Estou perdido nos céus entre as arábias e a galiza e não sei do porteiro. No elevador vim com um que se reclama a divisa “trabalha galego”, no corredor acabei de cumprimentar (à pressa) outros hiper atarefados, tudo moiros de trabalho, e aqui não encontro o gabinete do que é Salvador..
André Bonirre
31 Outubro 2003
30 Outubro 2003
Que fale
O Sol está a bombardear a Terra com tempestades magnéticas gigantescas. Ondas de protões varrem os continentes, despejadas por vómitos da nossa pequena estrela convulsiva. Avisaram os pilotos de aviões e os bombeiros da califórnia. Parece que o fenómeno se traduz em gigantescas auroras boreais que podem ser vistas no Alasca e em outros sítios desérticos da Ásia.
Perturba-me esta exuberância de energia para nada, este excesso dos céus sem espectadores.
Se alguém perceber o que isto quer dizer- tu que acreditas que a morte nos puxa para cima, que não fique calado.
Perturba-me esta exuberância de energia para nada, este excesso dos céus sem espectadores.
Se alguém perceber o que isto quer dizer- tu que acreditas que a morte nos puxa para cima, que não fique calado.
29 Outubro 2003
as palavras
é preciso que elas percorram as veias, deixamo-nos injectar nos pontos
mais dolorosos do nosso corpo, esperar, aguardar o livre curso da
infecção, do tempo, dos pensamentos meio devagar, deixar alastrar o
estado febril, com sorte surpreender numa malha cristalina e sólida o
seu registo, com sorte o tempo restaurará a temperatura para o valor
normalizado, com sorte um pequeno cubo de arestas afiadas conterá a
infecção dois milímetros dentro da pele, as arestas afiadas prontas a
romper novos tecidos em plena nova calma, o cubo de novo a escorrer, a
engrossar a corrente negra que me prega ao chão, mas nunca menos do
que isso.
PC
mais dolorosos do nosso corpo, esperar, aguardar o livre curso da
infecção, do tempo, dos pensamentos meio devagar, deixar alastrar o
estado febril, com sorte surpreender numa malha cristalina e sólida o
seu registo, com sorte o tempo restaurará a temperatura para o valor
normalizado, com sorte um pequeno cubo de arestas afiadas conterá a
infecção dois milímetros dentro da pele, as arestas afiadas prontas a
romper novos tecidos em plena nova calma, o cubo de novo a escorrer, a
engrossar a corrente negra que me prega ao chão, mas nunca menos do
que isso.
PC
A poesia vai acabar
Em S. Mamede do Coronado, à Trofa
ao volante do velho Ford
no autocarro da Carris
na vindima do Deanteiro
nas reuniões intercalares
no tão difícil equilíbrio
nas manhãs das que perguntam à vida:
podemos ser felizes?
no irrespirável ar
tateando um mundo imaginado
antes que o teatro se diga
do lado de lá do mar
e em muitos sítios que não sei
pegaram nos farrapos
e estão de novo a cerzir
o pano da bandeira-poesia
ao volante do velho Ford
no autocarro da Carris
na vindima do Deanteiro
nas reuniões intercalares
no tão difícil equilíbrio
nas manhãs das que perguntam à vida:
podemos ser felizes?
no irrespirável ar
tateando um mundo imaginado
antes que o teatro se diga
do lado de lá do mar
e em muitos sítios que não sei
pegaram nos farrapos
e estão de novo a cerzir
o pano da bandeira-poesia
pequeno apontamento para o dicionário de O Mal
Poreticismo: uma estética da imperfeição. Termo que Eduardo Pitta atribui a um crítico literário habitualmente colérico (cf. Apeadeiro) utilizado na caracterização da poesia de Silva Carvalho. ex: como o personagem de Moliére eramos poréticos sem o sabermos.
Ri-te, ri-te
"O estádio de Coimbra será inaugurado pela terceira vez às 18:30h com uma forte componente académica, que contará com a presença do Coro dos Antigos Orfeonistas . No momento da execução do Hino Nacional serão solistas os senhores doutores Almeida Santos e Carlos Encarnação. Nas bancadas, com projecção nos ecráns gigantes, o comediante Pedro Tochas fará entrevistas a elementos especiais do público."
Coerência
Nós não prometemos nunca que não falaríamos aqui do processo da Casa Pia. E não falamos mesmo.
Wislawa Szymborska
A Antologia da Szymborska, traduzida por Júlio Sousa Gomes, está na Relógio D'Água (a editora que gosta de blogs)
Lógica da Programação
CASE OF
CASE cenobita
CALL IRS(agravar) // (*)
CASE polígamo
CALL IRS(compensar)
CASE confuso
CALL IRS(assumir)
CASE desorientado
CALL IRS(contrabalançar)
CASE desastrado
CALL IRS(inimputar)
OTHERWISE
CALL IRS(aldrabar)
ENDCASE
# (*) isentar (?), à superior consideração da Zazie
André Bonirre
CASE cenobita
CALL IRS(agravar) // (*)
CASE polígamo
CALL IRS(compensar)
CASE confuso
CALL IRS(assumir)
CASE desorientado
CALL IRS(contrabalançar)
CASE desastrado
CALL IRS(inimputar)
OTHERWISE
CALL IRS(aldrabar)
ENDCASE
# (*) isentar (?), à superior consideração da Zazie
André Bonirre
A poesia vai acabar
A poesia vai acabar
os poetas foram todos laureados
(agora mesmo Vila-Mata em França)
Ana Paula não quer ser encontrada.
Morreu em Banguecoque
-já na fila de embarque
um que talvez nos desse alento
ou um refogado sábio em Vallvidrera
A Zazie afogou-se em magnólias.
Fecharam as tascas todas de Lisboa
A literatura não cura- é a doença
O frio que te percorre é sem consolo
Escapam-me as pepitas ao peneirar Houaiss
corrompem os caixilhos um bruto e uma gaga
Na casa da morte só a Sofia tece
O debrum do quadro que anuncia:
Apaguem todos os links
ou A Natureza do Mal cegar-vos-á
os poetas foram todos laureados
(agora mesmo Vila-Mata em França)
Ana Paula não quer ser encontrada.
Morreu em Banguecoque
-já na fila de embarque
um que talvez nos desse alento
ou um refogado sábio em Vallvidrera
A Zazie afogou-se em magnólias.
Fecharam as tascas todas de Lisboa
A literatura não cura- é a doença
O frio que te percorre é sem consolo
Escapam-me as pepitas ao peneirar Houaiss
corrompem os caixilhos um bruto e uma gaga
Na casa da morte só a Sofia tece
O debrum do quadro que anuncia:
Apaguem todos os links
ou A Natureza do Mal cegar-vos-á
Super hypno Sá na Antena Um, socorro
O psi da voz hypno chegou à rádio. Com uma jornalista muito fresca a fazer o papel do coro omniignorante, o professor Eduardo Sá saltou do xis para a antena um. Tira-me, nesta manhã, todo o prazer de reencontrar o Sena Santos. Ao ouvir a sua toada de revelado sinto-me sempre excomungado da sua religião.
Antologia de O Mal: Wislawa Szymborska
O terrorista... olha
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.
O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:
Uma mulher de casaco amarelo... entra
Um homem de óculos escuros... sai
Rapazes de jeans... conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.
Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
Isso se saberá pelas noticias.
Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo de sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
Faltam treze segundos para as treze e vinte,
E ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.
São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba... explode
Wislawa Szymborska
Tradução
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.
O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:
Uma mulher de casaco amarelo... entra
Um homem de óculos escuros... sai
Rapazes de jeans... conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.
Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
Isso se saberá pelas noticias.
Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo de sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
Faltam treze segundos para as treze e vinte,
E ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.
São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba... explode
Wislawa Szymborska
Tradução
Antologia de O Mal: Wislawa Szymborska
Possibilidades
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
em vez de amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
tradução de Ana Cristina César
Wislawa Szymborska
Estes amigos não nos devem nada. Pelo contrário somos nós que todos os dias lhes devemos alguma coisa. Agora ensinam-nos a dizer correctamente o nome de uma poeta fascinante, a polaca Wislawa Szymborska (vissuava ximborsca). Ouvimos um poema dela, Curriculum vitae, numa peça com o mesmo nome que O Camaleão, esse grupo da margem, levantou há dois anos no espaço quase confidencial do inatel de Coimbra. Depois encontrámos a tradução num livro do João Lobo Antunes. Andamos a pedir que nos digam se há alguma tradução portuguesa (Cristina, por favor).
Enquanto a resposta não chega, aqui vai um pouco do que dela se pode respigar por aí.
Enquanto a resposta não chega, aqui vai um pouco do que dela se pode respigar por aí.
28 Outubro 2003
Trabalho de casa: dicionário de O Mal
bafagem dizem os marinheiros do vento de muito fraca intensidade, menos que aragem; também pode ser inspiração, e quer dizer alento, ou expiração e ganha o seu sentido mais terreno: bafo ex: sempre que a via era um baque. gastava os primeiros segundos a ocultar uma imparável sucessão de profundas bafagens.
basiofobia medo mórbido de cair, ao andar (a este ponto, de fobia, só pode paralisar. todo o medo que está para além deste, entorpece e pode limitar o caminhar, mas alerta e faz olhar melhor o trilho. o segredo está no ponto de equilíbrio. dificil. e muito longe da fobia)
baranga de má qualidade, de pouco ou nenhum valor (ajuda a relativizar)
badorar comer avidamente, devorar (é um termo popular brasileiro e delicioso, sobretudo em ritmo de samba: eu badoro você...)
bacorejar advinhar, prever, pressentir, pressagiar; esperar, aguardar; sugerir, propor, insinuar
autotélico diz-se do que não tem significado ou sentido além ou fora de si; ex. a arte pela arte (Ãé o dicionário que o diz). sinto-me autotélico no blog. Ou fora dele.
e uma expressão: estando mal de vida, vendeu tudo na bacia das almas (demasiado barato).
Vendeu tudo na bacia das almas. É demais.
Soam os gongos
Os Olhos da Àsia" (um filme de João Mário Grilo, 1996)inaugurava o ciclo de conferências Oriente- Ocidente que prossegue amanhã e até sexta feira no Auditório da Universidade de Coimbra.
Os Olhos da Ásia passou no TAGV à tarde e talvez tenha sido repetido às 21:30h.
A cópia exibida era de uma qualidade lamentável.
Das seis pessoas que estavam na sala, três abandonaram-na quando se aperceberam que aquela reverberação insuportável iria continuar todo o tempo de exibição (com uma paciência verdadeiramente oriental, três espectadores continuaram nos seus lugares).
Para que saibas porque tocam os gongos. Pediam desculpa aos incautos, ao João Mário Grilo, aos maltratados da capital da cultura.
Os Olhos da Ásia passou no TAGV à tarde e talvez tenha sido repetido às 21:30h.
A cópia exibida era de uma qualidade lamentável.
Das seis pessoas que estavam na sala, três abandonaram-na quando se aperceberam que aquela reverberação insuportável iria continuar todo o tempo de exibição (com uma paciência verdadeiramente oriental, três espectadores continuaram nos seus lugares).
Para que saibas porque tocam os gongos. Pediam desculpa aos incautos, ao João Mário Grilo, aos maltratados da capital da cultura.
Efodiofobia
Ups...
devo ter ensinado mal. "Efodiofobia" é que é o horror a preparativos de
viagens! O "i" do meio lembro-me de ter esquecido, o "a" inicial não sei
de onde veio. Tenho os dicionários encaixotados (estou a viajar dentro
da cidade para lugar nenhum), mas, com os que tenho acesso, pareceu-me
que "afod..." tinha essa ligação aos vómitos. É uma piada velha, mas
posso imaginar as potencialidades uma gralha assim para quem se arme em
curioso de medicina ou para os apanhadores de cogumelos... E isso
leva-me ao "Bouvard e Pécuchet" (não sei se está bem escrito) um livro
genial e muito engraçado de Flaubert...
Um abraço
Sérgio
devo ter ensinado mal. "Efodiofobia" é que é o horror a preparativos de
viagens! O "i" do meio lembro-me de ter esquecido, o "a" inicial não sei
de onde veio. Tenho os dicionários encaixotados (estou a viajar dentro
da cidade para lugar nenhum), mas, com os que tenho acesso, pareceu-me
que "afod..." tinha essa ligação aos vómitos. É uma piada velha, mas
posso imaginar as potencialidades uma gralha assim para quem se arme em
curioso de medicina ou para os apanhadores de cogumelos... E isso
leva-me ao "Bouvard e Pécuchet" (não sei se está bem escrito) um livro
genial e muito engraçado de Flaubert...
Um abraço
Sérgio
Ce n'est qu'un début...
Uma vi que cortou a asa putrefacta e voou; outro foi salvo das águas. O Outono afixou cartazes que dizem: é só um começo. Eu fiquei a ouvir o lamento que nem sei bem se é o da jovem larva castrada se da cientista em abandono: I'm younger than that now.
Jennifer Berman e a lombriga cada vez mais jovem (Blake)
>Cientista português criou verme que bateu recorde de longevidade, era o título da notícia, com link para a Science. Os vermes dão pelo nome de Caenorabditis elegans ,e, pela foto anexa, parecem lombrigas. O nosso cientista pô-los a viver mais de 500 anos (em vidas humanas). Nunca mais morrem. Passa-se a experiência em San Francisco, Califórnia, USA. Como a bolsa do investigador luso acabou e as lombrigas elegantes continuavam juvenis uma tal Jennifer Berman, que não entrava na história, teve que ficar a tomar conta da experiência, diz a jornalista que relata esta descoberta. Mas como é que o nosso cientista logrou este feito? Removeu o aparelho reprodutor dos vermes enquanto eram larvas, elucida-nos a notícia.
Morrem jovens os que deus mais quer. Mas há quem não acredite. E assim em San Francisco, Jennifer Berman continua a olhar as lombrigas gerontes, sem perceber porque é que o cientista português não dá notícias.
27 Outubro 2003
Amanhã no Livro Aberto
Terça feira às 22 horas, na NTV, como habitualmente, o Livro Aberto por Francisco José Viegas. Oportunidade para conhecer algumas prodigiosas leitoras. A não perder.
Teste os seus conhecimentos
Leia os seguintes títulos e distinga quais os que pertencem ao Inimigo Público:
Ferro Rodrigues entrega liderança nas mãos do PS.
Madeira lança concorrente da Coca-Cola.
Apoio às artes vai ser feita com dinheiro do PIDDAC.
Moita Flores processa Ferro Rodrigues.
Ferro Rodrigues entrega liderança nas mãos do PS.
Madeira lança concorrente da Coca-Cola.
Apoio às artes vai ser feita com dinheiro do PIDDAC.
Moita Flores processa Ferro Rodrigues.
O Professor Mário Pinto linkou-nos!
O prof. Mário Pinto é um opinion-maker da folha do sôr zé manel furnandes . Nós não o lemos, habitualmente- preferimos ir directos às fontes. Ele também não nos lê, o que é inteiramente compreensível. Sucede que hoje pergunta a toda a largura do seu espaço: Onde está o Mal? Quem o conhecer diga-lhe, por favor.
Agradecimentos
Ao Sérgio (aba de heisenberg) e ao Filipe (mar salgado) pela atenção com que lêm e corrigem o dicionário de O Mal. Obrigado pela efodiofobia e pela sega. O dicionário já tem a sua corrigenda.
A vida
- estar vivo
é uma grande contrariedade
para a matéria
( tu explicaste
em versos já perdidos
a paciência da mitocôndria
a usura dos lisosomas
o segredo que os genes
sussurram
aos aminoàcidos
na linha de montagem)
um esforço sem sentido
regressaremos todos
ao nosso estado
natural
mineral
Sena e Quintela (polémica já antiga)
Paulo Quintela foi um germanista, professor de Letras em Coimbra, fundador e director artístico do TEUC, tradutor de Rilke, Hölderlin, Brecht, entre outros.
Jorge de Sena não necessita de apresentações.
Em 1955, Quintela traduziu Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, que o Instituto Alemão da Universidade de Coimbra editou. Não há em português prosa desta- escreveu então, como antes dele não a havia em alemão.
No prefácio do livro dedicou a Jorge de Sena as seguintes frases: Mas eis que um tabelião das nossas letras- ou seu caixeiro, conforme se encare como inventário ou balanço aquilo a que chama Tentativa de um Panorama Coordenado da Literatura Portuguesa de 1900 a 1950- me quer distinguir, mimoseando-me com a duvidosa honra da inclusão do meu nome no seu catálogo de arrumação literária. Trata-se (...) do senhor Jorge de Sena que em Tetracórnio, organizado por J. Augusto França, a pág 22, na esfalfada e retorcida sequência- ou inconseqência- de uma prosa que vai bem ao título da publicação, abusou do seu múnus de crítico (?), porque nem o mandei lavrar aquelas linhas, nem eu era merecedor da sua charrua que, assim como assim, não tem relha para a minha leiva. etc, etc.
Em 1999, numa daquelas edições de Natal, Mécia de Sena tornou públicos alguns inéditos de Jorge de Sena (este inconveniente que atinge alguns criadores de deixar espólio e viúvas...). Entre eles, datado de 30 de Setembro de 1970, o seguinte: Quintelas há que Paulos se desunham/ de fúrias teatrais e tradutórias/e que em décadas de teses sepultadas/se fazem tão ilustres, tão minervas,/ que treme aquele que se não desfaça/ ante os humores do génio eczemático./Da Lusa Atenas macha cariátide/desde Heines sem nome em tempo de Hitler/ às devoções das Vértices marmotas/ passando o pêlo aos jovens cudibundos/
se rilkizando em Goethes da Couraça.
Não o mandei lavrar aquelas linhas nem era merecedor daquela charrua. Não tem relha para a minha leiva; cudibundo; macha cariátide; rilkizar-se! Directos para o Dicionário de O Mal.
Jorge de Sena não necessita de apresentações.
Em 1955, Quintela traduziu Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, que o Instituto Alemão da Universidade de Coimbra editou. Não há em português prosa desta- escreveu então, como antes dele não a havia em alemão.
No prefácio do livro dedicou a Jorge de Sena as seguintes frases: Mas eis que um tabelião das nossas letras- ou seu caixeiro, conforme se encare como inventário ou balanço aquilo a que chama Tentativa de um Panorama Coordenado da Literatura Portuguesa de 1900 a 1950- me quer distinguir, mimoseando-me com a duvidosa honra da inclusão do meu nome no seu catálogo de arrumação literária. Trata-se (...) do senhor Jorge de Sena que em Tetracórnio, organizado por J. Augusto França, a pág 22, na esfalfada e retorcida sequência- ou inconseqência- de uma prosa que vai bem ao título da publicação, abusou do seu múnus de crítico (?), porque nem o mandei lavrar aquelas linhas, nem eu era merecedor da sua charrua que, assim como assim, não tem relha para a minha leiva. etc, etc.
Em 1999, numa daquelas edições de Natal, Mécia de Sena tornou públicos alguns inéditos de Jorge de Sena (este inconveniente que atinge alguns criadores de deixar espólio e viúvas...). Entre eles, datado de 30 de Setembro de 1970, o seguinte: Quintelas há que Paulos se desunham/ de fúrias teatrais e tradutórias/e que em décadas de teses sepultadas/se fazem tão ilustres, tão minervas,/ que treme aquele que se não desfaça/ ante os humores do génio eczemático./Da Lusa Atenas macha cariátide/desde Heines sem nome em tempo de Hitler/ às devoções das Vértices marmotas/ passando o pêlo aos jovens cudibundos/
se rilkizando em Goethes da Couraça.
Não o mandei lavrar aquelas linhas nem era merecedor daquela charrua. Não tem relha para a minha leiva; cudibundo; macha cariátide; rilkizar-se! Directos para o Dicionário de O Mal.
26 Outubro 2003
Para maiores de dezasseis anos
Na Bertrand, O meu Pipi, envergonhado, na estante da transcendência. Era dia de festa, com os meninos a comprar o Harry Potter- vi o cuidado com que o folheavam, lhe tomavam o peso- a maioria vai ler. Também se empilhavam Damásios, com o autocolante irritante a anunciar 10ª edição. E ainda o terceiro livro do tradutor da Odisseia. E Du coté de Guermantes- meu deus,os proustianos tÊm que ler mais depressa do que o pessoal da Leitura Partilhada.
