências da Europa e do Mundo, denunciaram-no. O povo alemão erigiu, em Berlim, um Museu do Holocausto e um monumento que perpetua esse momento que é um vazio de horror e de espanto na nossa história contemporânea. Mas o Gulag continua desconhecido. Os principais escritores do Gulag, Soljenitsine incluído, são desconhecidos entre nós. Nas boutiques de livros o Arquipélago Gulag é desconhecido. Não estou seguro que ele tenha sido inteiramente editado em Portugal. Varlam Cholomov, Eugenia Guinzberg,o livro de Robert Conquest sobre o Grande Terror, Man is Wolf to Man de Janus Bardach e Kathleeen Gleeson e tantos outros, são desconhecidos aqui, onde não se detecta nenhum interesse no tema e o PC local cometeu a proeza de ousar, há uns anos e a pretexto de uma efeméride da II Guerra Mundial, reabilitar Estaline. E no entanto o Gulag não representou , em termos de sofrimento humano, menos que a barbárie nazi. O Gulag era o fim de um processo que se iniciava com a prisão, continuava com o interrogatório, o espancamento e a tortura sistemática e prolongada, continuava com a viagem e culminava no trabalho escravo no Arquipélago, tudo isto debaixo do pesado silêncio insolidário. O processo de reconstituição da sociedade russa, após a implosão do comunismo e na fase actual do capitalismo não deu tempo para que se formasse um processo colectivo semelhante ao que a Europa teve com a Shoah. É nosso dever civilizacional contrariar o esquecimento, lembrar as vítimas, todas as vítimas, sobretudo as que pereceram no silêncio, as que ficaram sem campa e sem nome. A minha dívida para com Soljenitsine não tem medida. Em Fevereiro de 1974 ele já tinha passado por todas as fases da via sacra do terror soviético, prisão, deportação, trabalhos forçados, residência forçada no Casaquistão , tinha havido a descompressão de Krutchev e depois o pesado retrocesso de Brejnev. Nessa altura, conta Martin Amis, “a Tcheka moscovita enviou a Soljenitsine uma convocatória. Ele devolveu o sobrescrito com uma declaração que começava:
Dentro das circunstâncias criadas pela universal e ininterrupta ilegalidade há muito reinante no nosso país…recuso-me a reconhecer a legalidade das vossas convocatórias e não me apresentarei para interrogatório em qualquer instância pública.
"
Foi este homem que agora desapareceu. Que o seu nome seja lembrado , de cada vez que alguém receba uma convocatória de uma polícia infame.

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01 agosto 2008

Aplauso prolongado e tempestuoso





Na conferência do Partido da Província de Moscovo, durante os anos do terror, um novo secretário tomou o lugar do velho secretário (que tinha sido preso). Os trabalhos encerraram-se com um tributo a Estaline. Toda a gente se pôs de pé a aplaudir; e ninguém se atrevia a parar. Na versão Soljenitsine desta famosa história, ao cabo de cinco minutos “os mais velhos arfavam de exaustão”. Ao fim de dez minutos:

Com falso entusiasmo nos rostos, olhando uns para os outros com débil esperança, os dirigentes distritais preparavam-se para continuar a aplaudir indefinidamente até caírem do sítio onde estavam, até serem levados para fora da sala de maca!

O primeiro a parar de aplaudir (o director de uma fábrica local) foi preso no dia seguinte e apanhou dez anos, por uma outra acusação.
(…)

(De Koba o Terrível, Martin Amis, Teorema, p154)

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Eugenia Ginzburg: uma mulher do Mal


Zhang Xiaogang


Eugenia Guinzburg já estava presa há dois anos quando foi transportada para Vladivostok, partilhando o “vagão 7” com outras setenta e seis. Numa estação nas imediações de Irkutsk foi embarcado mais um grupo de prisioneiras. Todas as mulheres do vagão 7 estavam meio mortas de fome e doença, mas algo na aparência física das recém-chegadas causou consternação: tinham-lhes rapado a cabeça. As recém-chegadas olhavam as nossas tranças e caracóis com invejosa admiração…”Amanhã podem fazer-nos o mesmo”. Passei os dedos pelo meu cabelo. Não isso é uma coisa a que não sobreviveria” Segue-se uma cena de comiseração apaixonada. Depois:
Do canto onde se tinham reunido, as marxistas ortodoxas( não cederam nem um centímetro às recém-chegadas) veio uma voz de desacordo:
-Não vos ocorreu que a ordem para vos raparem a cabeça pode ter tido razões de higiene?
As mulheres de Suzdal, que há muito tinham considerado essa possibilidade, rejeitaram-na unanimemente.
-…Não, não teve nada a ver com higiene, quiseram só humilhar-nos.
-Bem, cortar simplesmente o cabelo a uma pessoa não é um grande insulto. Era muito diferente nas prisões czaristas, onde rapavam somente metade da cabeça!
Isto foi além do que Tania Stankovskaia (que estava a morrer de escorbuto) podia suportar. Por milagre arranjou força para gritar tão alto que todo o vagão a ouviu:
- É assim mesmo meninas! Um voto de gratidão ao camarada Estaline…Já não nos rapam só uma metade da cabeça, rapam as duas. Obrigada, pai, guia, criador da nossa felicidade!”



Journey into the Whirlwind (Helen and Kurt Wolff Books)
de Eugenia Ginzburg

(citado por Martin Amis em Koba o Terrível,pp69-70, Teorema 2003)

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