29 novembro 2010

27 novembro 2010





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24 novembro 2010

Síndrome de Sansão



Os meninos não deixam cortar as unhas dos pés porque acreditam, no íntimo acreditam, que toda a força lhes vem das unhas dos dedos dos pés. Os dedos dos pés dos meninos não são os dedos dos pés dos adultos (portugueses). Se assim fosse teriam um nome próprio, como gardias ou formias, que quisesse dizer unhas, mas dos pés, dos dedos dos pés. Os meninos são fortes e sobem escadas e dão saltos mortais, vão mais depressa do que o som, correm como o cavalo das asas, leves, rápidos, cheios de energia. Num livro de conselhos aos pais, desses que sai grátis com o sabão da máquina ou com as fraldas, estava escrito, naquela linguagem insuportável do PsicoSá, que as unhas dos pés se cortam a direito, de preferência quando o bebé dorme. Para abreviar era isto que estava escrito. Assim o menino acordou quando a mãe lhe cortava os pés. Isto é os dedos dos pés. As unhas dos dedos dos pés. A direito, enquanto dormia.
O menino nunca mais dormiu e a mãe não percebe porquê.
Tive que lhe contar a história de Sansão e Dalila. Sansão era muito forte e tinha uma longa cabeleira como a do pai do menino. Toda a força lhe vinha dos cabelos longos. Dalila dormia com Sansão. Incapaz de vencer Sansão pela força, o Império seduziu Dalila com a promessa de um lugar na próxima longa metragem. E durante a noite Dalila cortou os longos cabelos do amante adormecido, assim lhe tirando a força e a graça.
Acho que percebeu. Ainda não encontrei nenhuma mulher que não percebesse a desgraça de Sansão. Mas continuam a cortar os pés das crianças, rente às unhas, na calada da noite.


(Para o Planeta Tangerina)

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22 novembro 2010

Palo Palo contra a economia de Estado



Uma rapariga e um rapaz na linha verde do metro de B. Inicialmente não se ouve o que dizem. Decidem sentar-se. Frente a frente, nos bancos laterais. Dois metros de distancia. Ele abre a revista que traz na mão: qualquer coisa como Harvad Economics Review. O primeiro artigo tem como título: Crise. Estado ou Mercado. O rapaz pergunta em voz alta: - Estado ou Mercado? Sim. Estado ou Mercado? A rapariga tinha entretanto pegado num canudo de plástico, um tubo largo que mal cabia na boca e entretinha-se a abocanhá-lo com técnica, sorvendo, entre xupas e lambidelas, um produto escorrente. O tubo dizia Palo Palo. Palo Palo contra a Harvard Review of Economics, estava a decorrer um embate. - Estado - repetia o rapaz. - Ou Mercado? - e a rapariga, arregalando os olhos, emitia um som entre o prazer do Palo Palo e a vergonha de não ser capaz de alinhar mais nenhuma ideia sobre o tema. - Mercado é coisa má. Mercado favorece os ricos mas é ruim para pobre. Sempre ele. E a rapariga huummm, huuummm, olhos arregalados e depois Palo Palo fora da boca, língua afiada de assentimento. E o rapaz insistente: - Além do mais tem o fetichismo da mercadoria. O fetichismo da mercadoria é o fenômeno social e psicológico onde as mercadorias aparentam ter uma vontade independente de seus produtores. Ela segurava na base do Palo Palo, um fole de plástico , e espremia-o no sentido do do cilindro oco, num gesto ritual, como os usuarios de Blackberry com seus polegares, ou os cultores de um gadget exibindo intimidade com o seu funcionamento ao nível mais avançado, ou os miúdos com o Nintendo 5, sensor de movimento, giroscopio, media player de filmes, música e fotos, além de todas os aplicativos e funcionalidades do dsi, e muitas melhorias e novidades,

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A sopa dos pobres no jardim do Carregal