O Meu pipi, cinzento, ao lado do Paulo Coelho e dos Templários. Com aquele aviso terrível: Para maiores de 16 anos. Aos 16 anos já tinha lido A Tortura da Carne, A Madame Bovary, o Foucault, o Hemingway, o Arthur Penn, o Rilke, o Stendhal, o Heidegger. Pensando bem, acho mesmo que não li nada de importante depois disso. Nunca compraria um livro desaconselhado para os menores de 16 anos.
Também lá vi um livro sobre os blogs. Li-o à-marcelo. Mas, diferentemente do primo, não o posso recomendar. Pareceu-me muito...incompleto.
O Meu pipi, cinzento, ao lado do Paulo Coelho e dos Templários. Com aquele aviso terrível: Para maiores de 16 anos. Aos 16 anos já tinha lido A Tortura da Carne, A Madame Bovary, o Foucault, o Hemingway, o Arthur Penn, o Rilke, o Stendhal, o Heidegger. Pensando bem, acho mesmo que não li nada de importante depois disso. Nunca compraria um livro desaconselhado para os menores de 16 anos.
Também lá vi um livro sobre os blogs. Li-o à-marcelo. Mas, diferentemente do primo, não o posso recomendar. Pareceu-me muito...incompleto.
Bookcrossing- Portugal
Acho que a serendipidade pode ser um programa de vida. Mas ainda vou esperar algum tempo antes de começar a semear os meus livros ao acaso das ruas. Por enquanto mando-os aos que amo. Comecei na semana passada.
Entretanto, alguém- tens que ser tu, não é Cristina, pode resumir o que se passa em Portugal com o bookcrossing? Agora que em Espanha se criou um mirror de WWW.bookcrossing.com
Entretanto, alguém- tens que ser tu, não é Cristina, pode resumir o que se passa em Portugal com o bookcrossing? Agora que em Espanha se criou um mirror de WWW.bookcrossing.com
Razões da desigualdade
Nós aqui laboriosamente a peneirar o Houaiss (meu querido Aurélio nunca te abandonarei) para encontrar meia dúzia de pepitas pordia e ele, de uma assentada, o lascivo, manda logo cinquenta.
Trabalho de casa: dicionário de O Mal
bibliomancia: pretensa adivinhação por meio de um livro aberto ao acaso . Pretensa?
beluíno: selvagem (mas também relativo a feras, bestial, brutal, feroz). tem qualquer coisa de belo esta palavra
bandurrear: tanger bandurra (espécie de alaúde com braço curto e muitas cordas); em sentido figurado, quer dizer viver ociosamente (ao que o dicionário, implacável, acrescenta: vadiar)
bangalé: festival rústico; comezaina em baiúcas campestres (baiúca é o mesmo que betesga, mais conhecida por tasca ou taberna)
cegar: para o comum dos mortais privar da vista (mas cego também pode significar deslumbrado, alucinado, ignorante___ todos o sabemos). não confundir com o homónimo segar(como nós já o fizémos). a morte com a sua foice sega as vidas dos mortais, e às vezes, sem darmos conta, segamos o que podia ser uma boa amizade.
Contorcionista
Madalena envia-me fotos do nosso encontro de há meses, olheiras de uma longa noite, aqui eu, ali ela equilibrada no salto alto, tão nova, será que vai dar o salto, ousará trocar de número, lançar-se num novo voo? acalma-te, querida missionária vigilante, é só exibição acrobática, o bolo ro/cocó é incomestível.
André Bonirre
André Bonirre
Trabalho de casa: dicionário de O Mal
As 14 mil palavras do Houaiss não são todas as palavras da língua portuguesa. Pedreiros da blogosfera, empunhando orgulhosamente o escopro, todos os dias criam algumas. Sem medo desse ofício, aqui.
Conheci, de raspão, três bloggers: o Nuno dos aba, o Nuno da klépsydra: escrevem textos (literários) muito interessantes. São engenheiros físicos. O Nuno da klepsydra disse-me que o titular desse espanto que é umblogsobrekleist, o alexandre, é...engenheiro físico. Mas o que andam a escrever os gajos das letras? Sobre biologia, suponho.
O Sérgio aba, ensinou-me que o medo dos preparativos da viagem se chama efodiofobia. (Pessoa seria assim um efodiófilo que não chega a viajar).
Ouvi a L. a palavra músula, referida a músculo da coxa (de musle?). Ausente do Houaiss.
Gosto da palavra musse. Agora que se calou a musse dos dias sinto a falta da s.a. Gosto da musse da cidra, e da musse da cerveja- bem mais do que da cidra e da cerveja. Gosto da musse com que desenhas umas madeixas no cabelo. E da musse de algumas aves sacrificadas. E da musse de café, enfim.
Adoro a palavra musseline. E o tecido leve e diáfano. Hei-de visitar Moussoul, liberta da ditadura religiosa, para ver as mulheres passar, sorrindo, com túnicas de seda transparente e de algodão muito leve.
O áfodo é um tubo secreto que liga, nas esponjas , a câmara flagelada ao canal excorrente. E a afodosia é a acção de se distanciar (provavelmente com alguma repugnância, porque esta palavra designava, também, o vómito).
Uma palavra de que não nos podemos afastar muito é a palavra musgo. As briófitas estão agora em toda a parte (excepto nas nossas ruas de asfalto e nos nossos shoppings de plástico, infelizes). Fofo é o musgo no brejo.


Musicaria é a loja onde vou agora procurar a banda sonora de Kill Bill, o Quarto Filme de Tarantino com a Daryl Hannah e a Lucy Liu tão lindas que quase comovem e a tua face, Uma, retalhada pela crueldade sem nome de um homem!
Está um dia lindo de outono, dizem os que acordaram cedo. Talvez encontre no caminho um musiquim.
Dificuldades na leitura
Desde que o público edita o inimigo público que me é muito difícil ler o jornal. Será que hoje é sexta-feira- descubro-me a perguntar? Mas esta é a página internacional, de desporto, da ciência? Ou serão transcrições do inimigo público, uma antologia dos marretas, bloguices, em suma.
Todos os dias coleccionava glórias sobre os homens de palha derrotados. Construía inimigos horrendos, sempre os mesmos. Pequenos bonecos de cartão que alinhava como um formidável exército. Não tinha paciência para pormenores. Eram todos réplicas de um maior inimigo que nunca nomearia. Toscos, inacabados. Criaturas feitas para serem vencidas. Envenena-se o demiurgo no seu emunctório.
25 Outubro 2003
Sexualidade
Não quero deixar encerrar o tema no Mal.
Não é preciso exemplificar.
Sim, o blog do miguel vale de almeida foi um dos nossos links iniciais. Mas eu discordo dele: primeiro a Mulher, depois o blog e enfim a humanidade.
Não é preciso exemplificar.
Sim, o blog do miguel vale de almeida foi um dos nossos links iniciais. Mas eu discordo dele: primeiro a Mulher, depois o blog e enfim a humanidade.
Trabalho de Casa: Dicionario de O Mal
arse: elevação da voz ou do tom; (mús.) o levantar da mão ou da batuta para marcar o primeiro tempo de um compasso
ex. a sala enchia-se, mudava o mundo à arse do maestro.
arregoar: abrir regos em; fender-se, partir-se, abrir-se.
ex. volta a ser una minh'alma arregoada!
marulhar (muito mais bonito que arregoar): agitar-se formando ondas; imitar o barulho das ondas (barulho é o que vem no dicionário, mas barulho não serve para ondas. marulho? diz o dicionário que significa marulhada e esta esconde como significado a agitação das ondas. mas como sentido figurado atribuíram-lhe barulho, balbúrdia...)
ex. ela encostava o búzio ao ouvido e entretinha-se a ouvir o marulhar que lhe vinha de dentro. tinham-na enganado dizendo que registara o som (ou seria o dom?) dos sítios por onde tinha passado
ardífero: que produz ardor (palavra que em sentido figurado significa veemência, paixão, intrepidez. está demasiado perto da dor, como era de prever...)
Sodoma e Gomorra
Os hugos escreviam calmamente um blog quase anónimo. Um dia descobriram a Assumida e a Mente e um beijo apaixonado (claro que não eram elas, podia ser do Van Gogh- mas pela Mente perturbada do Vincent nunca perpassou aquela cena, ou do Julião Sarmento- esse já não digo nada). Claro que não eram elas. Escolheram aquele ícone para o seu blog como nós o Sagrado Coração, ou o umblogsobrekleist a cara da Rita Ferro. Não são elas- fossem-no e seria outra a bomba inteligente. Mas os hugos escreveram sobre a sexualidade, e saltaram para o top das visitas e para o ranking dos mais incompreendidos. Nós estamos a festejar (?) o quarto mês de escrita e, a pedido do hugo, postámos duas coisas inocentes sobre a homosexualidade. Zás: record de comments, mesmo tendo em conta a gaguez (não cliquem mais do que uma vez em comments, por favor. Aguardem pacientemente, que o ennetation é lento), e o fenómeno querida-Zazie. Como diz a São e escreveu muito bem o Jules Romains, é o sexo que divide.
Mas aconteceram coisas interessantes no que à primeira (e segunda vez) me pareceu vulgaridade.
O primeiro comentário foi da Isabel dos Aba, que foi minha psicóloga na Penitenciária (e achava que eu merecia aquela prisão). A Isabel estranhou eu poder conhecer a emoção homoerótica. O que eu quis dizer com o meu post é que reduzir a condição homosexual a uma orientação- que se escolhe no cardápio das orientações, é redutor. Que me parece ser a homosexualidade uma condição, uma forma de existência, que, entre outras coisas por ser minoritária, tende a ser vivida nos elevados níveis energéticos da paixão. A Isabel, com o seu HHHuuumm??! queria dizer também que felizmente era hetero, e eu só posso congratular-me com a sua felicidade e pensar, com um pouco de angústia, nos que, pelos vistos infelizmente, o não são.
Depois a Zazie levantou questões importantes: sobre os bígamos, os poligínicos, as poliândricas, os desorientados sexuais, os desinteressados sexuais, os separados sexuais e o IRS. Por terem sido levantados no espaço menor dos comentários, pelo estilo esvoaçante da Zazie, não foram aprofundados. Mas não são questões menores. Tenho muita pena de não ter ainda descoberto aqui evolucionistas modernos, antropologistas, primatologistas a escrever sobre a sexualidade e aproveito para fazer publicidade de livros tão fundamentais como The Anatomy of Desire ou, de Geoffrey Miller,The Mating Mind, a tua mente, lecteur hypocrite.
Finalmente, o hugo, que é claramente uma pessoa bem educada, espantou-se de um casal gay lhe chamar grosseirão e, logo a seguir, citar entusiasmado o meu pipi. Também aqui, nO Mal, foi uma aparente alarvidade do Zé Nabo quem animou o casal gay (admito que o Zé Nabo não seja alarve e eu não tenha percebido a subtileza). É um pouco triste mas isso nada muda. Haverá sempre homosexuais delicados e trogloditas, inteligentes e menos inteligentes, cultos e barroseiros. Era mais ou menos assim que começava o Discurso do Método.
Mas aconteceram coisas interessantes no que à primeira (e segunda vez) me pareceu vulgaridade.
O primeiro comentário foi da Isabel dos Aba, que foi minha psicóloga na Penitenciária (e achava que eu merecia aquela prisão). A Isabel estranhou eu poder conhecer a emoção homoerótica. O que eu quis dizer com o meu post é que reduzir a condição homosexual a uma orientação- que se escolhe no cardápio das orientações, é redutor. Que me parece ser a homosexualidade uma condição, uma forma de existência, que, entre outras coisas por ser minoritária, tende a ser vivida nos elevados níveis energéticos da paixão. A Isabel, com o seu HHHuuumm??! queria dizer também que felizmente era hetero, e eu só posso congratular-me com a sua felicidade e pensar, com um pouco de angústia, nos que, pelos vistos infelizmente, o não são.
Depois a Zazie levantou questões importantes: sobre os bígamos, os poligínicos, as poliândricas, os desorientados sexuais, os desinteressados sexuais, os separados sexuais e o IRS. Por terem sido levantados no espaço menor dos comentários, pelo estilo esvoaçante da Zazie, não foram aprofundados. Mas não são questões menores. Tenho muita pena de não ter ainda descoberto aqui evolucionistas modernos, antropologistas, primatologistas a escrever sobre a sexualidade e aproveito para fazer publicidade de livros tão fundamentais como The Anatomy of Desire ou, de Geoffrey Miller,The Mating Mind, a tua mente, lecteur hypocrite.
Finalmente, o hugo, que é claramente uma pessoa bem educada, espantou-se de um casal gay lhe chamar grosseirão e, logo a seguir, citar entusiasmado o meu pipi. Também aqui, nO Mal, foi uma aparente alarvidade do Zé Nabo quem animou o casal gay (admito que o Zé Nabo não seja alarve e eu não tenha percebido a subtileza). É um pouco triste mas isso nada muda. Haverá sempre homosexuais delicados e trogloditas, inteligentes e menos inteligentes, cultos e barroseiros. Era mais ou menos assim que começava o Discurso do Método.
24 Outubro 2003
Um viário a haver
No pavilhão (o de Hannover- que não foi feito para o nosso outono tão severo) o Arquitecto apresenta uma visão do atravessamento da Cidade Futura por um viário a haver. O arco teleférico sobre o Botânico, a estação suspensa sobre o rio, a Frente Ribeirinha. Os visionários, os profetas, os neo-crédulos____ todos querem fazer perguntas ao Munícipe. Fazia-se uma boa fogueira, ali na vargem. Mas o acentuado arrefecimento nocturno tinha gelado qualquer coisa____ e não eram só as mãos que lhe tremiam.
Trabalho de casa: dicionário de O Mal
atlante: gigante fabuloso (nesta acepção grafa-se com maiúscula inicial); figura de homem que suporta o peso das ordens arquitectónicas; (fig.) homem muito forte
ex. "creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes “(Natália Correia)
atalanta: borboleta diurna, da família dos Ninfalídios (não conheço a família, mas, ficando-me pelas palavras, deixei de cobiçar a farfalla dos italianos)
ataranta: que causa atarantação; atrapalha; estonteia; desnorteia; (ataranta-se: perde a presença de espírito). Sempre que perco o Norte me ataranto.
atardar: atrasar; demorar (bem mais bonito do que o costumeiro atrasar, mas bonito mesmo era pontuar)
atafona: moinho movido à mão ou por força animal; azenha; andar numa atafona significa andar numa roda viva. E de atafona se chega a atafego: acto ou efeito de atafegar; asfixia; sufocação.
Não peçam para contar. É uma história de amor e não sei como acabou. Ele queixava-se: “Já não me pede para a atafegar”.
Decimonónica- relativo ao séc XX- ouvido num colóquio de arquitectos (não referido no Houaiss, nem no Aurélio, mais novecentistas, ou nongentistas). Talvez seja adaptado do italiano- vindo de onde vem. Soa a canónica. Assim, uma poesia decimonónica, uma arte decimonónica, uma ciência decimonónica designarão o cânone do século XX nestas áreas...
Decesso: acto ou efeito de deceder; morte; passamento- o que é muito radical, convenhamos. Prefiro abatimento, diminuição; também usado como rebaixamento de função, de classe. ex: Compreendi, os tempos eram outros, e eu comprometera-me excessivamente com o anterior governo. Apesar de tudo eles asseguraram-me um decesso decente na empresa.
Novel: fresco, acabadinho de chegar. O pl. , novéis, é de fugir.
Decídua- que cai. Melhor que caduca, parece-me. Também quer dizer qualquer coisa das miudezas, mas, francamente, não estou para aí virado.
Debangar- falar prolixa e longamente. Um post não se quer debangado.
Decessor- antecessor. É sempre melhor que o actual titular, mas infelizmente só tarde demais é que damos por isso.
Deblateração- expressar-se calorosa e críticamente (contra qualquer coisa). O mesmo que imprecação, esta sim, uma bela palavra (“A grande imprecação contra as muralhas da cidade”, soltada por uma mulher chamada Fernanda- assim lhe chamava o seu homem, Ernesto, que morreu de amor quando ela lhe faltou.)
Embalde: o mesmo que debalde, mas com mais balanço.
23 Outubro 2003
Água é preciso
Sete biliões de pessoas sem água em 2050.
A menos que os governos tomem decisões ,já, sobre o armazenamento, a distribuição e a partilha .
(do Relatório sobre a água . Nações Unidas)
Trabalho de casa: dicionário de O Mal
aluarado: iluminado pelo luar; da cor do luar ex: quando me abriu a porta, a sua face aluarada reconciliou-me com a noite.
amantar: cobrir ou embrulhar com manta; proteger; encobrir; (prov. estremenho), amancebar-se ex: na carruagem, encolhida como um feto, beliscando-se para não adormecer, com medo de ser amantada.
amontanhar-se: elevar-se como uma montanha ( menos interessante são os significados de amontanhar: acumular; avolumar-se).
uma sugestão para as mais feias (não que queira fazer um dicionário delas...):
amorudo: inclinado ao amor; apaixonado (definitivamente a evitar se for mesmo amor)
e ainda uma curiosa - amorroar: arder (o lume), com dificuldade, por má disposição da lenha (não sei se má disposição significa má colocação ou mau
humor... gostava que tivesse este sentido) ex: amorroado é como te quero. Se te animas, o que farei com as tuas cinzas.
Ao Hugo sobre a homosexualidade
A opinião sobre a homosexualidade é conformista. A homosexualidade não é a sexualidade dos que não são heterosexuais. A homosexualidade é, no dia a dia, a grande emoção transgressora, a fona da cabeça e do peito, que os heterosexuais só sentem no alto início da paixão (e é preciso que seja a proibida).
Relações naturais de parentesco
É uma família vulgar, o avô e a avó, a mãe, o filho e a filha, irmãos. Depois entrou a Lisa, encontrada pela filha, ficou da mãe. O Tico, pela filha recolhido, é do avô. O Calki, atropelado e depois perfilhado pelo filho. O Fred, socorrido pela filha, ainda em tratamento. São todos uma família, o Tico avô, a Lisa mãe, o Calki e o Fred filhos, adoptados, primos entre si, portanto, se não me enganei. Todos da família, logicamente, como eu...
André Bonirre
André Bonirre
Trabalho de casa: o dicionário de O Mal
abarcia: apetite insaciável, bulimia, voracidade.
abarga: várzea, varga, vargem, varja, planície.
ex:Numa alvarelha apressaram o passo e avistaram a abarga onde os mais velozes davam já mostras de uma extraordinária abarcia.
açafata: fidalga ao serviço de damas da família rel. ex: no poema de M.V.Montalbán Chineses da China/ na Panama Air/ as açafatas/são bonecas mestiças/de orquídea negra e mulher ...
foliar: participar em folias; folhear; numerar as folhas de um livro; paginar em livro aberto ex: Folia mesmo era roubar o livro foliado a meias.
22 Outubro 2003
M. de azulcobalto lê Cavafis (Kavafys) em francês (há pelo menos a tradução do Sena e uma em que participou o J.M.Magalhães). Temos que ler o Robert Walser em português do Brasil (O Ajudante, editora ARX). O Salteador está publicado na Relógio D'Água; Ficções de comer editou o conto O Jantar; Ficções, coordenada pelo Paulo Filipe Monteiro, publicou um texto, da autoria de Pedro Sobreiro, intitulado No Covil de Walser. Jorge Silva Melo diz que há pelo menos três livros traduzidos.Aqui no não se nascefica-se, o anjoélico traduziu livremente Basta; o luís de A Montanha Mágica ; o país relativo; esse espantoso silêncio, pelo que pude ver, são admiradores do suíço que passou os últimos 25 anos num hospício, sem escrever-dizem, e morreu, num dos seus passeios, no dia de natal. O Passeio está traduzido em português por uma editora de nome Granito. Alguém tem? Ia jurar que vocês tinham uma palavra a dizer. Enquanto esperamos vamos lendo
Selected Stories
By Robert Walser
New York Review Books; $12.95; 196 pp.
Caligrafia em Pedra
cALIGRAFIA EM PEDRA (I)
...
ilhas caligráficas
cercadas
por um mar
sem marés,
...
Mapa, Carlos de Oliveira
Um céu cobalto opalescente de água sobrevoa um mar convexo e, depois, durante o looping, o contrário e o contrário do contrário, ao ritmo do voltear planado de uma espiral acrobática que se contorce e lenta se espraia.
Suspenso deste mar de céu, uma colina invertida, um cone pendurado pela base, líquenes que escorrem atados a um vértice pardo.
Uma linha pontilhada a branco espuma, recorte finíssimo, faz a fronteira entre as mil gradações do verde cónico e os infinitos azuis planos.
Mais uma cor ainda, uma gota púrpura, do lado de dentro do musgo. Uma última cor, um ponto a negro, por enquanto imóvel, ‘sobre o lado esquerdo, a metade mais gasta’ dessa mancha de sangue que o vento esmaga.
---------------------
cALIGRAFIA EM PEDRA (II)
...
e segues
nesse passo
que mal pisa
o silêncio,...
Rasto, Carlos de Oliveira
Este ponto a negro, fixo, é o risco de um homem, que se põe em marcha, desenha um salto e some-se por uma fresta onde o musgo é mais sombrio. Desaparece ou guarda-se invisível até reaparecer mais tarde, mais acima e mais perto. É André Bonirre, cego de luz ao romper do fundo. Recomeça a escalada em esforço, rumo ao vértice, o cume. Aí chegado, recolhe-se em êxtase, os olhos marejados, se os víssemos, repousam contemplativos perdendo-se nos céus marinhos. Num sobressalto, fixa o céu, leva as mãos abertas à boca que se abre e eu ouço um grito, uma palavra trovejada, e lanço também o meu grito de caçador e os dois ecos propagam-se entrelaçados e distantes desfazem-se já um som único.
--------------------------------
cALIGRAFIA EM PEDRA (III)
...
numa caligrafia
de letras
vagueando,
...
Estalactite, Carlos de Oliveira
... os factos narrados são verdadeiros, talvez com imprecisões menores. A mancha rubra será em rigor um rectângulo e talvez seja ocre se essa for a cor do telhado da casa do Museu do Vulcão dos Capelinhos. A entrada do poço existe, colada às paredes em pedra nua. O poço é de facto um túnel, arbóreo, opaco, muito íngreme. Manteve-se invisível, porque indescritível, esta parte do trajecto em pura espeleologia vegetal. Autêntico foi o êxtase contemplativo de André, mas não se disse do espanto da descoberta – o cume é um ninho gigante, uma minúscula cratera ladrilhada. O primeiro grito é real e é expelido quando ele avista, sobre a lama gretada, numa caligrafia de letras vagueando, um poema universal, escrito pedra a pedra - L I B E R D A D E.. depois, o açor elevou-se mais alto até ser um ponto indistinguível.
Estes os factos vividos por André Bonirre nesta micropaisagem entre duas memórias naquela busca ao meio dos oceanos gorada não inteiramente – aí estão vestígios, versos soltos de Ana Paula Inácio – pedras, margas, basalto, xisto.. no lado incerto onde bate o vento.. à espera que o tempo faça o resto.. fechada em código toda a escrita.. até se dissolver em pó.
André Bonirre
...
ilhas caligráficas
cercadas
por um mar
sem marés,
...
Mapa, Carlos de Oliveira
Um céu cobalto opalescente de água sobrevoa um mar convexo e, depois, durante o looping, o contrário e o contrário do contrário, ao ritmo do voltear planado de uma espiral acrobática que se contorce e lenta se espraia.
Suspenso deste mar de céu, uma colina invertida, um cone pendurado pela base, líquenes que escorrem atados a um vértice pardo.
Uma linha pontilhada a branco espuma, recorte finíssimo, faz a fronteira entre as mil gradações do verde cónico e os infinitos azuis planos.
Mais uma cor ainda, uma gota púrpura, do lado de dentro do musgo. Uma última cor, um ponto a negro, por enquanto imóvel, ‘sobre o lado esquerdo, a metade mais gasta’ dessa mancha de sangue que o vento esmaga.
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cALIGRAFIA EM PEDRA (II)
...
e segues
nesse passo
que mal pisa
o silêncio,...
Rasto, Carlos de Oliveira
Este ponto a negro, fixo, é o risco de um homem, que se põe em marcha, desenha um salto e some-se por uma fresta onde o musgo é mais sombrio. Desaparece ou guarda-se invisível até reaparecer mais tarde, mais acima e mais perto. É André Bonirre, cego de luz ao romper do fundo. Recomeça a escalada em esforço, rumo ao vértice, o cume. Aí chegado, recolhe-se em êxtase, os olhos marejados, se os víssemos, repousam contemplativos perdendo-se nos céus marinhos. Num sobressalto, fixa o céu, leva as mãos abertas à boca que se abre e eu ouço um grito, uma palavra trovejada, e lanço também o meu grito de caçador e os dois ecos propagam-se entrelaçados e distantes desfazem-se já um som único.
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cALIGRAFIA EM PEDRA (III)
...
numa caligrafia
de letras
vagueando,
...
Estalactite, Carlos de Oliveira
... os factos narrados são verdadeiros, talvez com imprecisões menores. A mancha rubra será em rigor um rectângulo e talvez seja ocre se essa for a cor do telhado da casa do Museu do Vulcão dos Capelinhos. A entrada do poço existe, colada às paredes em pedra nua. O poço é de facto um túnel, arbóreo, opaco, muito íngreme. Manteve-se invisível, porque indescritível, esta parte do trajecto em pura espeleologia vegetal. Autêntico foi o êxtase contemplativo de André, mas não se disse do espanto da descoberta – o cume é um ninho gigante, uma minúscula cratera ladrilhada. O primeiro grito é real e é expelido quando ele avista, sobre a lama gretada, numa caligrafia de letras vagueando, um poema universal, escrito pedra a pedra - L I B E R D A D E.. depois, o açor elevou-se mais alto até ser um ponto indistinguível.
Estes os factos vividos por André Bonirre nesta micropaisagem entre duas memórias naquela busca ao meio dos oceanos gorada não inteiramente – aí estão vestígios, versos soltos de Ana Paula Inácio – pedras, margas, basalto, xisto.. no lado incerto onde bate o vento.. à espera que o tempo faça o resto.. fechada em código toda a escrita.. até se dissolver em pó.
André Bonirre
Ilustração científica by mail
Saiu mais um número da revista CAIS, editada pelo Círculo de Apoio à Integração dos Sem-abrigo http://www.cais.pt, o nª79 de Setembro 2003, dedicado ao Museu da Lourinhã, com variadas imagens e ilustrações paleontológicas e um um apontamento sobre Ilustração Paleontológica da autoria do Eng.Simão Mateus, ilustrador do Museu.
André Bonirre
André Bonirre
Agradecimentos
Ao Pedro Caeiro pela referência ao Dicionário (mandem palavras e os seus usos, de preferência palavras raras e delicadas). Ao Zé Mário pela atenção. Ao azul cobalto pelas cores que usa. Ao 100nada pela generosidade. Ao Aviz porque sim.
Acoimado e feliz
Uma vez por mês sou acoimado (o carro não fez a vistoria, falta-me sempre um documento, atendo o TM em andamento, estaciono onde não devia, tenho amolgadelas a mais, ando depressa nos locais errados). Telefono primeiro a um polícia amigo, depois ao comandante, a seguir ao coronel que está agora à frente da gnr. A seguir vou pagar, contente por viver num estado de direito.
Trabalho de Casa: o dicionário de O Mal
alcachinar - curvar; alquebrar; curvar-se; encolher-se; amarrecar-se; acabrunhar-se.ex. a sua silhueta alcachinada, sinal do percurso que fizera para conseguir ocupar o cargo que agora detém, acentuava-se ao lado do sorriso bonacheirão do senhor da bengala.
alquilar - alugar ou tomar de aluguer ex. tinha estranhado a palavra quando a vira pela primeira vez e afinal também em português se pode alquilar um espaço que se quer ocupar sem ter (pela língua nos aproximamos dos castelhanos).
amaxofobia - medo mórbido aos veículos em marcha ex. não fossemos dependentes deles, em breve todos sofreríamos de amaxofobia.
amocambar - juntar em mocambos (mocambo - bras.: grande moita onde se abriga o gado nos sertões; abrigo de quem vigia a lavoura ou as plantações); esconder ex. amocamba-se, como quem se resguarda da vida
já agora, sabiam que alvalade quer dizer "espécie de estrado destinado a permitir que dele se vejam procissões e outras solenidades" e que tanto pode significar cadafalso como palanque? é só uma curiosidade, que eu no futebol não me meto...
O post da manhã
Há dias que sentia uma inefável leveza ao ler a folha do sôr zé manel furnandes, que é, como se percebe, o jornal onde escrevem alguns dos meus jornalistas favoritas (não, não foi um lapso freudiano). Só agora percebi o mistério: ele tem estado ausente.
Os meus livros, na última edição, tem um editorial da Tereza Coelho com uma pequena e vigorosa homenagem a Edward Said. Ora eu li na blogosfera, no dia em que se soube da morte de Said - e uma incrível tendência para esquecer a iniquidade fez-me esquecer a autoria, qualquer coisa como isto, :"RIP. Infelizmente as suas idéias não morreram." Quando finalmente a Cotovia editar Orientalismo (oh Cotovia, é preciso uma ajudinha de trabalho voluntário?) talvez o autor dessas linhas leia finalmente (felizmente) Said.
É tambem anunciada a fixação ne varietur de António Lobo Antunes, vítima de incorrecções e hipercorrecções por copistas e revisores. Quem o vai fixar é M. Alzira Seixo. Com todo o respeito: António, entregares-te assim a uma mulher, parece-me excessivo.
A direita xenófoba tem mais de 20% nos cantões de Vaud e de Généve. A foto que acompanha esta notícia é esclarecedora da boa alma do dirigente da formação que conquistou o voto destes cidadãos. Adieu Suisse romande, terra secular de exílio. E talvez, adeus Suíça: dizem que aos sete cinzentos se juntará agora um castanho.
Os meus livros, na última edição, tem um editorial da Tereza Coelho com uma pequena e vigorosa homenagem a Edward Said. Ora eu li na blogosfera, no dia em que se soube da morte de Said - e uma incrível tendência para esquecer a iniquidade fez-me esquecer a autoria, qualquer coisa como isto, :"RIP. Infelizmente as suas idéias não morreram." Quando finalmente a Cotovia editar Orientalismo (oh Cotovia, é preciso uma ajudinha de trabalho voluntário?) talvez o autor dessas linhas leia finalmente (felizmente) Said.
É tambem anunciada a fixação ne varietur de António Lobo Antunes, vítima de incorrecções e hipercorrecções por copistas e revisores. Quem o vai fixar é M. Alzira Seixo. Com todo o respeito: António, entregares-te assim a uma mulher, parece-me excessivo.
A direita xenófoba tem mais de 20% nos cantões de Vaud e de Généve. A foto que acompanha esta notícia é esclarecedora da boa alma do dirigente da formação que conquistou o voto destes cidadãos. Adieu Suisse romande, terra secular de exílio. E talvez, adeus Suíça: dizem que aos sete cinzentos se juntará agora um castanho.
21 Outubro 2003
Eras sempre tu
Ao meu pai
Da batina dos padres dos castigos na escola
Do redil dos polícias da comunhão solene
Da matinée dançante
Da tia vigilante
Da gentinha que havia
Do medo de ser pobre
Eras sempre tu quem me salvava
Da batina dos padres dos castigos na escola
Do redil dos polícias da comunhão solene
Da matinée dançante
Da tia vigilante
Da gentinha que havia
Do medo de ser pobre
Eras sempre tu quem me salvava
Trabalho de casa: o dicionário de O Mal
gnose: conhecimento superior do espírito
homem de palha: argumento contra um homem palha. Diz-se do que deturpa os argumentos de outro, por exemplo com falsas citações, para assim mais fácilmente as destruir. Ex: Valoroso, ganhou todas as polémicas contra homens de palha. Deve sentir-se muito sózinho.
epochê: a suspensão do juízo preconizada pelos cépticos (ex: em breve)
ataraxia: a tranquilidade depois da suspensão dos juízos (ex: em breve)
rogar o almocreve: chamar a telepizza, comprar a mercearia pela net.
Tua é a glória
Pai nosso que estás nos céus
Santificado seja o teu nome
Venha o teu reino
Faça-se a tua vontade assim no céu como na terra
O pão nosso sobresubstancial nos dai hoje
E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós
perdoamos aos nossos devedores
E não nos deixes cair em tentação
Mas livra-nos do mal
Porque teu é o reino
o poder
e a glória
Pai nosso dos cátaros ( em El hombre de mi vida, Manuel Vasquez Montalbán, Planeta, 2000)
Santificado seja o teu nome
Venha o teu reino
Faça-se a tua vontade assim no céu como na terra
O pão nosso sobresubstancial nos dai hoje
E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós
perdoamos aos nossos devedores
E não nos deixes cair em tentação
Mas livra-nos do mal
Porque teu é o reino
o poder
e a glória
Pai nosso dos cátaros ( em El hombre de mi vida, Manuel Vasquez Montalbán, Planeta, 2000)
Festa do Cinama Francês
Festa do Cinema Francês
Coimbra, cinema Avenida www.coimbra2003.pt
Hoje: Petites Coupures de Pascal Bonitzer com Kristin Scott Thomas, às 14:00h (faltem às aulas e ao emprego)
Tiresia de Bertrand Bonello, às 19:00h (“Tiresias tudo fez para ser de novo transformado em mulher”. Deixem os filhos nos infantários, não façam o jantar.)
Swimming Pool de François Ozon , às 21 :30h (Ponham o Francisco José Viegas a gravar. É às 22h na NTV).
Dos jornais(El Pais; Vanguardia)
Era un escritor incansable, abundantíssimo, y el unico problema fue limitar sus ansias de publicar todos los dias, en todas las paginas, sobre todas las questiones. (Juan Luis Cebrián, ex director de El Pais, a quem Mnuel V Montalbán chamou o sexto poder).
Pero Manolo no puedo haber muerto precisamente un dia en que no tengo bacalao en mi despensa (Maruja Torres)
Mientras escribía, en su casa, cocinaba: se levantaba del ordenador para ir a revolver un poco su guiso del dia. (Eduardo Haro Tegglen)
...durante un seminario en Sitges cuando, ante la alocución interminable y metafísica de un filósofo italiano sobre la postmodernidade, Manolo dijo en voz baja, casi inaudible: "Mire usted, yo soy un poeta..."
Estaba lleno de talento. Tal vez su problema era que le sobraba ese talento. (Manuel Vicent)
Hoy yo sé que perder a un antagonista entristece tanto como perder a un aliado. Quiizá más. Me alegro que Manuel Vasquéz Montalbán viera al menos una vez a su equipo campeón de Europa. Y la próxima vez que eso suceda, estoy seguro de que me acordaré de el y pensaré lo que también pienso y dijo ahora en su honor: Visca el Barça ( Javier Marias)
Era mucho más que un redactor era una redacción. (Carmen Balcells)
Manuel Vasquéz Montalbán (bibliografia sumária)
1963: Informe sobre información
1967: Una educación sentimental (poesia)
1971: Crónica sentimiental de España
1972: Yo maté a Kennedy (aparecimento de Pepe Carvalho)
1972:Cancionero general
1974: Tatuaje
1977: La soledad del Manager
1977: Diccionario del franquismo
1978: Los demonios familiares de Franco
1979: Os mares do Sul
1980: Las cocinas de España
1981: Assassinato no Comité Central (provavelmente o primeiro título a ser traduzido entre nós)
1981: Recetas imorales
1981: Os pássaros de Bangkok
1984: La rosa de Alexandria
1984: Mis almuerzos con gente inquietante
1985: O pianista
1985: Contre les gourmets
1986: Tempo para la mesa
1986: El Balneario
1987: Os alegres rapazes de Atzavara
1987: Pigmalión y otros relatos
1987: Las recetas de Carvalho
1987: Barcelona
1988: Quarteto
1988: El delantero centro fue asesinado al atardecer
1989: Escritos subnormales
1990: Galindez
1991: O labirinto grego
1991: Memoria y deseo ( recolha da poesia desde 1963 a 1990, incluindo Praga)
1992: Autobiografia do general Franco
1993: Sabotaje olimpico
1993: Ciudad (poesia)
1994: O Estrangulador
1995: Reflexiones de Robinsòn ante un bacalao
1996: O prémio
1997: Quinteto de Buenos Aires
1997: El escriba sentado
1998: César ou nada
1998: Deus entrou em Havana
1999: El señor de los bónsais
2000: El hombre de mi vida
2000: Marcos:el señor de los espejos
2002: Erec y Enide
2003: Geometrias de la memoria. Conversaciones. (no prelo)
2003 La aznaridade (no prelo)
2003: Milenio (no prelo)
1967: Una educación sentimental (poesia)
1971: Crónica sentimiental de España
1972: Yo maté a Kennedy (aparecimento de Pepe Carvalho)
1972:Cancionero general
1974: Tatuaje
1977: La soledad del Manager
1977: Diccionario del franquismo
1978: Los demonios familiares de Franco
1979: Os mares do Sul
1980: Las cocinas de España
1981: Assassinato no Comité Central (provavelmente o primeiro título a ser traduzido entre nós)
1981: Recetas imorales
1981: Os pássaros de Bangkok
1984: La rosa de Alexandria
1984: Mis almuerzos con gente inquietante
1985: O pianista
1985: Contre les gourmets
1986: Tempo para la mesa
1986: El Balneario
1987: Os alegres rapazes de Atzavara
1987: Pigmalión y otros relatos
1987: Las recetas de Carvalho
1987: Barcelona
1988: Quarteto
1988: El delantero centro fue asesinado al atardecer
1989: Escritos subnormales
1990: Galindez
1991: O labirinto grego
1991: Memoria y deseo ( recolha da poesia desde 1963 a 1990, incluindo Praga)
1992: Autobiografia do general Franco
1993: Sabotaje olimpico
1993: Ciudad (poesia)
1994: O Estrangulador
1995: Reflexiones de Robinsòn ante un bacalao
1996: O prémio
1997: Quinteto de Buenos Aires
1997: El escriba sentado
1998: César ou nada
1998: Deus entrou em Havana
1999: El señor de los bónsais
2000: El hombre de mi vida
2000: Marcos:el señor de los espejos
2002: Erec y Enide
2003: Geometrias de la memoria. Conversaciones. (no prelo)
2003 La aznaridade (no prelo)
2003: Milenio (no prelo)
Trabalho de Casa. Dicionário do Mal (2)
alfar-se: secar e engelhar-se (os frutos), apresentando alfas (manchas)
ex. todos os anos colhia delicadamente os frutos da sua terra antes que se alfassem
alfeire: terreno cercado onde se recolhem os porcos; chiqueiro; gado que não cria
ex. cuidava dos porcos no alfeire (aceitam-se sugestões para sentidos figurados...)
almádena: torre da mesquita donde se chamavam os crentes para a oração; minarete
ex. hoje a chamada vem da almádena, mas sai de um altifalante
almarge: terra de pasto, pastagem, prado
ex. depois da caminhada, descansaram no almarge
aplastar: desfraldar (as velas do navio); (bras.) fazer calar, extenuar
ex. aplastou os companheiros para conseguir sentir o silêncio
áptero: que é desprovido de asas
ex. o sonho dava-lhe asas. sabia que os ápteros não vão longe
apurpurado: coberto de púrpura, tirante a cor de púrpura, avermelhado
ex. falou da cor do céu em África ao pôr do sol. apurpurado não chega.
magnífico, dizia, sem o conseguir reduzir às cores.
aquiria: falta de mãos ou de uma delas
ex. a falta de largura de mãos não lhe deixava tocar aquele trecho. sentia-se
como se sofresse de aquiria
aravia: linguagem confusa; algaravia, linguagem arábica
ex. para quem o ouvia, era apenas uma aravia, mas falava na linguagem dos que
vivem isolados no meio do monte
arensar: soltar a voz (o cisne); a voz do cisne
ex. tremia todas as vezes que tinha de subir ao palco. lá esquecia-se de tudo.
arensava maravilhosamente (como sinónimo de cantar; esta vai definitivamente
para o dicionário das mais feias!)
arroio: pequena corrente de água não permanente; regato
ex. secara como um arroio no verão
atricado: diz-se do indivíduo que executa alegremente e com diligência um
trabalho manual
ex. empenhava-se. era atricado
20 Outubro 2003
O novelista gordo e o poeta magro
A minha idéia era ser artista. E acreditava que para ser um artista como deus manda tinha que vestir de negro, estar sempre desesperado, ser magro e ler Lautréamont nas esplanadas. Alimentei este equívoco durante anos até que me dei conta de que a alegria também existe. É uma ironia sobre tantos jovens malditos, embora não contra eles, porque os admiro. Mas eu perdi bastante contacto com a magreza e aproximo-me mais da figura do novelista gordo. O que também não está mal de todo, porque eu diria que os novelistas têm que ser gordos e os poetas magros.