Miquel Barceló



De manhã o telejornal: o Banco Alimentar bateu o máximo anterior na captura de caridade, o Cavaco diz que a ajuda aos desfavorecidos é a primeira prioridade e um padre sorridente assegura que 2 em cada 10 pedintes não come pelo menos um dia por semana. Vi a fila da sopa no jardim do Carregal e, na noite seguinte na Praça da Catalunha. E logo a seguir, com o mesmo ar de quem anuncia uma fatalidade metereológica, o locutor da manhã informa que a PT, o Jerónimo Martins e mais não sei quantos se aprestam a distribuir os dividendos de 2010 antes da alteração da carga fiscal. Quem é que vai lucrar com isto? Os accionistas da PT: Telefonica, BES, Grupo VisaBeira, Grupo Barclays, Norges Bank. Quem são os accionistas do BES? Telefonica, Ongoing, Grupo Barclays, Visabeira, NorgesBank. Outra vez: Telefonica, Barclays, Norges Bank.
Se um padre, um locutor, a dra Manuela, o Cavaco dissessem isto às pessoas, eis o que era uma grande caridade.

21 novembro 2010





Eu não estive na manifestação. Mas posso ter uma ideia aproximada do que se passou a partrir de três relatos: o ponto de vista da polícia, que Paulo Moura, acolitado pelo especialista americano em contagem de multidões, transmite no Público, a reportagem da sic e o texto de José Neves no Vias de Facto.Não estive na manifestação porque a minha forma física actual não recomenda ficar muito tempo com o joelho de um polícia nas costas. Depois porque não saberia onde me integrar: como é que se pode ter um pensamento original e participar numa manifestação que leva à frente o serviço de ordem do PC? Se estivesse nas margens escolheria o sector dito anarquista. As pessoas pareciam mais bonitas e a sua indignação mais genuína. Mas toda a multidão tem por detrás o seu maître a penser, o seu organizador, o que confere um sentido global ao conjunto de opiniões. E não poderia ficar um segundo como figurante da estratégia islamofila do Renato Teixeira.

Dito isto, importa considerar que a manifestação foi parte da encenação do Parque das Nações. O sistema político ocidental transporta ainda como reliquat estes epifenómenos, através dos quais se mostra uma esquerda moribunda, impotente, pavloviana que nem sequer o sistema político constitucional sabe utilizar (como sugere José Neves seria uma exigência prioritária levar o sinistro Anes ao Parlamento).
A gente comum, os europeus que dos escombros deste saldo hão-de construir ou não uma outra coisa, ficaram em casa, desviados por Sacavém.

*Sobre este tema veja-se também o interessante diálogo entre Zé Neves e Vítor Dias (lui-même) na caixa de comentários de Vias de Facto.

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18 novembro 2010

Ohne Titel 2010

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16 novembro 2010






Estou no meio de uma multidão. Sozinho, numa multidão de condenados que ignoram o seu destino. Tenho uma vantagem sobre os infelizes que vagueiam à minha volta. Sei que nos espera um desfecho de morte. Que entre a multidão há homens armados e preparados para uma chacina. Talvez disparem indiscriminadamente. Talvez nos estejam a conduzir para um ponto sem retorno, onde as ruas se afunilam para estações onde aguardam as composições que rumam para leste, carregadas de gado.
Não conheço ninguém, ninguém me fala. Mas eu sei, e esse saber dá-me uma enorme superioridade. Posso escapar ao meu destino. Posso gerir a minha fatalidade. Posso escapar. Reconheço os meus algozes. Estou ainda longe deles e posso fugir, inverter a marcha, insinuar-me numa viela lateral, procurar refúgio numa porta aberta.
E então reparo que é tarde de mais. Que todas as portas se fecharam, a multidão pressiona na direcção dos esbirros, já não sou senhor dos meus passos, vou na maré, já não respiro, já a cabeça, e agora o tronco, se dobra ao seu destino que é o destino comum do gentio ignorante.