(Enrique Vila-Mata ,entrevista a Serge Pamiès, El Pais, sábado, 18 de Outubro)
(Enrique Vila-Mata ,entrevista a Serge Pamiès, El Pais, sábado, 18 de Outubro)
Paris no se acaba nunca
Enrique Vila-Matas
Anagrama. Barcelona, 2003
240 pp 13 E
Uuuuffff! Acabamos de convalescer do Montano, ainda não tivémos tempo de respirar depois daquela conferência de Bordeaux e o nosso Enrique já está a lançar o seu novo livro. Um regresso à juventude e aos tempos que rodearam a sua estreia, auto-exilado na Paris dos anos 70. Promete!
Anagrama. Barcelona, 2003
240 pp 13 E
Uuuuffff! Acabamos de convalescer do Montano, ainda não tivémos tempo de respirar depois daquela conferência de Bordeaux e o nosso Enrique já está a lançar o seu novo livro. Um regresso à juventude e aos tempos que rodearam a sua estreia, auto-exilado na Paris dos anos 70. Promete!
Problemas de fígado
Primeiro fígado, um fígado mau – matou-se a trabalhar para proteger o fígado, só bebia bebidas caras. Segundo fígado, um fígado fraco – para defender o fígado desguarneceu o queixo, caiu knockout. Terceiro fígado, um fígado/baço- respectivamente, do lado direito e do lado esquerdo.
André Bonirre
André Bonirre
Prendas
Para claire lunar o último disco de Robert Wyatt, Cuckooland, uma preciosidade com outra dentro: uma versão de Insensatez de Jobim, que dá vontade de ir ao original, regressar e no fim agradecer a todos e a ela sobretudo que traz na lapela este nome corajoso.
Para a Alexandra, by mail, o livro de Vila-Matas, El mal de Montano. Uma prenda perigosa porque ela vai adoecer. Mas conheço a história natural desta doença e posso assegurar um desfecho feliz.
Para o CAM o livrinho cor de Marfim de Derrida .
Para o André Bonirre uma faca de cozinha e uma almotolia em materiais não cortantes.
Para o António e o Daniel Tecelão, uma direcção e votos de bons passeios: www.bestanca.com . Quantos mais o conhecerem como ele é, o vale do Bestança, mais o defenderão.
Para o Paulo, Spoon River, Uma Antologia de Edgar Lee Masters, tradução e prefácio de José Miguel Silva, ed Relógio D'Água, setembro de 2003173 pp, 14 E, Edição bilingue.
Para a Joana : Le Dictionnaire des mots délicats.
Para o Quartzo et al.: o poema da Antologia de O Mal que hoje ainda editaremos e os agradecimentos pela boa poesia que têm trazido e pelo resto. Vocês são mesmo maus, caramba!
Para a malta da leiturapartilhada o ensaio de Malcolm Bradbury sobre Virginia Woolf publicado em The modern world Ten great writers, 1988. E um pedido de desculpas pela falta de acedia.
Trabalho de casa: o diccionário de O Mal
fintar: aplicado no sentido de levedar, fermentar. Ex.: deixámos o pão a fintar durante uma hora. Permite utilizações figuradas, claro: Não fintes o amor mais do que ele permite. Utilizada ainda na acepção de imposto, ou quotização voluntária. ex: Afinal sempre vão distribuir as fintas dos fogos.
abraxas: palavra mística da seita gnóstica dos basilidianos(séc.II). As 365 emanações de deus. Também referida como abrásax ( e intermutabilidadedo x com o s aponta para o número 3).
abrejar: tornar-se igual ao brejo (pantano)
abruptude: movimento repentino; ímpeto; impulso. ex:Censuraram aos estudantes a acédia e agora reprovam-lhes a abruptude.
absconso: escondido; abscôndito. ex: absconsa está ainda a tua finta para este diccionário.Mas nós acodiamos.
A paixão (post)uma
A jovem Sofia ao fazer compras no Continente apaixonou-se e foi correspondida. Ele veio, à vista de um carro carregado de esperança. Enquanto se esforçava por caminhar ao seu passo deu conta que os olhos dela se arredavam para um lado que ele não sabia. Quando ela acabou o post o rapaz tinha desistido. Mas, dupla ironia, não é que ele tinha um blog onde escreveu a cena mas-de-outra-forma? Talvez um dia se encontrem no Tecnohrati.
Enviado pelo Vasco
Enviado pelo Vasco
19 Outubro 2003
Chinos de China
en Panama Air
las azafatas
son muñecas mestizas
de orquídea negra y mujer
los chinos roncan cansacios
reconocen la Coca Cola y el huevo duro
trabajarán
tierras ocultas en selvas roturadas
o buscarán el oro negro en bosques aterrados
las azafatas se casarán con petroleros o hacendaos
y morirán degolladas por los hijos de estes chinos
en el ano dos mil.
(M.V:Montalbán. Pero el viajero que huye)
en Panama Air
las azafatas
son muñecas mestizas
de orquídea negra y mujer
los chinos roncan cansacios
reconocen la Coca Cola y el huevo duro
trabajarán
tierras ocultas en selvas roturadas
o buscarán el oro negro en bosques aterrados
las azafatas se casarán con petroleros o hacendaos
y morirán degolladas por los hijos de estes chinos
en el ano dos mil.
(M.V:Montalbán. Pero el viajero que huye)
Manuel Vasquéz Montalbán
Aparentemente, estamos en una situacão óptima para el establishment: ellos se lo guisan y ellos se los comen. (El Europeo, 1997)
No Aeroporto Internacional de Banguecoque, há oito anos, enquanto esperava um voo de ligação para Frankfurt, senti um frio cuja origem não era capaz de precisar. Comprei, numa das poucas lojas abertas, um elefante cujas patas se desconjuntam de cada vez que se tenta levantar. A certa altura da madrugada passaram três irmãs da congregação da Beata Teresa de Calcutá. Mas nem essa visão me apaziguou. Hoje recebo a notícia da tua morte em trânsito, com o atraso habitual de quem nada espera dos periódicos e, sobretudo aos domingos, não abre a televisão, e aboa-se aquela angústia esquecida.
Esperava há algum tempo o livro que anunciaste em 1997: No século 21 aparecerá a novela Milénio, onde Carvalho dará a volta ao mundo e passará em revista os referentes míticos do século 20. Verá o que ficou de Hiroshima, de Sarajevo ou da San Francisco dos hippies dos 60, no final de um século que se caracterizou por construir ruínas. Esta novela será a última do Carvalho investigador e uma homenagem a Júlio Verne e também a D.Quijote e a Sancho. Levaste contigo, para a que seria a tua última viajem, as provas da primeira parte de Milénio, e de certa forma como desejaste, Pepe de Carvalho sobreviver-te-á. Viveste bem. Estiveste onde devias: nos cárceres de Franco, na movida como exercício quase poético, na explosão democrática do post franquismo e depois na crítica implacável ao sistema que continua a criar injustiça, desigualdade e desordem ao mesmo tempo que, e isso é ainda mais intolerável, se auto proclama como a única solução. Bebeste bem, comeste com requinte e disso deste receita. Defendeste o Barça, como parte do país da tua infância. Detestaste a escrita à procura de Prémio e a pesporrenta crítica engravatada, os que construíram um muro de betão entre as praias de Espanha e o resto do país, os dependentes de El Corte Inglés, o politicamente correcto incluindo na versão de esquerda. É verdade que o Pepe Carvalho queimou alguns livros. E que limpou o rabo a outros. Mas isso é para esquecer. Do Manifiesto Subnormal, Assassinato no Comité Central, passando pelos Mares do Sul, Pássaros em Banguecoque, O pianista, Franco, Galindez, deixaste-nos o que nunca te poderemos agradecer. A tua poesia não traduzida: Praga, Pero el viajero que buye; os teus ensaios sobre a Crónica Sentimental de Espanha.
Agora, em Dezembro, virá a primeira parte de Milénio e será a morte de Pepe Carvalho. Depois não entraremos mais numa livraria de Espanha com a esperança de encontrar um novo livro teu. Desaparece esta semana a tua coluna no El Pais.
Tu foste un hombre de mi vida, Manuel. Por cá continuaremos, enquanto não nos trair o coração. Uma coisa prometemos: levar, nem que sejam escondidas, a memória e a utopia. Sem medo: comendo, bebendo, amando. Cumprir o teu programa mínimo que era, vou-me lembrar: Criar problemas.
No Aeroporto Internacional de Banguecoque, há oito anos, enquanto esperava um voo de ligação para Frankfurt, senti um frio cuja origem não era capaz de precisar. Comprei, numa das poucas lojas abertas, um elefante cujas patas se desconjuntam de cada vez que se tenta levantar. A certa altura da madrugada passaram três irmãs da congregação da Beata Teresa de Calcutá. Mas nem essa visão me apaziguou. Hoje recebo a notícia da tua morte em trânsito, com o atraso habitual de quem nada espera dos periódicos e, sobretudo aos domingos, não abre a televisão, e aboa-se aquela angústia esquecida.
Esperava há algum tempo o livro que anunciaste em 1997: No século 21 aparecerá a novela Milénio, onde Carvalho dará a volta ao mundo e passará em revista os referentes míticos do século 20. Verá o que ficou de Hiroshima, de Sarajevo ou da San Francisco dos hippies dos 60, no final de um século que se caracterizou por construir ruínas. Esta novela será a última do Carvalho investigador e uma homenagem a Júlio Verne e também a D.Quijote e a Sancho. Levaste contigo, para a que seria a tua última viajem, as provas da primeira parte de Milénio, e de certa forma como desejaste, Pepe de Carvalho sobreviver-te-á. Viveste bem. Estiveste onde devias: nos cárceres de Franco, na movida como exercício quase poético, na explosão democrática do post franquismo e depois na crítica implacável ao sistema que continua a criar injustiça, desigualdade e desordem ao mesmo tempo que, e isso é ainda mais intolerável, se auto proclama como a única solução. Bebeste bem, comeste com requinte e disso deste receita. Defendeste o Barça, como parte do país da tua infância. Detestaste a escrita à procura de Prémio e a pesporrenta crítica engravatada, os que construíram um muro de betão entre as praias de Espanha e o resto do país, os dependentes de El Corte Inglés, o politicamente correcto incluindo na versão de esquerda. É verdade que o Pepe Carvalho queimou alguns livros. E que limpou o rabo a outros. Mas isso é para esquecer. Do Manifiesto Subnormal, Assassinato no Comité Central, passando pelos Mares do Sul, Pássaros em Banguecoque, O pianista, Franco, Galindez, deixaste-nos o que nunca te poderemos agradecer. A tua poesia não traduzida: Praga, Pero el viajero que buye; os teus ensaios sobre a Crónica Sentimental de Espanha.
Agora, em Dezembro, virá a primeira parte de Milénio e será a morte de Pepe Carvalho. Depois não entraremos mais numa livraria de Espanha com a esperança de encontrar um novo livro teu. Desaparece esta semana a tua coluna no El Pais.
Tu foste un hombre de mi vida, Manuel. Por cá continuaremos, enquanto não nos trair o coração. Uma coisa prometemos: levar, nem que sejam escondidas, a memória e a utopia. Sem medo: comendo, bebendo, amando. Cumprir o teu programa mínimo que era, vou-me lembrar: Criar problemas.
Programa linguístico: trabalho de casa
abioceno: local onde não existem seres vivos.
ex:No verão caminhou quase sempre no abioceno- mas só ao mostrar as fotos reparou.
aboar: estabelecer sinais para separar (um terreno); dar a inclinação ideal a uma janela ou porta deforma a que entre a luz desejada; clarear.
ex: escrevo às escuras, se me não aboas.
acange: aventureiro de guerra, mercenário.
ex:Assinada a paz os acanges foram dispensados. Constatada a sua perigosidade entregaram-lhes o Ministério das Questões Sociais.
acédia: enfraquecimento da vontade, apatia.
ex: Os que passam a vida a criticar aos estudantes a sua acédia preocupam-se agora com a sua impulsividade.
acme: ponto culminante, topo, climax. Acmeísta: movimento literário iniciado em San Petersburgo e que integrou Anna Akhmatova e Mandelstom.
exs. Quase no acme ela distraíu-se com um verso de Akhmatova.
Isso é bom ou mau?
Ainda o Zé Manel, ligeiramente eufórico:" Todos os titulares de órgãos de soberania, todos está a ver, saíram da Faculdade de Direito de Lisboa. E, para que não restem dúvidas, enumera, contando pelos dedos- tique expressivo que, sem querer, aprendeu com o colega-das-feiras (têm que lhe dizer) : o Presidente da República, ele próprio, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Presidente da Assembleia da República, etc, etc,...
Saíram todos da Faculdade de Direito de Lisboa dos anos finais da ditadura. E isso é bom ou mau?
Saíram todos da Faculdade de Direito de Lisboa dos anos finais da ditadura. E isso é bom ou mau?
Jantar de curso
Primeiro o Zé Manel, depois o Pedro. Confessaram ambos. O nosso pesadelo actual é a cristalização de um sonho juvenil. Mas não fomos nós que o sonhámos.
18 Outubro 2003
O Inverno
Choveu todo o dia. Vem aí o inverno. Oh meu deus! já me tinha esquecido: as mulheres abrem as arcas onde guardam aqueles panos horríveis com que vão tapar a pele, a dádiva distraída que vertem nas nossas mãos toscas de escultores. Restam-nos as disciplinas severas do inverno e a memória dos dias de alegria.
Programa Linguístico
Doze mil e trezentos verbetes no Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Usamos mil e tal, apenas. Terá que ser assim? Vamos aprender seis palavras novas cada dia.
odre
No banco corrido da associação de amigos do bestança ou na capadócia ou no banco em frente, confusão, mostras-me os odres e o odreiro.
Resposta de Danton aos seus acusadores
Na mesa de conferência tornada (transtornada) mesa de interrogatório, Danton desabotoa a jaqueta e a blusa até à pele, sob o olhar atónito do seu algoz. E toca-se na mama, longamente, calando a nauseabunda retórica do verdugo. É sempre assim que voltamos à luta, que riscamos o trilho destes dias.
Bestança, Cinfães
Até daqui a pouco, no vale do Bestança para o passeio de Outono. André, não vens? Nem tu, Loura? Alda, nunca mais?
A Morte de Danton
de Georg Büchner, encenação de Paulo Castro com Vera Mantero, Jo Stone, Paulo Castro, João Samões.
Produção da Casa das Artes de V.Nova de Famalicão.
TAGV, Coimbra, 17 de Outubro
Vera Mantero é Danton e Jo Stone Robespierre. A sentença de morte de Danton será ditada por um Robespierre implacável e executada pelo organizador da conferência que desde o início se suspeita estar armadilhada para condenar Danton. No seu estertor, Danton, o republicano, levanta o Rei de Copas para o público. Saint Just, que vê o espectáculo pela televisão, telefona para o programa e dita uma visão terrorista da revolução, comparando-a aos cataclismos naturais. O texto de Heiner Müller intercalado no de Büchner é excelente. O trabalho de actores bom mas a encenação parece pouco imaginativa e as soluções funcionam mas são previsíveis. Danton é enforcado com a Bandiera Rossa e Robespierre sai em passo de ganso. Ficam frases terríveis no ar:
" A inocência nunca treme diante da vigilância pública (Robespierre)"
"O vício tem de ser castigado. A virtude tem de governar através do terror." (Robespierre).
"Terrível é a doença que faz perder a memória. Deve parecer-se à morte ".(Danton)
À saída, em completo extase Manterino, estava o Paulo do Mundo Imaginado. Danton não morreu em vão, a crer pelo entusiamo com que Paulo acredita que mil e um bloggers mais a gente criativa das artes e ciências estão a mudar o mundo. Mesmo que seja só o mundo imaginado e o legado de Danton, esta noite, resida mais no feliz orgasmo com que Vera se transfigurava.
17 Outubro 2003
Mails ornitológicos
Não, não são novos desenvolvimentos do Flirt by Mail silenci[ado]oso há tempo demais.
É só um mail do Fernando Correia, conceituado ilustrador científico e presidente do GNSI-PT (Guild of Natural Science Illustrators Portugal Chapter, uma associação embrionária de ilustradores científicos portugueses e pessoas com afinidades com a ilustração, sem fins lucrativos), a dar notícia do “lançamento do volume 8, ‘Broadbills to Tapacullos’, da soberba e cuidada colecção Handbook of the Birds of the World, dedicada a toda a avifauna mundial. .. uma obra de referência obrigatória... exemplar em termos científicos e de apresentação gráfica”, editada pela Lynx Editions [www.hbw.com], que publicará os restantes 7 volumes à razão de um por ano.. e assim, mesmo sem os da Sofia, ficam garantidos mails ornitológicos até ao ano de 2010.
André Bonirre
Re: Insensatez
Um dia aprendi que quando os olhos se abrem é para sempre. Que uma vez visitado o deserto passamos a transportá-lo connosco sob a pele. Mesmo este mundo, que não era o que os meus olhos queriam ver, agora acomoda-se à forma aberta do meu olhar. Aprendi que o buraco que tenho no peito não decresce, não diminui, não fecha, não substitui. Está presente, por vezes adormecido, por vezes silenciado, por vezes morno como a pele debaixo das camisolas de lã, outras tantas grita, lateja, ferve na sua polpa de ferida aberta. Prova-o esta minha existência constante de soluços cardíacos. Um dia, como tu, entristeci demais, e não há regresso ao antes disso. Trago sombras nos olhos, umas vezes nota-se outras não. Ainda temo o apagar da luz, não gosto de acordar cedo, não gosto de ser chamada às tarefas mundanas. Escrevo, sabendo que nenhuma palavra alcança o mundo. Sonho, sabendo que a matéria dos meus sonhos não se compara ao contorno vivo de uma ausência.
posted by claire lunar, Littleblackspot
Re: Barman
Fui conduzido por um caminho que se cola aos vossos pés. Ele atrai e
alimenta-se da vontade dos que buscam a fronteira das coisas. A
atracção por ele é incomensurável e seduz os que fortes se julgam,
para enfrentar o que lhes apareça na busca da força redentora.
Iniciam a viagem no ponto comum ao semelhante e distinguem-se a
partir dali. Os intrépidos escolhem o vosso caminho. Mas isso não
basta para resistir ao mais duro dos percursos. O sol esconde-se e as
sombras pincelam temores em redor da criatura. Estreita-se o
horizonte do belo que perdura na memória. A resistência é abalada de
forma persistente. O bem e o mal não fazem sentido naquele momento
Encontro um atalho. Vislumbro uma nesga de sol e não medito sobre a
decisão em prática. Vou por ali. A claridade incomoda-me o espírito.
Sinto-me ofuscado pelos raios de luz mas não penso retomar a outra
via da redenção. Confundem-me com a uniformidade emanada da luz. “Por
aqui não chegas ao teu destino”. Duvido como sempre duvidei.
Entretanto uma árvore de semblante outonal coloca-se entre mim e o
Sol. A imagem que se me depara mostra-me o outro lado que conheci e
ao qual não resisti. Ouço os vossos passos e sei que vos espera o
sofrimento. Acredito que nos vamos encontrar num outro atalho
adiante...
posted by barman, Ouvido de Barman
alimenta-se da vontade dos que buscam a fronteira das coisas. A
atracção por ele é incomensurável e seduz os que fortes se julgam,
para enfrentar o que lhes apareça na busca da força redentora.
Iniciam a viagem no ponto comum ao semelhante e distinguem-se a
partir dali. Os intrépidos escolhem o vosso caminho. Mas isso não
basta para resistir ao mais duro dos percursos. O sol esconde-se e as
sombras pincelam temores em redor da criatura. Estreita-se o
horizonte do belo que perdura na memória. A resistência é abalada de
forma persistente. O bem e o mal não fazem sentido naquele momento
Encontro um atalho. Vislumbro uma nesga de sol e não medito sobre a
decisão em prática. Vou por ali. A claridade incomoda-me o espírito.
Sinto-me ofuscado pelos raios de luz mas não penso retomar a outra
via da redenção. Confundem-me com a uniformidade emanada da luz. “Por
aqui não chegas ao teu destino”. Duvido como sempre duvidei.
Entretanto uma árvore de semblante outonal coloca-se entre mim e o
Sol. A imagem que se me depara mostra-me o outro lado que conheci e
ao qual não resisti. Ouço os vossos passos e sei que vos espera o
sofrimento. Acredito que nos vamos encontrar num outro atalho
adiante...
posted by barman, Ouvido de Barman
Finalmente um abraço
Não foi no Teatro do Mundo. Foi no Zé Neto que nos abraçámos, uma semana depois dela te ter suturado, amorosamente, as tuas mãos decepadas. E ele, consciente da gravidade do momento, preparou uma soberba açorda de coentros para acompanhar os jaquinzinhos e as marmotas. Brindámos com vinho de Pias sob o olhar vigilante do Mal quando já o dever te reclamava.
Governo pode repôr a publicidade na Time
Depois de um responsável da revista norte americana ter explicado ao dr José Luís Arnaut que o artigo da Time não se destinava a discriminar as cidades de Braga, Viana, Melgaço, Pinhel, Caminha, Chaves, Miranda, Lamego, Régua,Covilhã, Castelo Branco e Fundão o governo prometeu repôr a publicidade, viabilizando assim económicamente o semanário. Por outro lado, um porta voz do grupo de cientistas da Universidade do Minho, Trás os Montes e Alto Douro e Beira Interior que estuda exaustivamente a prostituição feminina em regiões fronteiriças declarou, sob anonimato, ao Comité de Mulheres Sérias de Bragança que o fenómeno foi empolado pelo articulista americano. Segundo os dados disponíveis Bragança terá pouco mais de cem mulheres de alterne. O Comité não modificará as suas posições e exigências sem que os cientistas publiquem os resultados, o que se prevê para finais do próximo ano.
Efeméride
Passa hoje o centésimo décimo oitavo dia sobre a data em que José Pacheco Pereira prometeu comentar o fim de Flashback na TSF.
Ah, a política.
O editorialista mor, o verdadeiro, da folha do sor zé manel furnandes dedica ontem a sua prosa a Coimbra. O presidente da Associação Académica de Coimbra é chamado de mal educado por ter anunciado que não compareceria ao encontro com a nova ministra da Ciência e do Ensino Superior. Felizmente para o país que o presidente da A.A.C. não está sujeito a falta injustificada, processo disciplinar ou internamento para reeducação por fazer política sem ser de acordo com as directivas do editorialista mor ( ou do ex-ministro da Educação). No mesmo editorial, o reitor de Coimbra é elogiado por criticar os estudantes e taxado de demagogo por criticar o governo. Os estudantes maus andariam, de acordo com o editorialista mor, a fazer aquilo de que verdadeiramente gostam: torturar os caloiros. Reactualiza-se assim a tese da geração rasca, muito querida à folha, se bem se lembram. Agora que o fogoso estudante rasca de antanho é um sociobloguista bem comportado a banhos, o editorialista mor ficará talvez sem resposta. Momentaneamente desviado da tortura de um caloiro, um estudante a quem pedi um comentário mostrou-se surpreendido por o editorialista mor não estar no Iraque à procura de armas de destruição massiva, na ressaca dos festejos do 25-de-abril-de-lá.
16 Outubro 2003
Re: hugo
PLANNED OUTAGE
hoje
há cinco barcos à deriva
cinco passos a medo
em sete mares
há legiões de passos
multitudes de segredos
amanhã
haverá uma falta planeada
uma ausência antecipada
serão cinco hectares gretados
sete poços secos
ficarão pegadas senectas
posted by hugo, Ford Mustang
hoje
há cinco barcos à deriva
cinco passos a medo
em sete mares
há legiões de passos
multitudes de segredos
amanhã
haverá uma falta planeada
uma ausência antecipada
serão cinco hectares gretados
sete poços secos
ficarão pegadas senectas
posted by hugo, Ford Mustang
Marear
Isto aprendi à noite no sofá. No mar há ondas aberrantes – súbitas, solitárias, demolidoras, mortais – e as ondas berrantes que enrolam na areia e desmaiam e fazem os meninos berrar. Devemos cuidar-nos das primeiras, as outras são para brincar. Aprende-se muito na Odisseia.
André Bonirre
André Bonirre
Em muitos lugares e com muito empenho no 100nada uma generosa iniciativa.
15 Outubro 2003
Vale a pena
Porque gostamos de vos encontrar a todos os que escrevem (e lêm) mal como nós. Os que não aspiram a outra certeza que a andar por aí a confundir as coisas. Os que se sentem condenados pela macieira, árvore implacável, que nunca poderemos ultrapassar, os que na morte ( e chamaremos por enquanto à morte a essa contracção, a essa rigidez, "a morte sob a macieira") procuram o espanto da vida. Ouvimos uma de nós dizer: "eu sou gorda, gorda e baixa" e às vezes alguns"afastam-se com as suas frases, estão a subir cada vez mais alto como um balão, através da folhagem, para fora do nosso alcance". Podemos prometer: "Vou atrás dela, Neville. Vou segui-la cuidadosamente, para estar junto dela e a consolar quando cheia de raiva pensar: " Estou sózinha."
"Mas quando nos sentamos juntos, muito próximos, as palavras que dizemos fundem-nos uns nos outros. Aqui estamos debruados pela névoa." Até agora valeu sempre a pena estar aqui, quase sempre tremendo, numa taberna como esta, aqui, convosco.
(créditos de Virginia Woolf, As Ondas)
(Não) ZiguezaguiREi até aos Galápagos
adormeço enroscado à falta de abraço
à falta de abraço seco-me ao vento
seco-me ao vento quando venho do fundo
quando venho do fundo viajo com aguarelas
viajo com aguarelas sem a montanha
sem a montanha canso-me na planície depressa
de pressa
(não) apanho o comboio
em Quito
André Bonirre
Motors de corrida à noite por cabo
um carros com motors de corrida, duas motas com motors de corrida, três barcos com motors de corrida, quatro balões com motors de corrida, cinco carneiros de contar, vendo, motivo à vista.
André Bonirre
André Bonirre
Re: CAM
Amanhã irei conhecer-te antes e depois
das palavras na ante-câmara do teatro do mundo
na pequena caixa de sempre levarei alguns desejos
embrulhados com papel a condizer e laçarotes
falarei de olhos em baixo e mãos decepadas
e a minha boca há-de mover-se ao ritmo da tua
é tudo o que posso imaginar talvez
abandonar-me ao teu poder e depois
refugiar-me nas entranhas
do mundo.
Carlos Alberto Machado, Campo de Afectos
das palavras na ante-câmara do teatro do mundo
na pequena caixa de sempre levarei alguns desejos
embrulhados com papel a condizer e laçarotes
falarei de olhos em baixo e mãos decepadas
e a minha boca há-de mover-se ao ritmo da tua
é tudo o que posso imaginar talvez
abandonar-me ao teu poder e depois
refugiar-me nas entranhas
do mundo.
Carlos Alberto Machado, Campo de Afectos
Re:
A Elsa disse que se eu voasse
me dava um beijo no ar
Se a Rita ouvisse o que ela disse
mandava-me passear
E a Marta se visse ou eu contasse
rodopiava leve sem parar
Mas a Lara riu-se da minha tolice
e fez castelos no ar
Para que a Sara parasse com a tagarelice
e me levasse lá a passear
Ou a Rute cantasse com a sua meiguice
e eu dançasse sem parar
Depois a Lia disse que se eu sonhasse
me deixava cantarolar
Para que a Bia me acompanhasse, voasse, dançasse
como borboleta no ar
Mas se a Sofia soubesse ou adivinhasse
corria, ria e ia logo postar...
Enviado pela Armanda
me dava um beijo no ar
Se a Rita ouvisse o que ela disse
mandava-me passear
E a Marta se visse ou eu contasse
rodopiava leve sem parar
Mas a Lara riu-se da minha tolice
e fez castelos no ar
Para que a Sara parasse com a tagarelice
e me levasse lá a passear
Ou a Rute cantasse com a sua meiguice
e eu dançasse sem parar
Depois a Lia disse que se eu sonhasse
me deixava cantarolar
Para que a Bia me acompanhasse, voasse, dançasse
como borboleta no ar
Mas se a Sofia soubesse ou adivinhasse
corria, ria e ia logo postar...
Enviado pela Armanda
Re: RG
Se tivesse de escolher uma palavra, seria, perplexidade. Descobri-a muito cedo, numa tarde de praia adolescente, onde um livro me sussurrou a dimensão do céu. De então para cá, tem sido um desfilar de íntimos espantos. Desde muito cedo tive a prova de universos paralelos, até à universidade vivi em 12 escolas diferentes, muitas delas separadas por países de distância, talvez por isso me tenha sentido até muito tarde, estrangeiro no meu próprio corpo. Obtive a nacionalidade da minha pele, com o meu primeiro amor à distância, e foi com ela, que também descobri o meu amor pelas palavras. É claro que já conhecia palavras, como sangue, cor ou fumo, mas com ela aprendi outras mais silenciosas, penduradas na boca, nas mãos e no sexo escuro em tardes claras. Depois aprendi a palavra Inverno, num quarto vazio de uma cidade desconhecida. Felizmente, nunca tenho parado de aprender palavras novas, como amigo, viagem, teorema, azul, equação, lábios, céu, variável, vermelho, dor, complexo, abraço, sistema, morte, casa, entropia, chuva e riso, mas é com algum embaraço, que verifico a minha demora na palavra silêncio. Já mudei de casa 3 vezes e visitei 3 continentes, mas ele parece não me largar. Será que me podias dizer como soletrá-lo?
posted by RG, OzOnO
posted by RG, OzOnO
Re:Insensatez
O que sei de mim é pouco mais que os pés irremediavelmente gelados no inverno, o transtorno que é recordar um amor que se despediu no verão, a cicatriz funda abaixo do joelho esquerdo que não me deixa esquecer que em criança não quis aprender a andar de bicicleta. Tenho medo do escuro e do que nele habita, custa-me o primeiro silêncio da noite e a resignação de apagar a luz. Gosto dos cachecóis de muitas cores e de camisolas brancas em Dezembro, gosto do barulho dos comboios na estação, gosto dos gatos pequeninos quando ainda não têm senão garras e orelhas. O meu pecado mortal é a preguiça e o mal de que sofro é de intimismo excessivo. Tenho os olhos carregados de sombras e uma promessa de azul nas pálpebras cerradas. Um dia recriei-me numa figura que habita o papel, de olhos esbulhagados para o vazio.
posted by Claire Lunar
posted by Claire Lunar
14 Outubro 2003
Da teoria à prática do céu
Se continuas, solitariamente, por ruas e rios de paredes, nós perseguimos-te. Se somos bons em alguma coisa é nisso.
Livro Aberto
Livro Aberto de hoje: dois Gatos Fedorentos e um Desejo Casar. Faltava ali um Marreta, não era? O FJV como sempre muito bem, a manter a conversa e a esconder-se atrás das mãos cruzadas. Arranque lento e final em beleza. Se durasse mais dez minutos a coisa animava. Gosto dos livros que citaram ( Nelson Rodrigues de Flor de Obsessão, Campo das Letras, p.ex., Michel Houellebeck de Partículas Elementares e de Plataforma, Martin Amis) e do modo como o fizeram. Excelentes as escolhas (Auster, a poesia bilingue editada na Quasi).
O momento supremo- espero que tenham apreciado, senão revejam às horas impróprias que a RTP Um reserva para os livros, amanhã, para os sobreviventes narcotizados de todos os futebóis- foi a Teresa Siza a mostrar os seus livros e a forma como ela passava as mãos sobre as lombadas, a carícia subtil antes de os dedilhar.
O momento supremo- espero que tenham apreciado, senão revejam às horas impróprias que a RTP Um reserva para os livros, amanhã, para os sobreviventes narcotizados de todos os futebóis- foi a Teresa Siza a mostrar os seus livros e a forma como ela passava as mãos sobre as lombadas, a carícia subtil antes de os dedilhar.
Re:
esta não sou eu. é isto tantas vezes.
nos reflexos turvos das impressões dos outros espelho nenhum. esta não sou eu.
não eu no nervosismo com estranhos, não eu nos dias mare(j)ados, não eu no desconforto das vozes.
tenho um relógio que teima em atrasar quando vem para o meu pulso. tenho uma bicicleta de vinte e tantas velocidades que quase não uso. tenho um só anel, de lata. perdi a aliança de ouro e platina que o meu pai ofecerecera à minha mãe, depois disso nunca mais me emprestaram ou confiaram jóias. tenho os óculos empenados, depois me esquecer deles na cama e de lhes pôr o joelho esquerdo em cima, enquanto me esquecia de mim num beijo - dizem que beijo bem. vejo francamente mal do olho esquerdo. sou dextra. não conduzo muito. tenho as noites mal dormidas, tenho os dedos muito tortos, apesar disso, não diria feias as minhas mãos, tanto mais que me livrei da verruga que tinha na base do polegar. em criança usei calçado ortopédico, ainda hoje não são muito certos os pés, denunciam-me todas as solas de sapatos.
faço de conta que não me importo. importo-me quase sempre. lambo feridas todos os dias, não para que sarem, mas para que não sequem nunca.
há dias de muito medo, mas do que gosto mesmo é dos dias de muito vento.
posted by clAud, Tempo Dual
RE: André B.
Este é o André, um número mecanográfico num posto de trabalho de uma sociedade anónima.
Gosta de se pensar e apresenta-se aos íntimos como escritor profissional não literário fluente em linguagens de léxico pobre, reduzidíssimo, mas severas na sintaxe e exigentes no encadeamento lógico. Pratica uma escrita sincrética feita de excesso de nicotina, frases elementares e algum café. Os textos, sem manchas metafóricas e parcos em retórica, são textos de acção/execução e apropriadamente chamam-se utilizadores os seus leitores. Para ele, essência sempre foi naturalmente gasolina.
O André está a mudar, espantou-se com a Natureza do Mal. Ele, o bem não imobilizado parelha de um terminal cadastrado, começa a transformar-se ao ser tocado no TAGV pelos ‘pequenos ventres bojudos’, vê o ranger da ‘agitação de nádegas’ e Vila-Matas, sentiu-se a agarrar e a morrer, fascina-se, envia figos pingo de mel, ‘sofre dum mal de espanto’, ri-se agora como a Zazie.
A busca que fez ao meio dos oceanos gorou-se, está escrito no rolo do papiro. Não inteiramente.
André Bonirre
Gosta de se pensar e apresenta-se aos íntimos como escritor profissional não literário fluente em linguagens de léxico pobre, reduzidíssimo, mas severas na sintaxe e exigentes no encadeamento lógico. Pratica uma escrita sincrética feita de excesso de nicotina, frases elementares e algum café. Os textos, sem manchas metafóricas e parcos em retórica, são textos de acção/execução e apropriadamente chamam-se utilizadores os seus leitores. Para ele, essência sempre foi naturalmente gasolina.
O André está a mudar, espantou-se com a Natureza do Mal. Ele, o bem não imobilizado parelha de um terminal cadastrado, começa a transformar-se ao ser tocado no TAGV pelos ‘pequenos ventres bojudos’, vê o ranger da ‘agitação de nádegas’ e Vila-Matas, sentiu-se a agarrar e a morrer, fascina-se, envia figos pingo de mel, ‘sofre dum mal de espanto’, ri-se agora como a Zazie.
A busca que fez ao meio dos oceanos gorou-se, está escrito no rolo do papiro. Não inteiramente.
André Bonirre
Re:
Nunca me vi girassol, é animal a minha pele e aquilo que guarda e repete. Arredo os olhos se não mos sabem pedir, livro-os do espaço concreto se quero aconchegar-me. Desmancho um joelho, arranco a solidão a um pé descalço, lanço um braço e danço um acordeão furado que compõe respiração. Nasço em sequências certas do desencanto que me é fatal, cheirei cedo o meu cabresto. Persigo tudo o que não digo, sou a que tomba sem ruído. O meu terramoto é em mim que ruge, esqueci o princípio, é para sempre sem nome. É minha a casa dos mortos.
O André não veio. Deixam-nos alguns comentários umas almas penadas como eu. Nesta casa dos mortos podemos escrever o que quisermos que só ouviremos, penosamente, o nosso eco. Quando editei Emma Thompson olhei-a três segundos nos olhos (eu sei que não devia) e apaixonei-me. A merda é que isto é verdade. Agora como é que vou trabalhar sem estar de vigia à casa dos mortos?
Olhem bem
Olhem bem para esta face. Tudo o que nós queremos de uma mulher, tudo o que podemos desejar dela, está aqui.
Voltarei a este tema.
Re: R.
Tenho saudades do tempo em que tinha saudades do meu primeiro
namorado. Agora, tudo em mim arde depressa e me deixa sem
fôlego e não sei sequer dizer como tudo aconteceu. Nenhum dos
meus diários sobreviveu - rasgadas e queimadas as folhas. De
resto, nunca precisei de outro registo de lágrimas que não o
dos meus olhos. Pouco passa das oito da manhã e escrevo isto
no autocarro que me leva a Lisboa. Forço a letra torta contra
as curvas e o pavimento irregular do asfalto. De manhã, o meu
ritmo é outro. Preciso de tempo para me resgatar ao sono, para
recuperar o que de mim resta da noite, em rituais de água bem
quente e cosméticos. Nunca saio de casa sem maquilhagem;
ninguém precisa de conhecer o meu verdadeiro rosto. Quando
sozinha no metro, raramente me sento, num misto de absurda
timidez e voyeurismo (de pé, é sabido, é mais ampla a visão
geral). Dizem-me que não tenho ar de intelectual e, na
verdade, não me importa intercalar versos com conversas sobre
cortes e colorações de cabelo. Não sou já capaz de grandes
incêndios, como vos disse. Há na minha vida um terramoto com
nome de homem e isso é tudo. Com o Inverno, acentua-se a má
circulação do sangue nos pés e nas mãos e arrefeço. Desconheço
o mundo e sempre me surpreendem os elogios. Irrita-me a
distinção entre o virtual e o real - problema meu, talvez, que
sempre misturo tudo. Pouco mais me resta a não ser dizer que
não gosto de me expor desta maneira, quanto mais não seja
porque, mesmo dizendo a verdade, sempre minto. Faço-o, no
entanto, porque, sei-o, se não fosse isto, estaria mais
sozinha.
R
namorado. Agora, tudo em mim arde depressa e me deixa sem
fôlego e não sei sequer dizer como tudo aconteceu. Nenhum dos
meus diários sobreviveu - rasgadas e queimadas as folhas. De
resto, nunca precisei de outro registo de lágrimas que não o
dos meus olhos. Pouco passa das oito da manhã e escrevo isto
no autocarro que me leva a Lisboa. Forço a letra torta contra
as curvas e o pavimento irregular do asfalto. De manhã, o meu
ritmo é outro. Preciso de tempo para me resgatar ao sono, para
recuperar o que de mim resta da noite, em rituais de água bem
quente e cosméticos. Nunca saio de casa sem maquilhagem;
ninguém precisa de conhecer o meu verdadeiro rosto. Quando
sozinha no metro, raramente me sento, num misto de absurda
timidez e voyeurismo (de pé, é sabido, é mais ampla a visão
geral). Dizem-me que não tenho ar de intelectual e, na
verdade, não me importa intercalar versos com conversas sobre
cortes e colorações de cabelo. Não sou já capaz de grandes
incêndios, como vos disse. Há na minha vida um terramoto com
nome de homem e isso é tudo. Com o Inverno, acentua-se a má
circulação do sangue nos pés e nas mãos e arrefeço. Desconheço
o mundo e sempre me surpreendem os elogios. Irrita-me a
distinção entre o virtual e o real - problema meu, talvez, que
sempre misturo tudo. Pouco mais me resta a não ser dizer que
não gosto de me expor desta maneira, quanto mais não seja
porque, mesmo dizendo a verdade, sempre minto. Faço-o, no
entanto, porque, sei-o, se não fosse isto, estaria mais
sozinha.
R
A frase do dia
As pessoas quando são maiores e vivem num país democrata deslocam-se às casas que querem
Cidadão brigantino ao repórter Estácio Olímpio (Antena UM, 9:00)
Cidadão brigantino ao repórter Estácio Olímpio (Antena UM, 9:00)
Mila Jovovich veste Armani
Neste café não é permitido
o estudo nem a leitura.
Já só temos bilhetes para sócios.
Dia dos mancebos cria divisões.
Temos carne de gado barrosão.
Embalsamado em vinte e quatro
mausoléu encerrado para reparações.
Cuidado com a privatização das lezírias.
Lia mais ensaio agora é ficção.
Mila Jovovich veste Armani
Re:
Acordo e não falo
sussurro
tenho medo de experimentar a voz
de não ter voz, não reconhecer o som
tenho medo que me doa o som da voz
que me doa a voz.
Acordo e levanto-me
sussurro, sussurros
ouço como eco
é uma doença, uma epidemia
súbita, simpática
ninguém usa a voz
o jogo não acaba, muda
de nível
usa os olhos
usa as mãos traz os gestos
usa o corpo traz o calor.