15 novembro 2010

Relatos de Kolimá, de Varlam Chalamov



Varlam Chalamov (1907-1982) viveu uma vida impar, num século cruel. Prisioneiro do Gulag siberiano, em Kolimá, partilhou condições de detenção no limite da resistência humana e, felizmente, sobreviveu para contar. Alguns escreveram que, depois do Holocausto, a poesia era impossível. A poesia e todas as disciplinas criativas que transmitam qualquer ilusão sobre a existência de um princípio moral que, mesmo de forma mitigada, governe as vidas humanas. Quando leio Relatos de Kolimá alguns amigos olham-me com uma expressão onde adivinho tédio, preocupação, reticências. Tédio porque eles sabem tudo sobre a destruição a que se entregaram os avós e a memória do holocausto, como a do Gulag, são hoje instrumentos de luta ideológica e politica. Preocupação por temerem que me ponha a ler excertos, prosélito insuportável. Reticências sobre a qualidade literária de textos de denúncia.
Relatos de Kolimá, um pequeno livro da Relógio D’Àgua de 2000 e que, em Espanha, a editorial minúscula, de Barcelona, edita em 6 tomos, é um livro sobre os homens em situação extrema. Sobre a forma como os homens se comportaram, num tempo em que razão, solidariedade e justiça pareciam suspensas e o que contava era saber resistir à fome, à sede, ao frio, à doença e sobretudo à maldade e à banalidade do mal.
A escrita é poderosa, seca, pobre de adjectivos. A realidade descrita é tão brutal que só um absoluto despojamento narrativo podia torná-la suportável.
Os relatos de Kolimá são uma obra fantástica da literatura russa, um fresco de personagens multifacetadas procurando sobreviver . É também uma narrativa difícil de ignorar. Foi possível, sim, delicados amigos humanistas, gentis amigos que conservais as mãos tão puras. Eu sei que virá o claro dia e que toda esta gente já morreu, as vítimas e os algozes, se os houve, pois todos cumpriam ordens, nada sabiam, nem viam ou cheiravam. E sei que uma ideologia não pode ser culpada se alguns a usaram para justificar a velha exploração de uns homens pelos outros. Mas esta ideologia da classe messiânica, da classe contra classe, do partido de classe, da vanguarda iluminada, vinha mesmo a calhar. E Kolimá existiu entre o final dos anos 20 e o início dos anos 60. Nos campos de Kolimá, em temperaturas de Inverno sempre inferiores a -10ºC e muitas vezes a -30ºC, trabalharam na exploração mineira milhares de “inimigos do povo”, enviados sem julgamento ou com processos sumários, para os campos de trabalho, em viagens que podiam durar 3 meses. Eram entregues ao frio e à fome, à violência dos prisioneiros de delito comum, dos guardas e do complexo sistema de regras do Gulag. A sociedade responsável por esta aberração queria construir um homem radicalmente novo. Como aconteceria anos mais tarde no Cambodja de Pol Pot ( a propósito ler um relato, também nas edições minúscula, da autoria de Denise Affonço, a que A.Muñoz Molina fez comovida alusão na Babelia de 31 de Outubro). Se hoje nos preocupamos com a fatalidade histórica que, em épocas de recessão económica, ressuscita a xenofobia e o racismo e , de Bruxelas a Moscovo reanima a estrema direita, é justo que se lembre também a vida destes homens. E que o mínimo que se deve exigir a alguns que temos ao nosso lado, por um princípio de coerência e para que o dialogo faça sentido, é, não já que furem os olhos como queria Kundera, mas que, ao menos, leiam Varlam Chalamov.