Avanço mais
sussurro, sopros
de vento do tempo levam
páginas do calendário
hoje estava marcado
alguém levanta a voz
não estranha o silêncio
da resposta
o esforço
a dor no sussurro.
Ando e ouço
trazem-me leite com mel
recomendam-me chá de casca de cebola
inquietam-se com a minha doença tão prolongada
servem-me sumo de laranja
mais páginas caiem
acompanhando as folhas sazonais
enfeitam o chão
piso-as suavemente e
chhuuu
não tomo nenhum conselho.
Amanhã acordo e
não falo
sussurro.
PC
sussurro
tenho medo de experimentar a voz
de não ter voz, não reconhecer o som
tenho medo que me doa o som da voz
que me doa a voz.
Acordo e levanto-me
sussurro, sussurros
ouço como eco
é uma doença, uma epidemia
súbita, simpática
ninguém usa a voz
o jogo não acaba, muda
de nível
usa os olhos
usa as mãos traz os gestos
usa o corpo traz o calor.
Avanço mais
sussurro, sopros
de vento do tempo levam
páginas do calendário
hoje estava marcado
alguém levanta a voz
não estranha o silêncio
da resposta
o esforço
a dor no sussurro.
Ando e ouço
trazem-me leite com mel
recomendam-me chá de casca de cebola
inquietam-se com a minha doença tão prolongada
servem-me sumo de laranja
mais páginas caiem
acompanhando as folhas sazonais
enfeitam o chão
piso-as suavemente e
chhuuu
não tomo nenhum conselho.
Amanhã acordo e
não falo
sussurro.
PC
13 Outubro 2003
Re:humberto
Leio-vos a contra gosto. Como as novelas, na televisão. Não gosto muito- mas tenho tempo e preciso de o preencher. Sou metódico. Dedico-vos dez minutos depois da sessão de atelier que me ocupa as tardes. Do Luís ( e agora do André) nada me surpreende. Leio-os há tempo de mais. O PC, prefiro ir ao blogue dele, sempre é mais genuíno. Agora a Sofia, é mesmo o seu nome? desconcerta-me. Sim eu sou Humberto. Embora nos comentários assine com minúscula, não aspiro a nenhuma ocultação. Desaprovo o jogo de pseudónimos e além disso não teria imaginação para escolher um. Humberto é o meu nome e por isso chamo-lhe Sofia acreditando não estar a ser enganado. O que me afasta do que escreve, Sofia é que invadiu os meus domínios. Toda a vida trabalhei com a matéria que, agora, com uma facilidade quase indecente, nomeia. Eu não posso exigir-lhe mais: se lhe faltasse talento seria um alívio. Facilmente a substituiria, na agenda do fim de tarde. Fosse a sua atitude mais ligeira para com os mortos e havia de lhe fazer chegar a minha desaprovação. Não dominasse essa metalinguagem com que se diz a nossa ciência, e eu acharia que, como o Luís com a literatura, a Sofia falava do que não conhecia. Mas quase tudo em si me parece perfeito. Não fora esse frequente tropeção doméstico, esse desejo absurdo de sofrer que parece ser por aí tão comum nas escreventes da sua geração e eu julgaria estar face a um enfraquecimento crepuscular da minha razão: alguns dias, ao abrir o écran para a minha obrigação vespertina, julgo encontrar, ao lê-la, o que em tempos não muito distantes, escrevi.
recebido no mail de anaturezadomal
recebido no mail de anaturezadomal
Intolerância a falhas
{ o especialista
faz
a
a) apresentação
[ tipologia em estrela.. backbone a gigabit.. Switchs redundantes.. ] // aplausos
e
formula
b) o problema
[ .. empastelamento.. desempenho degradado.. ] // colapso
}
{ os inspectores
trazem o
c) diagnóstico
[ .. persistentes mensagens aberrantes.. confundimento.. I’m the Master..
Switch serial number A454XZ = desordem anarquia caos ] // esquizo aleatório
e
ditam
d) o veredicto
[ A454XZ.. retoma recusada.. irrecuperável..
=>
Para Abate! ] // actualizar cadastro
}
{ [ Despacho,
(aos SI,)
execute-se ] }
André Bonirre
faz
a
a) apresentação
[ tipologia em estrela.. backbone a gigabit.. Switchs redundantes.. ] // aplausos
e
formula
b) o problema
[ .. empastelamento.. desempenho degradado.. ] // colapso
}
{ os inspectores
trazem o
c) diagnóstico
[ .. persistentes mensagens aberrantes.. confundimento.. I’m the Master..
Switch serial number A454XZ = desordem anarquia caos ] // esquizo aleatório
e
ditam
d) o veredicto
[ A454XZ.. retoma recusada.. irrecuperável..
=>
Para Abate! ] // actualizar cadastro
}
{ [ Despacho,
(aos SI,)
execute-se ] }
André Bonirre
Re: Sandra Costa
eu sou a das sombras e do sol a que usa a linguagem dos pássaros a um canto da janela como se esse fosse o fio invisível que nos prende ao chão e não nos permite voar a que abrevia fórmulas de entender o mundo sem nada saber de física e matemática a que não aguenta a imensidão um anjo às costas de costas voltadas para o futuro e assim explode em danças estáticas no princípio de um claustro a que tem dificuldades em convocar narradores para as palavras e as liberta sem pudor a que gosta de chuva sendo a do sol a que em certas noites de verão se enrodilha de desejo sendo a das sombras
eu sou a que me persegue e tudo fica por dizer dizendo tudo
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eu sou a que me persegue e tudo fica por dizer dizendo tudo
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Re:jpn
esta palavra não é esta palavra, apenas a eternidade que demorou a escrever-se. pudesse eu dar-vos esse tempo. só escreves coisas tristes, disseste, enquanto fechavas à chave...o que é que fechavas à chave? não me lembro o que era. só me ocorre o barulho das voltas com que a chave torneava a fechadura. o som. o som no tempo. não escreveria outra coisa se soubesse. mas não sei. tenho que meter tudo num corpo e... E o quê? há pouca coisa mais verdadeira em mim do que as personagens que criei. criaste o quê? como és capaz de dizer isso? elas vieram ter contigo, tive de te abanar, despertar... A Esmeralda...A Esmeralda o quê, esqueceste-te, pá, há quase vinte anos, a resende fazia lisboa-braga em viagens pirata, ela veio, Senora del Rio, lembras-te?, só tinha um lugar livre, ao teu lado, e tu...
A Esmeralda dizia,
"só gostava que houvesse menos cabrões no mundo. nem pedia mais nenhum desejo. gostava até que não houvesse nenhum cabrão no mundo. Fosse português, espanhol, inglês ou chinês, não importa...já alguma vez cheiraste um cabresto? Devia haver neste mundo uma lei que obrigasse toda a gente à nascença a cheirar um cabrão. Toda a gente, fosse católica, apostólica ou romana, todos tinham de dar com os cornos naquele fedor. E tinha de ser à nascença, um minuto depois já era tarde de mais..."
posted by jpn (respirar o mesmo ar)
A Esmeralda dizia,
"só gostava que houvesse menos cabrões no mundo. nem pedia mais nenhum desejo. gostava até que não houvesse nenhum cabrão no mundo. Fosse português, espanhol, inglês ou chinês, não importa...já alguma vez cheiraste um cabresto? Devia haver neste mundo uma lei que obrigasse toda a gente à nascença a cheirar um cabrão. Toda a gente, fosse católica, apostólica ou romana, todos tinham de dar com os cornos naquele fedor. E tinha de ser à nascença, um minuto depois já era tarde de mais..."
posted by jpn (respirar o mesmo ar)
Blogando
Re: hmbf
a primeira vez que nasci foi numa cidade do antigo oeste, disparado para dentro de um útero que, anos mais tarde, serviria para estender a roupa suja de um corpo iniciado na morte. a segunda vez que nasci foi numa capital de aldeias divididas por praças deslavadas, numa paragem de autocarro, de madrugada, a aprender o «ofício de viver» com empenhada solidão. a terceira e última vez que nasci foi numa falésia de esquecimento, a tentar resolver a dor da traição e o ódio daí crescente. devo hoje ser um misto disso tudo, embrulhado em papel de medo, amarrotado, à espera de um destino que me caiba em sorte.
recebido no mail de anaturezadomal
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Bebo como tu
[Ao Manuel de Freitas]
Vou pelos teus sítios
calçada dos Mestres, rua de Campolide,
taberna de Dona Maria, ao Rego.
É domingo ou feriado
fugiram todos
ou casaram-se no verão
em todos os verões passados e futuros
com lista
e copo de água pago pelos pais
Peço as bebidas fortes
e lembro-me de ti
e dos teus versos.
François Villon foi meu contemporâneo
-literalmente, como diz o outro.
Sofri recentemente de um mal sem cura
A doença de Montano.
Nunca o cadáver de deus me atormentou
e sei que é do gin que bebo
o sentido que ao crepúsculo possa achar
ao que leio ou escrevo.
Do gin e do grepúsculo.
Aqui na tasca
debruçado sobre os teus versos
longe da livraria
onde ainda não pousou
o pó tóxico de mais um lançamento literário
o gato aproxima-se para lamber a mão
que não lerá nunca mais
os poetas mortos em 61
Aqui ao balcão
ou na mesa do fundo
vendo passar os que podem bem ser
os teus amigos
vivos ou mortos
um lugar como os outros
(oh mas bem melhor que os lugares
fúteis execráveis lugares deles)
para me encharcar
com a noção de gravidade
e do mistério da morte.
12 Outubro 2003
RE: CJ
Este sou eu no espelho tenho uma cicatriz de bisturí na cara e traços sumidos de uma luta a sério sou o cão da matilha sem chefe adormeço enroscado à falta de abraço seco-me ao vento quando venho do fundo viajo com aguarelas sem a montanha canso-me na planície depressa não apanhei o comboio em Quito nem ziguezaguiei até aos Galápagos guardo inteira uma resma de papel acetinado mate para uma BD com fotografias por acabar digo cada vez mais vezes sim releio mais do que escrevo vivo num sótão que tem uma cave ou talvez seja tudo isto ao contrário, olho no espelho o futuro arranco as portas da casa e, finalmente, danço uma milonga, ai, com o meu amor.
André Bonirre
André Bonirre
Vila-Matas
Não há nada para dizer. Salvo que, sem a literatura a vida não tem sentido.
Foi assim que Enrique Vila-Matas se dirigiu às cerca de 150 pessoas que tinham ocupado a Biblioteca Grand-Parc em Bordeaux, ontem sábado, passava pouco das cinco da tarde.
Na verdade ele disse: "No hay nada que decir, salvo que, sin la literatura, la vida no tiene sentido". Quase ninguém na assistência falava castelhano pelo que se seguiu um longo silêncio. Depois alguns sussurros, risos nervosos, agitação de nádegas, tosse. Enrique continuava silencioso. Parecia aborrecido, como se esperasse algo. Ao fim de algum tempo de indecisão um elemento da organizaçã levantou-se da segunda fila e disse: " On ne sait jamais quand M. Vila-Matas parle sérieusement." Enrique interrompeu perguntando-lhe quem era. Quando ele lhe declarou ser um editor, Vila-Matas disse, virado para o público: Trabajan con entusiasmo contra lo literario.Inimigos acérrimos de lo literario y aliados directos de la mugre de Pico.
Como alguns na assistência rissem, Enrique interpelou-os perguntando -lhes como ganhavam a vida: Nous sommes des écrivains, ouviu-se na sala. Vila-Matas olhou-os com um olhar severo, embora se saiba que não tem outras emoções que as literárias, e trovejou: Essa raça, imitadores do já feito, e gente absolutamente falha de ambição literária, embora não de ambições económicas, é uma praga ainda mais perniciosa que os editores.Nessa altura abeirei-me dele tentando perceber se tudo estava bem. "Não vês que o meu corpo é a própria história da literatura?"disse-me e pareceu sincero. Como conseguiste? ainda lhe perguntei. "Encharcaram-me em batatas no almoço dos poetas mortos."-retorquiu.
Carrefour des Littératures
Em Bordeaux e em muitas localidades de Acquitaine decorre a iniciativa "Ponts sur l'Europe" juntando autores ao público em espaços variados.
Hoje na Bibliothèque Grand-Parc era a vez de Enrique Vila-Matas. Os organizadores publicitavam o encontro sob a designação de Le Grand jeu de Vila-Matas.
Há dias foi a vez do nosso Manuel António Pina, saído da Leitura Partilhada ler poesia no Chateau les Izards.
No próximo sábado na Bibliothèque Mériadeck 15h
Poésie en fête !
présentation de l'Anthologie de la poésie portugaise
contemporaine par Michel Chandeigne.
Hoje na Bibliothèque Grand-Parc era a vez de Enrique Vila-Matas. Os organizadores publicitavam o encontro sob a designação de Le Grand jeu de Vila-Matas.
Há dias foi a vez do nosso Manuel António Pina, saído da Leitura Partilhada ler poesia no Chateau les Izards.
No próximo sábado na Bibliothèque Mériadeck 15h
Poésie en fête !
présentation de l'Anthologie de la poésie portugaise
contemporaine par Michel Chandeigne.
Dossier Maurice Blanchot
O magazine littéraire de outubro inclui um dossier sobre Maurice Blanchot : L'énigme Blanchot, com inéditos de Lacan e do próprio Blanchot e textos de Jacques Derrida, Michael Levinas, Jean-Luc Nancy e outros.
Antologia de O Mal: Manuel de Freitas
Cocset,2002
Não te esqueças de Casals,
do perfume sombrio das laranjeiras,
dos primeiros versos de Eugénio
ou daquele tio que desiludiste
ao dizeres que não era de mulher
o corpo que esses versos
mais amavam. Não te esqueças.
Tão depressa a morte cairá
sobre este poema. Recorda,
porém a buganvília que abraçava
a varanda da casa e os amigos
todos que lá iam. Volta a sentir
na tua mão o peso das mãos
que um dia tiveram a destreza
do arco sobre as cordas
- à mercê de uma música sem saída.
Não te esqueças.
Ou melhor:esquece-te.
in Büchlein für Johann Sebastian Bach, Assírio e Alvim (2003)
11 Outubro 2003
Re:Silvano
Não houve jogos florais na minha infãncia. Aprendi o sexo nos canaviais e tenho um problema com as mulheres. Ou elas comigo. As mulheres que conheci precisavam de demasiada atenção e eu, compreende, não me fixo. Foi talvez por isso que não dei para os estudos. As mulheres que me poderiam interessar são como as aulas de matemática. Exigem demasiado investimento sem que se perceba bem o benefício. Faço segurança numa empresa privada. Os meus amigos estão todos bem na vida. Para que se não cruzem comigo sujeito-me a ser escalado para os arredores, turnos que ninguém quer. Leio-a à noite, às escondidas, quando faço plantão no escritório de uma empresa. Para não ser descoberto entro sempre pelo Abrupto. Não compro livros. Não percebo de poesia. Entrei no seu blog ao engano, à procura da natureza do mal. E fui ficando. O único momento de elevação da minha vida é quando leio o que escreve. Uma vez requisitaram-me para um trabalho na morgue. Não sabia que havia tantas maneiras de se morrer e que se ficava assim. Tão solitário e exposto. Um homem não pode dar parte de fraco. Mas aquilo não era sítio para mim. Quando achei que não dava nas vistas pedi escusa. Agora que a conheço, desculpe-me a ousadia, vejo as coisas de outro modo. Alegra-me que possa a ver em todos os sítios gente como a menina. Para alguns sobre quem escreve, deve ter sido o seu o único olhar carinhoso que sobre eles caíu. Olhe que sei do que falo. Conheço-os. Como não havia de os conhecer.
recebido no mail de anaturezadomal
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Re:
the dreams i dream instead
encontrei o miúdo que sonhava com leonardo numa janela de hotel de viena. pareceu-me fitar o movimento do meu cigarro nas mãos nervosas. quatro horas da manhã e a eterna interrogação: vive ainda o atrevimento? sentes ainda o corpo a balançar para a frente quando pressentes o vale imenso e o nevoeiro no rosto? onde, no dia de hoje, encontraste a página que te fez levantar hirto de espanto? onde procuraste o traço com a cor que te corta a frase? e aquele olhar no vazio que tantas vezes emprestaste ao calvin?
continuo a olhar o miúdo nos olhos e a responder a todas as perguntas. temo, mais do que nunca, o dia em que vou desviar o olhar.
Enviado por Paulo
encontrei o miúdo que sonhava com leonardo numa janela de hotel de viena. pareceu-me fitar o movimento do meu cigarro nas mãos nervosas. quatro horas da manhã e a eterna interrogação: vive ainda o atrevimento? sentes ainda o corpo a balançar para a frente quando pressentes o vale imenso e o nevoeiro no rosto? onde, no dia de hoje, encontraste a página que te fez levantar hirto de espanto? onde procuraste o traço com a cor que te corta a frase? e aquele olhar no vazio que tantas vezes emprestaste ao calvin?
continuo a olhar o miúdo nos olhos e a responder a todas as perguntas. temo, mais do que nunca, o dia em que vou desviar o olhar.
Enviado por Paulo
Re:
Re:Respondo-te
Re:Re:Resisto ao medo
Re:Re:Re:Reclamo igualdade
Re:Re:Re:Re:Rendo-me à literatura
Re:Re:Re:Re:Re:Respiro melhor no mar
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Renuncio à renunciação
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Recordo-me de alguns
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Renasço a cada sorriso dele
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Reduzo-me à minha insignificância
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Refugio-me na minha ggaguez mental
Enviado por ATL
Re:Re:Resisto ao medo
Re:Re:Re:Reclamo igualdade
Re:Re:Re:Re:Rendo-me à literatura
Re:Re:Re:Re:Re:Respiro melhor no mar
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Renuncio à renunciação
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Recordo-me de alguns
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Renasço a cada sorriso dele
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Reduzo-me à minha insignificância
Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Re:Refugio-me na minha ggaguez mental
Enviado por ATL
10 Outubro 2003
Custa mas enriquece
O nomeado tomou posse e disse “é um desafio que aceito com muito sacrifício mas estou convicto de que sairei mais enriquecido”, isto veio escrito sic nos jornais, era uma vã promessa inaugural. Agora largada a posse, é justo dizer Cumpriu ! (dele também se pode dizer que enriqueceu com propriedades).
André Bonirre
André Bonirre
Pesquisa incompleta
~.~.~ FNAT ~ INATEL ~.~.~ Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (? - ?) // Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres (? – 2003) // Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (2003 -).. custa tanto pesquisar ao sol.
André Bonirre
André Bonirre
Mundana (e Sara)
Os Abas fizeram uma reunião de trabalho After Hours. Um feixe de fotões jorrava da mesa e mil planos embatiam em movimento browniano nas cabeças inspiradas da Isabel, do PC, do Sérgio e do Nuno, sob o olhar tranquilo da Armanda.
Gostamos muito do granito, dos intrusos quando chegam assim, e há muito tempo que seguimos o avatar de um desejo assim e vamos linká-los logo que acabe a festa.
Espreitámos no livro que a Rute leu no autocarro.
Comprámos As Ondas para ler convosco.
Votámos numa canção de Outono para a Cristina e o Francisco alinharem um programa. Alegrámo-nos com a chegada do Zé Mário. Vimos os do Aviz e do DicionarioDiabo como mais gostamos deles: a falar de poesia.
Sentámo-nos à mesa com O Carlos Alberto, no TAGV, que é um pouco a nossa casa.
Agradecemos o convite para a exposição de fotografia Diplicidades. Lá estaremos.
Sofremos com as noites da Sara.
09 Outubro 2003
Chanfana [ pausa ] a carne de casamento da Beira Litoral
Durante o casamento, testemunhei um assassinato cruel em pleno copo de água. “.. o André, mas esse gajo, toda a gente sabe, é a pior cama [ pausa ] da beira litoral..”, o André é outro, entendamo-nos, e a frase roubei-a a um gajo que ganhou sem proveito fama de maluco. Ninguém o entrevista? É um filão.
André Bonirre
André Bonirre
Carnes de Casamento
Ele e Ela são dois presidentes muito populares rivais no engrandecimento de seus concelhos limítrofes a Coimbra Capital da Cultura. Engrandeceram.
Ela, declarou-se Capital Nacional, Ele, proclamou A Capital Universal. E a Capital da Papuásia, isto pergunto Eu, em manobra patriótica de diversão, ai de nós se os inimigos da América descobrem quem são afinal os novos donos do mundo..