13 novembro 2010

11 novembro 2010


Adriana Varejão



Agora é assim todos os dias: a empresa despediu 200 trabalhadores. Souberam à hora do almoço. Souberam pela televisão. Em directo. Tinham 20 anos de casa. De casa. Estavam convencidos de que a empresa era a sua casa. Que tinham de vestir a camisola. Hoje foram despedidos. Nos bons casos aparece um senhor escrupulosamente barbeado, com um fato confortável e gravata clara, a explicar aos jornalistas que a empresa estava perfeitamente sobredimensionada. Que estes trabalhadores há muito eram excedentários. A gente vê a cara deles na televisão. A cara que tem um homem e uma mulher excedentária. A mulher excedentária chora. O homem ainda não percebeu. Neste momento ainda estão juntos. Fizeram cartazes que para eles têm muito significado. Amanhã estará cada um para o seu lado, novos-velhos no mercado do Senhor Silva, shiuuu.
Podia não ser assim. Podíamos perceber que o senhor do fato e os amigos, tão bons a despedir, a cumprir a decisão final de despedimento são ,eles sim, perfeitamente excedentários. Já eram assim nos tempos da empresa Puro Prazer de te F., criada enquanto jovens estudantes de Economia para gerir as verbas da cervejola da Comissão Queima das Fitas. Excedentária, essa gente dos Conselhos gerais, das Administrações, dos Projectos, dos Gabinetes, das Comissões, das Assessorias. Perfeitamente excedentários, sobredimensionados. Homens e mulheres como nós, não lhes desejo o mal. Apenas que sejam despedidos por justa causa. Com um subsídio de desemprego ( e não dois, e não vitalícios). Para poderem ir, de cara lavada e CV na pasta, ao mercado do Senhor Silva, shiuuu, tentar a sorte, como este homem e esta mulher que choram.

08 novembro 2010



Graças a Deus! Parece que pertenço à variante hedonista dos ateus.

06 novembro 2010





Aproveitei o feriado para ir à Victoriana de Mondariz, uma loja de velharias. Chovia abundantemente. A tempestade afugentara os clientes e , teoricamente, adoçara o coração comercial do senhor F. Eu precisava de um louceiro barato. O senhor F. de momento não tinha. Mas aproveitou para me levar ao depósito da Victoriana, a cem metros da loja, que os clientes são convidados a visitar. Aí o senhor F.mostrou-me quatro cadeiras Thonet, modelo 214 F. Prefiro o modelo 213, que me parece mais próximo daquele a que o velho Michael chamou o modelo 14. Mas o senhor F tinha disponíveis eram 4 exemplares do modelo 214 F que vendia, por junto, a 900 euros. Muito trabalho de restauro Tinha comprado nove cadeiras - alguém de mau gosto quisera recrear o modelo 214 PF e aplicara selvaticamente um estofo agrafado no assento das 214 P- e aproveitado aquelas. Resisti à investida do senhor F. Na verdade eu não dispunha daquela importância nem precisava de cadeiras. Nessa tarde, desafiando a tempestade, viajei para norte e na cidade de Lugo alojei-me no Hotel Méndez Nuñez, junto à Farmácia Central. De manhã na calle de la Reina tomei o pequena almoço na Confiteria Madarro. As cadeiras eram Thonet, modelo 214. Depois bebi uma genebra no Café Dólar, plaza de Porlier em Oviedo. Cadeiras Thonet, modelo 214. E no Gran Café de Gijón, modelo 214, na Vinateria El Feudo, na Sidreria La Gran Taberna. Partilhando um copo de Ribera, enquanto lias Il rosa Tiepolo de Roberto Calasso, esta história parecia ter sentido e poder ser contada, com madeira e vapor,por cadeiras Thonet do modelo 14.

05 novembro 2010


Eu sou patriota. Orgulho-me da minha pátria e embora já tenha cometido a injustiça de dizer mal da Câncio ninguém me ouviu nunca dizer mal da minha Pátria. Ontem, por exemplo, tive imenso orgulho ao ver o chefe da PIDE, que se chama Qualquer Coiso Anus, a dizer que estavam a chegar os agitadores da cimeira da NATO. Reagi como um patriota (intimamente claro, mas com imenso sofrimento físico). Então a nossa Pátria não é capaz de produzir um agitador sequer?
Logo a seguir tive outro estremecimento patriótico: o meu Presidente anunciando que a Economia tinha de mudar. Na assistência estavam os artífices desta Mudança da Economia. Estranhei que ninguém se sentasse ao lado da senhora duquesa do Brabante. Não se pode ter tudo. Consciência patriótica e cheiro a madressilva. Quem vai a estas sessões de exaltação patriótica esquece o nariz e senta-se onde a realização aponta. Não se deixam lugares vazios na primeira fila, ao lado da senhora duquesa do Brabante. Ah já percebi, era para o senhor Freitas do Amaral. Estão a chegar os terroristas.