André Bonirre
Ela, declarou-se Capital Nacional, Ele, proclamou A Capital Universal. E a Capital da Papuásia, isto pergunto Eu, em manobra patriótica de diversão, ai de nós se os inimigos da América descobrem quem são afinal os novos donos do mundo..
André Bonirre
Re:Re:Re:Re
"de mim costumo dizer que sou um girassol, que no fundo dos meus olhos brilham dois sóis negros. a tristeza é o meu ofício. vivo de verão, de sede de sol, definho e encolho-me no Outono à passagem das folhas caídas. levei anos a substituir o negro, o antracite do meu guarda-roupa pelos vermelhos e azuis. levei anos a deixar crescer o cabelo. os anos não aprenderam ainda a expulsar o deserto que me habita. 'pedra', 'sal', 'ruína' são as minhas plavras preferidas. de vez em quando. também tive um amor que me deixou no verão. um que, se morresse, me deixaria os olhos como dois sóis apagados."
posted by claire lunar
Queremos mais, post em re: de mail, inventamo-nos assim, encontramo-nos aqui?
posted by claire lunar
Queremos mais, post em re: de mail, inventamo-nos assim, encontramo-nos aqui?
Hoje é outro dia
O dia de ontem não foi bom: o povo da Califórnia elegeu governador o rapaz que aos 18 anos encheu os músculos e os neurónios de esteróides. Portugal foi classificado como o terceiro país mais corrupto da região europeia. Uma professora atirou dois alunos pela janela fora. Mas pior do que tudo: a Nicole Kidman, apesar dos nossos assistentes avisos, meteu-se com o grosseirão do Lars von Trier. Que dura lei faz as mulheres de quem gostamos entregarem-se a gente como esta?
O seu a seu dono (correcção)
A prosa rasteira que EPC dedica à poesia de Manuel de Freitas é afinal uma citação não creditada do artigo de Gastão Cruz na revista Relâmpago dedicada à Novíssima Poesia Portuguesa.
Edições de morte
No Campo das Letras uma soberba edição de O instante da Minha Morte/ L'Instant de ma mort de Maurice Blanchot (ed. bilingue)
Qu'importe. Seul demeure le sentiment de légèreté qui est la mort même ou, pour le dire plus précisémente, l'instant de ma mort désormais toujours en instance.
Che cos'è la poesia, de Jacques Derrida, na colecção Marfim, já referida, da Angelus Novus
A partir de agora chamarás poema a uma certa paixão da marca singular, a assinatura da que repete a sua dispersão, de cada vez além do logos, ahumana, escassamente doméstica, nem reapropriável na família do sujeito: um animal convertido, enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma modesta e discreta, próxima da terra, a humildade que sobrenomeias, assim te transportando para o nome, um ouriço catacrético, todas as flechas eriçadas, quando este cego sem idade ouve mas não vê chegar a morte.
Qu'importe. Seul demeure le sentiment de légèreté qui est la mort même ou, pour le dire plus précisémente, l'instant de ma mort désormais toujours en instance.
Che cos'è la poesia, de Jacques Derrida, na colecção Marfim, já referida, da Angelus Novus
A partir de agora chamarás poema a uma certa paixão da marca singular, a assinatura da que repete a sua dispersão, de cada vez além do logos, ahumana, escassamente doméstica, nem reapropriável na família do sujeito: um animal convertido, enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma modesta e discreta, próxima da terra, a humildade que sobrenomeias, assim te transportando para o nome, um ouriço catacrético, todas as flechas eriçadas, quando este cego sem idade ouve mas não vê chegar a morte.
08 Outubro 2003
A excepção e a regra
Acabo de saber. Por causa da notícia de uma excepção já lá vão dois, diga-se, não muito excepcionais. E os outros indiscutidos, que fazem da excepção regra? A mim o que me custa é o António Francisco, assim imponderado, não será um ex medalhado póstumo.
André Bonirre
André Bonirre
07 Outubro 2003
O Livro Aberto A poesia A nossa salvação
O Livro Aberto de hoje...Espero que tenham visto. O Francisco José Viegas no seu melhor, mostrando como se modera um programa, quase não se mostrando. Os convidados, cinco, sem se atropelarem. Fernando Martinho, Eugénio Lisboa, Eduardo Pitta, F. Pinto do Amaral e o nosso Pedro Mexia...sentimo-nos orgulhosos. Falaram da novíssima geração que não teve necessidade de matar o pai e que percebeu que a simplificação da linguagem que a nova poesia opera precisava de se sentir herdeira das gerações anteriores, de ter a sua linhagem, as suas margens e os outros. Um momento alto: quando o moderador exibiu o livro de Eduardo Pitta, Fractura, da Angelus Novus, colecção Marfim. E para nossa alegria e inspiração a galeria dos nossos poetas, repetidamente e unanimemente citados : Ruy Belo, Jorge de Sena, Mário Cesariny de Vasconcelos, Sophia e, pela voz do Pedro Mexia a Fiama, o António Franco Alexandre e o Manuel António Pina. Para os insones: repete amanhã na RTP um à 01:30h.
o DVD da Casa B-125
O João Vaz d’O PRENSA faz a mesma pergunta que eu e muitos outros – então quando é que sai o DVD da Casa B, essa Festa Okupa de boa memória, vai fazer a 13 de Dezembro um ano? Fontes próximas da Produção declararam que “o DVD é difícil mas é nosso”, o que, confesso, não me empolga, dissemos o mesmo da Vitória, essa puta não me consta que tivesse um final feliz.
André Bonirre
André Bonirre
o PRENSA está aí - SLEEPING AROUND
Lembram-se dos Textos da Adília na Livraria XM nas escadas do quebra-costas? Foi na primavera do ano passado, havia morangos, um contra-baixo, 4 hilariantes actores jovens e ficámos todos quase ao colo uns dos outros. O João Vaz avisa que o PRENSA regressou ao activo com mais um espectáculo, em cena de 9 a 18 de Outubro no Teatro do Inatel. Bute embora SLEEPING AROUND malta!
André Bonirre
André Bonirre
O Cartulário
Inimigo formidável é o que encontrei
nos sítios que percorria
desarmado. Era o fim de tarde
mas parecia manhã
na mata de carvalhos em outubro.
A águia bonelli
massajava em vagares
o cimo da colina
e de vez em quando
relinchava um cavalo
sem alarme.
Inimigo formidável é o que apareceu
nos trilhos que os amigos percorrem
confiantes
Ele é implacável e é frágil
ataca onde não estou
e por isso parece inofensivo
Não percebo de onde vem
Nem as minhas mãos recordam
os horríveis crimes que me grita.
Alguma coisa lhe deves ter feito
Dizem-me incomodados os amigos
O inimigo formidável
poupa-me a cara
- chama-lhe máscara
Não golpeia o meu corpo exposto
- chama-lhe armadura
Os meus amigos seguiram o trilho
até ao destino desta tarde de outono.
Só a águia assiste ao meu combate.
Porque fiquei? quando até os cavalos sobem à portela
Porque mostro ao cartulário
os registos das minhas propriedades?
Porque me troca os guias
As cartas topográficas, a mochila?
Qualquer coisa que nem sequer notaste...
Posso morrer, aqui
De um inimigo assim?
Dependência bancária
Dependências Bancárias, [o João, ao ver a bicha, disse-o com a entoação certa ] .. só o nome diz tudo!
André Bonirre
André Bonirre
Dependência instrutiva
António Francisco, uma vida de rigor, seguiu à risca as instruções dos novos maços negros de tabaco e rápido se transformou no primeiro futuro ex tóxico independente europeu. A família reclama a Medalha de Zelo e Bom Comportamento Póstumo. O ministro da tutela pondera.
André Bonirre
André Bonirre
06 Outubro 2003
Memória afectada
noitrslargaemetudoenterivamosotufugira / xxxxx----xxxxx---xxxxxx----xxx----xx / .larga.tudo.vamos.fugir. é uma história que não vou contar, um desassossego passado saved in the near memory.
Passados tantos anos recebo hoje um mail from coralia@mail, uma mensagem lacónica “kjhjkhtgllkawre”. Recupero dos backups da memória as cifras cúmplices de outrora, uma arrelia, kjhjkhtgllkawre não se deixa desencriptar. Ah, claro, estou infectado...
André Bonirre
Passados tantos anos recebo hoje um mail from coralia@mail, uma mensagem lacónica “kjhjkhtgllkawre”. Recupero dos backups da memória as cifras cúmplices de outrora, uma arrelia, kjhjkhtgllkawre não se deixa desencriptar. Ah, claro, estou infectado...
André Bonirre
Duma russa infectada
Ando despreocupado, tenho um sistema informático à prova de vírus, passa-me todos os dias atestados de robustez como este:
FOUND VIRUS IN MAIL from admin@duma.gov.ru
Duma.Gov.Ru! Que abrupta inquietação. Será a prova de que sempre pode haver contágio homem-máquina? E se os servidores do governo português forem também eles vulneráveis às debilidades dos titulares das pastas ministeriais? Pois, criaram a Comissão Reguladora da Saúde, que sossego.
André Bonirre
FOUND VIRUS IN MAIL from admin@duma.gov.ru
Duma.Gov.Ru! Que abrupta inquietação. Será a prova de que sempre pode haver contágio homem-máquina? E se os servidores do governo português forem também eles vulneráveis às debilidades dos titulares das pastas ministeriais? Pois, criaram a Comissão Reguladora da Saúde, que sossego.
André Bonirre
Antologia de O Mal
Por esses e outros motivos
Essência? Só se for a gasolina.
Para Heidegger, Leibnitz ou Espinoza
era eu na altura demasiado novo
e agora (devo confessá-lo) demasiado
velho. O mundo, estou em crer,
não passa ou não quer passar
por esses solenes alçapões do sentido.
Sistemas, teorias, relógios tão parados.
Nascemos (é um azar comum),
envelhecemos mal, temos dúvidas
e dívidas sobre as quais ninguém
-mesmo que se lhe chame Deus-
responde. Ou até filhos parecidos,
emblemas da matéria que provisoriamente
nos devolvem o nariz adunco,
um sinal, a morte tatuada e certa.
Coisas que remendem o melhor dos mundos.
Eu (devo confessá-lo?) tenho passado bem
sem filosofia e sem emprego. Não corro
aos púlpitos disponíveis, não protesto
- e prefiro passar fome de gin quando o restaurante
que me espera se traduz em várias línguas.
É por esses e outros motivos
que não gosto assim tanto
dos poetas meus contemporâneos.
Manuel De Freitas in [SIC]
Essência? Só se for a gasolina.
Para Heidegger, Leibnitz ou Espinoza
era eu na altura demasiado novo
e agora (devo confessá-lo) demasiado
velho. O mundo, estou em crer,
não passa ou não quer passar
por esses solenes alçapões do sentido.
Sistemas, teorias, relógios tão parados.
Nascemos (é um azar comum),
envelhecemos mal, temos dúvidas
e dívidas sobre as quais ninguém
-mesmo que se lhe chame Deus-
responde. Ou até filhos parecidos,
emblemas da matéria que provisoriamente
nos devolvem o nariz adunco,
um sinal, a morte tatuada e certa.
Coisas que remendem o melhor dos mundos.
Eu (devo confessá-lo?) tenho passado bem
sem filosofia e sem emprego. Não corro
aos púlpitos disponíveis, não protesto
- e prefiro passar fome de gin quando o restaurante
que me espera se traduz em várias línguas.
É por esses e outros motivos
que não gosto assim tanto
dos poetas meus contemporâneos.
Manuel De Freitas in [SIC]
05 Outubro 2003
EPC ou A ampla e empolgante experiência dos verdadeiros poetas
Manuel de Freitas não é um "novo poeta português". É um poeta. Um grande poeta dos nosso tempo. Um dia tinha de acontecer. Eduardo Prado Coelho, que não gosta de chegar tarde, voltaria "os ombros pós-estruturalistas" e falaria de Manuel de Freitas. Fá-lo, no meu entender, da pior maneira.
Começou bem, com uma recensão ao seu último livro ( por acaso ainda não distribuído na capital nacional da cultura). Era uma crónica que tinha de aliciante algumas citações de poemas ou fragmentos. Ontem, de novo no mil-folhas, interroga-se sobre a "nova poesia portuguesa".
Manuel de Freitas seria, para alguns, o aglutinador de uma tendência da mais recente poesia portuguesa explicitada nos textos que acompanham um volume colectivo intitulado poetas sem qualidades
Para quem não conhece lembramos que se trata de uma belíssima antologia editada pela Averno em 2002, mas que só este ano teve alguma difusão . Manuel de Freitas antologia nove poetas, dos quais escolhe sete poemas. Além disso escreve um prefácio e uma breve nota biográfica de cada um dos seleccionados (ana paula inácio, carlos alberto machado, carlos luís bessa, joão miguel queirós, josé miguel silva, nuno moura, rui pires cabral, vindeirinho e anónimo). No prefácio, reivindica para o tempo actual, um estilo novo. Esse estilo só se pode definir, ainda, por aquilo que não é. "Estes poetas não são limadores das arestas que a vida deveras tem" e por isso eles são muitas vezes os poetas da nossa cidade desencantada. Mas, correlativamente, eles recusam a auréola "mediática", o "culturalismo auto-suficiente", a "paráfrase de luxo".
O livro poetas sem qualidade tem uma capa sobre fotografia de Sérgio Eloy e a anotação de dele"se terem feito 350 exemplares" (o número de leitores que em dias de fausto A Natureza do Mal se orgulha de ter). Inicia-se com uma citação de Herberto Helder.: "Os poetas estão a avançar com uns vagares de galinholas. Porra."
Entretanto estes poetas avançaram. Manuel de Freitas publicou quatro livros. Carlos Alberto Machado, Carlos Luís Bessa, José Miguel Silva e Rui Pires Cabral, pelo menos, editaram excelente poesia. Outros, que poderiam ter pertencido a esta recolha e não desdenhariam o rótulo de sem-qualidades, continuaram a escrever, e em alguns casos a publicar, discretamente, os tais 350 exemplares, que não esperam nem recensão nem crítica. Mas que, numa rede obscura de comunicação, sabe-se lá porquê, fazem esta porra avançar.
Colateralmente, um editor do Norte,veio à liça com uma polémica que teve os seus pontos baixos em textos de uma publicação chamada Apeadeiro e numa troca de opiniões rotulada de autárquica, no mil-folhas.
Nessa polémica, jorge reis-sá chamava aos poetas sem qualidades (estou a simplificar mas isto já vai longo para post) adoradores de latrinas sem sentido do transcendental, que é, como sabem aquele dom, como a fé nos crentes, que os verdadeiros poetas ostentam nas nobres frontes.
Pois é essa crítica que EPC, agora, de cernelha, veicula.
Leia-se e espante-se:Freitas seria um cultor de uma "poesia de experiência" cuja experiência não é particularmente ampla ou empolgante: e, EPC cita sem dizer quem, "o mero cliché de uma marginalidade de papelão, com as constantes referências ao alcoól, aos bares, etc, ou a simples observação directa do que ocorre num centro comercial, no supermercado ou no café". E, agora é EPC sem aspas, a finalizar: Daí que estas posições resvalem para uma facilidade medíocre a que falta o que Fernando Pessoa considerava essencial." uma noção da gravidade e do mistério da vida".
Lê-se e pasma-se. Afinal EPC é um jorge reis-sá que aprendeu a escrever. Pensar que esta gente pode, com a rápida leitura oblíqua que faz para alimentar a Cacofonia, ser injusta, vingativa, redutora- condenar a poesia a avançar como galinholas.
Os poetas como Freitas continuarão, "a desabrigo, a dizer o que dizem".
Começou bem, com uma recensão ao seu último livro ( por acaso ainda não distribuído na capital nacional da cultura). Era uma crónica que tinha de aliciante algumas citações de poemas ou fragmentos. Ontem, de novo no mil-folhas, interroga-se sobre a "nova poesia portuguesa".
Manuel de Freitas seria, para alguns, o aglutinador de uma tendência da mais recente poesia portuguesa explicitada nos textos que acompanham um volume colectivo intitulado poetas sem qualidades
Para quem não conhece lembramos que se trata de uma belíssima antologia editada pela Averno em 2002, mas que só este ano teve alguma difusão . Manuel de Freitas antologia nove poetas, dos quais escolhe sete poemas. Além disso escreve um prefácio e uma breve nota biográfica de cada um dos seleccionados (ana paula inácio, carlos alberto machado, carlos luís bessa, joão miguel queirós, josé miguel silva, nuno moura, rui pires cabral, vindeirinho e anónimo). No prefácio, reivindica para o tempo actual, um estilo novo. Esse estilo só se pode definir, ainda, por aquilo que não é. "Estes poetas não são limadores das arestas que a vida deveras tem" e por isso eles são muitas vezes os poetas da nossa cidade desencantada. Mas, correlativamente, eles recusam a auréola "mediática", o "culturalismo auto-suficiente", a "paráfrase de luxo".
O livro poetas sem qualidade tem uma capa sobre fotografia de Sérgio Eloy e a anotação de dele"se terem feito 350 exemplares" (o número de leitores que em dias de fausto A Natureza do Mal se orgulha de ter). Inicia-se com uma citação de Herberto Helder.: "Os poetas estão a avançar com uns vagares de galinholas. Porra."
Entretanto estes poetas avançaram. Manuel de Freitas publicou quatro livros. Carlos Alberto Machado, Carlos Luís Bessa, José Miguel Silva e Rui Pires Cabral, pelo menos, editaram excelente poesia. Outros, que poderiam ter pertencido a esta recolha e não desdenhariam o rótulo de sem-qualidades, continuaram a escrever, e em alguns casos a publicar, discretamente, os tais 350 exemplares, que não esperam nem recensão nem crítica. Mas que, numa rede obscura de comunicação, sabe-se lá porquê, fazem esta porra avançar.
Colateralmente, um editor do Norte,veio à liça com uma polémica que teve os seus pontos baixos em textos de uma publicação chamada Apeadeiro e numa troca de opiniões rotulada de autárquica, no mil-folhas.
Nessa polémica, jorge reis-sá chamava aos poetas sem qualidades (estou a simplificar mas isto já vai longo para post) adoradores de latrinas sem sentido do transcendental, que é, como sabem aquele dom, como a fé nos crentes, que os verdadeiros poetas ostentam nas nobres frontes.
Pois é essa crítica que EPC, agora, de cernelha, veicula.
Leia-se e espante-se:Freitas seria um cultor de uma "poesia de experiência" cuja experiência não é particularmente ampla ou empolgante: e, EPC cita sem dizer quem, "o mero cliché de uma marginalidade de papelão, com as constantes referências ao alcoól, aos bares, etc, ou a simples observação directa do que ocorre num centro comercial, no supermercado ou no café". E, agora é EPC sem aspas, a finalizar: Daí que estas posições resvalem para uma facilidade medíocre a que falta o que Fernando Pessoa considerava essencial." uma noção da gravidade e do mistério da vida".
Lê-se e pasma-se. Afinal EPC é um jorge reis-sá que aprendeu a escrever. Pensar que esta gente pode, com a rápida leitura oblíqua que faz para alimentar a Cacofonia, ser injusta, vingativa, redutora- condenar a poesia a avançar como galinholas.
Os poetas como Freitas continuarão, "a desabrigo, a dizer o que dizem".
Caranguejo
UM CARANGUEJO tinha a mania
que era escritor. Escreves porquê?
Para pôr um arco de oiro
na minha vida breve. Falava,
como se vê, a linguagem
dos caranguejos, para passar o tempo
que faltava até vir a maré alta, para
proteger do sal as trevas
e combinar as luzes do sol
com as luzes da água, para deixar
gravado no ar o ar apertado
entre duas tenazes, para iluminar
o canto do meu andar viciado.
Helder Moura Pereira (Os Poemas do Coelho Ramon, Assírio & Alvim, Colecção Assirinha)
Presente deixado na caixa de correio do Mal, da Ana Gomes Ferreira
que era escritor. Escreves porquê?
Para pôr um arco de oiro
na minha vida breve. Falava,
como se vê, a linguagem
dos caranguejos, para passar o tempo
que faltava até vir a maré alta, para
proteger do sal as trevas
e combinar as luzes do sol
com as luzes da água, para deixar
gravado no ar o ar apertado
entre duas tenazes, para iluminar
o canto do meu andar viciado.
Helder Moura Pereira (Os Poemas do Coelho Ramon, Assírio & Alvim, Colecção Assirinha)
Presente deixado na caixa de correio do Mal, da Ana Gomes Ferreira
Oito e meia
Escrevo e edito à hora dos telejornais. Da prédica semanal do professor Marcelo e da concorrência. Mas não conseguirei escapar à Cacofonia. Ver próximos posts.
(Est)A hora a que escrevo
Escrevo e edito a esta hora de domingo na Natureza do Mal. Oh amigos preocupados com a hora a que escrevo ou edito. Com a minha ruína financeira? Com o Relógio de Ponto e os outros legítimos superiores? Com o meu curriculum vitae? Com as minhas possibilidades nas próximas eleições europeias?
Viva a República
De manhã a Guida Sizenando mandou um sms aos amigos com estes dizeres. A Guida honra os pergaminhos da família- e com isso aproxima-se do partido monárquico. Escrevo aqui, e ela sabe que estou a falar a sério: prefiro ter como rei um descendente estouvado do usurpador Miguel, dessa horrível dinastia de Bragança, que viver numa República que elege o prof. Cavaco Silva (e a Maria).
03 Outubro 2003
Não esperem nada dele
Debalde procurei na blogosfera ecos do Livro Aberto. Posso ter procurado nos lugares errados. Mas parece-me que ninguém conhece. Nem ele.
Glória Fácil?
O problema com este lugar tão prometedor não é a Maria João e o Nuno (e a ASL)nunca mais voltarem de férias. É o JPH ter tido poucas.
Que idéia excelente!
Depois de trocarmos livros, de os deixarmos esquecidos em lugares improváveis à espera que alguém os encontre, podemos agora ler em conjunto e falar uns com os outros.
Aprendizagens práticas
Mao Tse Tung renegado ou a negação da negação
Perco-me às vezes em operações de lógica matemática que me paralisam e se calhar prejudicam. Um exemplo. O êxito da prática arrivista de tantos ex-maoistas de sucesso não será a confirmação da justeza da tese maoista por eles re/negada - “é da prática que vêm as ideias justas” ?
[post dedicado a todas as excepcionais excepções nacionais de ontem e de hoje]
Almotolia e uma ideia justa
Ontem ao fritar um peixe percebi na carne o significado de “golpe de azeite” (vd. “ABC do Cozinheiro”, ed. Mir, pg. 37). Aprendi na prática. Já arrumei o latão artesanal, opto pelo progresso.
André Bonirre
Perco-me às vezes em operações de lógica matemática que me paralisam e se calhar prejudicam. Um exemplo. O êxito da prática arrivista de tantos ex-maoistas de sucesso não será a confirmação da justeza da tese maoista por eles re/negada - “é da prática que vêm as ideias justas” ?
[post dedicado a todas as excepcionais excepções nacionais de ontem e de hoje]
Almotolia e uma ideia justa
Ontem ao fritar um peixe percebi na carne o significado de “golpe de azeite” (vd. “ABC do Cozinheiro”, ed. Mir, pg. 37). Aprendi na prática. Já arrumei o latão artesanal, opto pelo progresso.
André Bonirre
A educação de Rita (em risco)
Estava a ver-se. Só faço asneiras nos últimos tempos. Engano-me nos comentários e nas caixas de correio. Armo-me em ridículo conselheiro literário (só mesmo a blogosfera ne podia dar esse estatuto). Li as Cartas do Rilke a Um jovem Poeta e tresli. Devo parar, pergunto-me? Os meus amigos tratam-me com a distância e o desvelo que se reserva aos doentes incuráveis. Só faltave esta: a Rita, o meu poeta favorito de Setembro , que percebo ser o nome colectivo que reúne três dos meus links favoritos, (coluna ao lado), manda-me esta carta. Não há consolo para o lamento mudo.
Mestre
Desvanece-me
O seu desvelo
pela minha educação formal.
Os seus conselhos
Repito-os em surdina.
Os livros que me dá
Levo-os comigo.
As palavras que gentilmente envia
São a correnteza da minha respiração.
Em breve serei uma criatura sua.
Perversa, original, sofisticada.
Um pequeno senão
Lhe devo no entanto
Confessar
E faço-o agora não vá a sua natureza volátil
Dissipar
Antes do tempo
O tempo que com espanto
Me vem dar
Antes de si
Quase não lia
Não há livros em casa de meus pais
E até na conta do merceeiro
Damos erros
Pior que isso são os meus pés
Os tornozelos grossos
O arco abatido
Não cabem nos chinelos delicados
Agora em voga
Nada disto é de monta
Para si querido Mestre
Não o desaponta
Um pormenor como este
A si que tem em conta
A escuridão dos fundos
Não o amedronta
A imperfeição do Mundo
Rita
Afinidades Electivas
O Partido Socialista entrou na blogosfera com um blog de intervenção autárquica lisboeta. Digam lá se ele tinha ou não razão? Eu não tenho nada contra os partidos, sem eles não há democracia, blá- blá -blá. Mas irrita-me aquele visual que mais parece o Benfica, tendência Madaleno, com direcções de sedes e tudo, estilo campanha de novas adesões. Juntaram algumas dessas figuras a-quem-todos-tanto-devemos, que dão imenso jeito nestes difíceis tempos de oposição, quando os anteriores dirigentes andam pelas empresas a recuperar do emagrecimento que o serviço público sempre provoca, e a quem se reserva, quando voltarem ao poder, um lugar de adido cultural na Melanésia. Ainda não se percebeu se é mesmo um blog (que implica diálogo, exposição, proximidade, comunicação multidireccional) ou se um conjunto de postas que um funcionário vai colando para os eleitores lerem. Estive a juntar algumas frases e dá um belíssimo cadáver-exquisito. Se alguém quiser posso mandar, desde que não seja o Santana Lopes.
Agora vem a parte saborosa. Sabem quem é que eles linkam (coluna da esquerda)? São 4 blogs . Quatro. Três ainda não tive tempo de ir ver. Mas um é o Mar Salgado (coluna da direita).
O Carlos Encarnação não liga a esta coisa dos blogs. Mas o Nuno Freitas já não dorme descansado.
Agora vem a parte saborosa. Sabem quem é que eles linkam (coluna da esquerda)? São 4 blogs . Quatro. Três ainda não tive tempo de ir ver. Mas um é o Mar Salgado (coluna da direita).
O Carlos Encarnação não liga a esta coisa dos blogs. Mas o Nuno Freitas já não dorme descansado.
O casaco de cabedal
Encontrei-o na rua, por acaso, vinha a andar mal e assustou-me. A meio caminho da pressa para onde eu ía e da calma de onde ele vinha, calhámos os dois. Temos um daqueles entendimentos que não precisa da muleta das palavras para se manter. Já não o via há uns anos. O casaco é que ainda era o mesmo, de cabedal com as letras CK gravadas no couro escuro já sem cor definida, já meio sumidas. Afinal ele estava só com uma bolha no pé por causa dos sapatos. Ao K
faltava-lhe uma perna e quase quase se transmutava noutra letra do mesmo alfabeto. Tinha um ar confortável, sempre achei, podia usá-lo todos os dias sem cansaço ou tédio, ou esquecê-lo guardado no guardafato de uma casa visitada. Encontro assim é um luxo, conforto assim é um luxo.
PC
faltava-lhe uma perna e quase quase se transmutava noutra letra do mesmo alfabeto. Tinha um ar confortável, sempre achei, podia usá-lo todos os dias sem cansaço ou tédio, ou esquecê-lo guardado no guardafato de uma casa visitada. Encontro assim é um luxo, conforto assim é um luxo.
PC
J.M.Coetzee ( ler [kó tsE])
Dusklands ........................................................ 1974
In the Heart of the Country ............................. 1977
Waiting for the Barbarians .............................. 1980*
Life and Time of Michael K. ............................. .1983
Foe ...................................................................1986
Age of Iron ............................................. .........1990*
The Masters of Petersburg ...............................1994
Giving Offense Essays on Censorship...............1996
Boyhood: Scenes from Provincial Life................1997
The Lives of Animals..........................................1999**
Disgrace............................................................1999*
Stranger Shores: Literary Essays, 1986-1999...2001
Youth: Scenes from Provincial Life II..................2002
Elisabeth Costello..............................................2003
(bibliografia)
*traduzido em português
02 Outubro 2003
O nosso almoço revivalista correu mal porquê, Madalena?
Madalena a justa, confessada contestária compulsiva, manda-me contar até 10. Espera que eu concorde que a culpa é (ela ex-feminista irredutível) da mulher! Dá condenação leve com fortíssimas atenuantes, “canseira, não entender o grupo, desatenção”. E eu faço um esforço para concordar, ponho-me a valorizar os trabalhos deles, tiro o alentejo das beiras, admito que foi uma escolha infeliz o enfeite (ró)cócó do bolo, sei que "peixe frito/sardinha assada" só pode fazer sentido a quem é um dos nossos. Certo, isto a parte deles.. e nós? Escreve.
André Bonirre
André Bonirre
Guarda-rios
No mapa das minhas viagens espeta alfinetes com bandeiras. Uma em cada cidade, Istambul a última. Tens no desenho o meu caminho errante, desaprendido que foi o guarda-rios e o seu voo rectilíneo em azul rasante.
André Bonirre
Gostava mais
Ontem jantar de O Mal com três elementos da facção mais maligna de A Aba. Com a presença tutelar de André Bonirre. A Armanda estava sentada ao meu lado. Já na sobremesa disse-me -ela fala sempre muito baixo e eu sei que não era uma confidência: gostava mais de ti preso.
Não volto
Simpatizava com ele sem o conhecer. Quem diz de si próprio que se esforça por cumprir uma velha profecia que alguém um dia lhe rezou:nunca serás nada na vida é seguramente uma boa pessoa. E continuo seguro disso. Atento, sensível, interveniente, cheio de vontade de intervir positivamente. Mas alguém que lhe diga que tem que matar de vez quem lhe rogou a praga. E que é improvável que tenha sido a Hydra-Esquerda, Estaline, os jornalistas. Porque a obsessão- ele devia sabê-lo como ninguém, perturba a lucidez.
E como dizem por aí : a este não volto.
E como dizem por aí : a este não volto.
Dos noivos
O A.P. vai-se casar. A noiva está inconsolável. Não se acaba assim com uma união-de-facto que dura há quatro anos
Dos sacramentos
A Igreja quer acabar com os abusos cometidos na celebração dos casamentos. Embora as regras para a cerimónia sejam claras e constem do direito canónico, a diocese de Braga sentiu necessidade de publicar uma nota pastoral para relembrar as normas e evitar excessos que desvirtuam a celebração do sacramento.
As capelas privadas e as quintas que servem, simultaneamente, de cenário religioso e de festa são duas situações que a diocese pretende eliminar de vez. A celebração do casamento deve ocorrer nas igrejas onde se pratica o culto, ficando excluídas as capelas que pertencem a famílias e as quintas onde as empresas de festas realizam o chamado «copo-d'água».
«Há empreendedores turísticos com fins lucrativos que até se propõem tratar do processo todo, desde o padre, a cerimónia até à festa», explicou ao DN o cónego Valdemar Gonçalves, vigário geral de Braga e autor do documento. A orientação eclesiástica serve para acabar com este «negócio» e tentar envolver mais os noivos, familiares e amigos no sacramento.
Apesar do matrimónio católico implicar um sacramento e de as regras para a cerimónia serem evidentes, os pedidos de licença para esta celebração são diversos e rondam o insólito. Jardins, espaços privados e até o barco que faz a travessia pelo Douro são exemplos de locais onde alguém já pensou realizar o matrimónio.
A nota pastoral servirá ainda «para que o sagrado não seja desvirtuado do seu verdadeiro significado» e para «reconduzir a celebração para os locais e circunstâncias que lhe são devidas».
No Porto, certos abusos já levaram a diocese a enviar, em Outubro, uma circular para os párocos com estas recomendações. «O sacramento exige uma envolvência própria que se estava a perder», disse ao DN, fonte da diocese.
O cumprimento da norma em Lisboa não exigiu nenhuma posição por parte da diocese. «Aqui a prática é a que consta do direito canónico. O sacramento é um acto de igreja e não privado, por isso não há excepções», afirmou Luís Manuel, padre da Sé de Lisboa.
Diario de Notícias de hoje
O adviser de O Mal para questões religiosas, Jorge Oliveira, disse que se opunha à banalização do sagrado. Se duas pessoas querem tornar pública a sua relação o que o padre tem a fazer é passar para o lado do público (ele disse "comunidade") e dizer baixinho: "aceito".
As capelas privadas e as quintas que servem, simultaneamente, de cenário religioso e de festa são duas situações que a diocese pretende eliminar de vez. A celebração do casamento deve ocorrer nas igrejas onde se pratica o culto, ficando excluídas as capelas que pertencem a famílias e as quintas onde as empresas de festas realizam o chamado «copo-d'água».
«Há empreendedores turísticos com fins lucrativos que até se propõem tratar do processo todo, desde o padre, a cerimónia até à festa», explicou ao DN o cónego Valdemar Gonçalves, vigário geral de Braga e autor do documento. A orientação eclesiástica serve para acabar com este «negócio» e tentar envolver mais os noivos, familiares e amigos no sacramento.
Apesar do matrimónio católico implicar um sacramento e de as regras para a cerimónia serem evidentes, os pedidos de licença para esta celebração são diversos e rondam o insólito. Jardins, espaços privados e até o barco que faz a travessia pelo Douro são exemplos de locais onde alguém já pensou realizar o matrimónio.
A nota pastoral servirá ainda «para que o sagrado não seja desvirtuado do seu verdadeiro significado» e para «reconduzir a celebração para os locais e circunstâncias que lhe são devidas».
No Porto, certos abusos já levaram a diocese a enviar, em Outubro, uma circular para os párocos com estas recomendações. «O sacramento exige uma envolvência própria que se estava a perder», disse ao DN, fonte da diocese.
O cumprimento da norma em Lisboa não exigiu nenhuma posição por parte da diocese. «Aqui a prática é a que consta do direito canónico. O sacramento é um acto de igreja e não privado, por isso não há excepções», afirmou Luís Manuel, padre da Sé de Lisboa.
Diario de Notícias de hoje
O adviser de O Mal para questões religiosas, Jorge Oliveira, disse que se opunha à banalização do sagrado. Se duas pessoas querem tornar pública a sua relação o que o padre tem a fazer é passar para o lado do público (ele disse "comunidade") e dizer baixinho: "aceito".
O Nobel da Literatura
Hoje ainda será anunciado o Nobel da Literatura, O meu voto vai para JM Coetzee. Se Cees Noteboom ganhar também fico contente. Mas em 1996 nunca tinha ouvido falar de Wislawa Szymborska e foi bom encontrar a sua poesia. Também festejei naquele ano em que o Lobo Antunes ganhou o galardão da Academia Sueca. Agora, para ler as crónicas do António o melhor é comprar a Babelia do El Pais (todos los sabados).
01 Outubro 2003
Júdice peripatético
A Sic notícias entrevistou o José Miguel Júdice nos Gerais desde a capela à Sala Manuel de Andrade. O bastonário dos advogados, hoje um dos personagens mais fascinantes da vida política portuguesa, recordou as chapeladas que naquela sala foram trocadas. Benditas chapeladas que produzem pessoas como o Júdice, culto, lúcido, respondendo com um sorriso de bonomia às questões colocadas, mesmo se o implicavam pessoalmente.
Francisco e a autora de Sei Lá
Logo à noite, à 1.10h, na rtp 1 (chama-se assim?) o programa de livros que o Francisco- cujo regresso saudámos, apresenta às terças na ntv. Oportunidade para os fans da escritora pop M. Rebelo Pinto a reverem. Alguns pelo menos. Os de 7 já estarão a fazer ó-ó e o mesmo sucederá com os de 77. Mas uma faixa ampla de leitores pode ver MRP-como-ela-é, o seu sotaque da Cruz Quebrada não é?, a velocidade da resposta, a frescura, o seu estilo directo, "eclético", pronto-a-ler. Dois pormenores a não perder: o único momento em que ela esboça um movimento de sedução, dizendo que um homem que não gosta de futebol torna-se logo..."muuuito intessante"- e a cabeça, habitualmente inclinada para a direita aquele q.b., deita-se um pouco mais e o seu olhar de pássaro demora-se aqueles três segundos fatídicos nos olhos em retirada do entrevistador. Francisco vai às cordas e gagueja para dentro: "mas... eu...gosto de futebol".
Erros humanos, falhas de organização
"..quando o imprevisto acontece, importa identificar as suas causas: na aparência, erros humanos; na realidade, insuficiências organizacionais, as quais são identificadas quando se buscam sistematicamente as causas das causas, «cavando fundo» e «indo à raiz dos problemas». Então, 90% daquilo que pareciam ser erros humanos são, na verdade, falhas de organização. Porque «errar é humano» e não mais de 10% desses erros são cometidos intencionalmente ou impossíveis de evitar. E chegamos à questão da responsabilidade pelos acidentes. Cabe-a a quem tem autoridade directa sobre aquilo que falhou, ou a quem delegou essa autoridade? Lembre-se que, se a autoridade se delega, a responsabilidade partilha-se"
José Rafael Nascimento Acidentes, demissões e esta maldita cultura. DN 27-9-2003
enviado por HCM
José Rafael Nascimento Acidentes, demissões e esta maldita cultura. DN 27-9-2003
enviado por HCM
Narciso de mim
Evidentes traços narcísicos
Auto-retrato em ASCII
((////
_ _
. .
|
=
Sou eu
“grrr-grrrr-grrr”, sou eu, formiga forçada, a sonhar com as cigarras.
André Bonirre
Auto-retrato em ASCII
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Sou eu
“grrr-grrrr-grrr”, sou eu, formiga forçada, a sonhar com as cigarras.
André Bonirre
Mas de todos os silêncios o mais pesado é o do José Mário. Sempre o amor prejudicou a literatura.
Dou a volta e não encontro
O nosso PC é um radical: está a aperfeiçoar um instrumento de pesquisa que só abre A Glória se houver post da asl. Eu tenho esperança que a mjo volte. O meu servidor é misógino. Linko a Espuma dos dias e aparece-me o ecrã vermelho. Vou ao Socio[B]logue procurar os blogs femininos e foram todos tomados por administradores de bigodes. Para compensar gosto cada vez mais do Barnabé. Descobri um Intruso prometedor- suspeito que o Tolentino está_________retirado no arrábido. Procuro a Zazie pelo interstício e não a encontro. Imagino-a em árdua pesquisa clerical.
Vôo Cancelado
De manhã na rádio anunciam a fusão da KLM com a Air France. Agora ou em breve haverá apenas três companhias na Europa. Esta, a B. A. e a Lufthansa. As companhias de bandeira nacional que sobrevivem extinguir-se-ão em breve. O comentador (Nicolau Santos) disse que não haverá vantagens para o viajante: maior possibilidade de cartel com fixação de preços mínimos; improbabilidade de destinos pouco rentáveis. Não vou lamentar-me. As cidades para onde queria voar já foram destruídas.
Benvindo
O Francisco voltou. Benvindo.
À noite vimo-lo uma hora à conversa com a Margarida Rebelo Pinto no programa da NTV. Ele parecia conhecer profundamente os sete livros dela mais os três projectos "ainda em Moleskine". Ela vestia uma malha de gola com um estampado pop em tons de lilás,indigo e fúcsia, argolas largas, o cabelo escorrido em pontas assimétricas.Tinha uma base pálida na cara e agradeci-lhe mentalmente por nos poupar ao bronzeado impúdico que agora todos exibem na pantalha. Falaram durante uma hora. Ela escolheu um livro do Calvino, o que pareceu uma escolha inteligente face ao que hoje havia em cima da mesa. Acabaram com pouca vivacidade. Cansados um do outro. Parecia uma crónica da Máxima à conversa com uma crónica da Max men. As mãos dela são lindíssimas.
À noite vimo-lo uma hora à conversa com a Margarida Rebelo Pinto no programa da NTV. Ele parecia conhecer profundamente os sete livros dela mais os três projectos "ainda em Moleskine". Ela vestia uma malha de gola com um estampado pop em tons de lilás,indigo e fúcsia, argolas largas, o cabelo escorrido em pontas assimétricas.Tinha uma base pálida na cara e agradeci-lhe mentalmente por nos poupar ao bronzeado impúdico que agora todos exibem na pantalha. Falaram durante uma hora. Ela escolheu um livro do Calvino, o que pareceu uma escolha inteligente face ao que hoje havia em cima da mesa. Acabaram com pouca vivacidade. Cansados um do outro. Parecia uma crónica da Máxima à conversa com uma crónica da Max men. As mãos dela são lindíssimas.