04 novembro 2010


Adriana Varejão




Todas as manhãs os comentadores me fazem a cabeça, enquanto tiro o café. Os comentadores são economistas. Dominam as técnicas de comunicação, Maria. Está a ver, José? Se a Teresa fizer um empréstimo tem que pagar a dívida e os juros. Já disse aqui há um mês, António, que os mercados não acreditam em palavras. Os bancos estão a ter um milhão de lucros diários, mas ó Gabriel, não é essa a função deles? A PT quer distribuir dividendos sem pagar taxas? Querida Mariazinha, a PT tinha avisado antes do Orçamento.
Sempre a mesma cantilena. A conformidade do cidadão ao Mercado, aos Accionistas, a menorização do Estado identificado com o executivo de Sócrates, pau-para-todo-o-comentadorismo. Eles sabem, já avisaram, explicam. Desde o patrãozinho da Sic- deixei de o ver durante umas semanas e encontro-o apoiante discreto do PPC, quase converso da alternativa- até ao romancista de Equador, são todos preclaros apóstolos da cartilha económica do Mercado, dizendo por extenso o que a Dra. Manuela diz em síntese. Manda quem manda e eles obedecem, estás a ver Maria, é como te disse José.



Estão de volta: os tea party, entre conservadores e fascistas- a gente do PP de Mariano Rajoy, Cameron, o marido da Carla Bruna e o governador da zona italiana. Quando abri a televisão num canal chamado intereconomia, estava a dar futebol. Na pausa fez-se propaganda própria. Um manifesto eleitoral nas cores suaves da Nova Propaganda. Dizia mais ou menos assim: “se achas que matar um feto é um crime, se achas que os problemas demográficos não se resolvem matando os velhos, se achas que um par de homossexuais não faz um matrimónio, etc, etc, junta-te a nós”. Nós é o tal canal, simbolizado por um touro investindo de frente, a meia pata e sem cojones.

03 novembro 2010




Chove imenso na cidade de L. No bar A Nossa Terra há grupos que fazem fila junto ao balcão. A rapariga do outro lado chama-se Gloria e casou-se com um português. Ele era pedreiro e agora está desempregado. Em Novembro terão duas semanas de férias e irão para Guimarães. Gloria está triste. É talvez a única pessoa triste nA Nossa Terra. O guarda redes brasileiro do Almeria não está triste, mas cansado. Tem de responder às perguntas dos jornalistas do programa da noite, espreitar pelo canto do olho os sms que não param de correr na tira da pantalha e preparar-se para as surpresas que a realização lhe reserva: colegas de profissão revelando aspectos da sua intimidade. Se ele tivesse à sua frente a defesa do Real ou do Barça. Se ele já fosse o titular da selecção. A rapariga que de manhã cedo atravessa a Plaza del Campo na direcção da Calle de la Cruz, equilibra-se nos saltos e parece indiferente à chuva e ao frio. Num dos vértices da Praça, o rapaz pede-lhe um beijo, finge caminhar na direcção da Catedral, volta-se para trás furtivamente, faz uma chamada no telemóvel e muda de direcção para a Calle Tineria. À porta da Catedral está um homem de mãos enormes que segura a tremer uma peça de cobre . Os fieis são velhos . O INEM entra sem interromper o culto e avalia discretamente a Pressão Arterial de um ancião. Um dos padres oficiantes aproveita e arregaça o braço. Um casal matou a filha, lançou fogo à casa e foi esconder-se numa fossa séptica. Letizia Ortiz, refém dos Borbon, embalsamada em vida por amor de um príncipe que não teve tempo de amar, está como a Virgem dos Olhos Grandes: a tudo assiste, impassível, não diz nada, nunca mais falará.